Nos últimos meses, participei de muitas conversas sobre Inteligência Artificial. Os empresários querem saber que ferramenta comprar. Profissionais perguntam quais empregos vão desaparecer. Executivos tentam preparar suas equipes para uma mudança que ainda não compreendem por inteiro.
A conversa quase sempre começa pela tecnologia. A minha costuma começar pela experiência.
Faz sentido. Acompanho transformações tecnológicas há quase quatro décadas. Vi os computadores entrarem nas empresas, a internet comercial mudar os negócios e os smartphones alterarem nossa forma de trabalhar. Em cada virada, ouvi versões da mesma pergunta: o que acontece com quem já construiu uma carreira?
Durante muito tempo, associamos experiência ao acúmulo de conhecimento. Quanto mais anos de profissão, maior seria o valor de alguém.
A IA mexeu nessa conta.
Uma ferramenta localiza informações em segundos, compara cenários, resume um livro e organiza dados que levaríamos horas para reunir. Muito do conhecimento que antes distinguia um profissional tornou-se acessível.
Isso diminui a experiência?
Passei a pensar que muda o seu significado.
Quando a informação deixa de ser rara, ganham peso outras capacidades: perceber o contexto, formular a pergunta certa e decidir quando nenhuma resposta vem pronta.
É nesse ponto que os anos vividos podem fazer diferença, desde que tenham sido transformados em experiência de verdade.
Volto sempre a uma frase: experiência não é o tempo que passou. É o conhecimento construído pela execução, refinado pela reflexão e transformado em novas escolhas.
A IA reconhece padrões com uma velocidade impressionante. Ainda somos nós que convivemos com as consequências de uma decisão. Somos nós que lemos a sala, escutamos o que não foi dito e assumimos o risco de escolher.
Por isso, não enxergo uma disputa simples entre pessoas e máquinas. Vejo profissionais usando a IA para pensar melhor e outros terceirizando a ela até aquilo que deveriam compreender.
A diferença não estará apenas no acesso à ferramenta. Estará na qualidade do repertório que levamos até ela e no que fazemos depois da resposta.
Conheço profissionais experientes que se tornaram iniciantes outra vez. Perguntam, testam, erram e voltam. A experiência deles não ficou menor. Ficou disponível para um mundo novo.
Também conheço quem use os anos de carreira como argumento para não aprender. Nesse caso, o passado vira proteção. E proteção demais pode nos afastar justamente do futuro que precisamos entender.
A experiência continua valiosa quando permanece viva.
Aprender deixou de ser uma fase anterior à carreira. Passou a acompanhá-la do começo ao fim.
Experimento da Semana
Pense na habilidade que mais contribuiu para sua carreira até aqui.
Ela continuará suficiente nos próximos dez anos?
Se você não souber responder, escolha uma pequena forma de testá-la diante das mudanças que já chegaram ao seu trabalho.
A pergunta que ficou comigo esta semana
Se a Inteligência Artificial responde cada vez mais rápido, que perguntas humanas passaram a valer mais?
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