Agir com gentileza faz bem para a saúde?

A ciência começa a mostrar que a gentileza pode fazer bem também a quem a pratica. Estudos indicam efeitos na recuperação do estresse, na ansiedade, depressão, solidão e conexão social. Ainda não é terapia, mas reforça como cuidar do outro também pode repercutir em nossa saúde.

Prefere ouvir? Toque para o portal ler a matéria para você.

Você dá passagem no trânsito. Ouve sem interromper. Cede o melhor lugar. Escreve um bilhete de agradecimento. Dá bom dia a um estranho. Talvez sem perceber, você está agindo em favor de algo maior, que vai além de você, invisível mas presente desde o início dos tempos: a preservação da vida, do outro, da sua e do todo. 

Segundo o dicio.com.br, gentileza é “a qualidade de quem demonstra delicadeza, amabilidade e boa educação no trato com as outras pessoas”. A ideia de que fazer o bem ao próximo também pode beneficiar quem o faz é praticamente universal nas religiões antigas. Porém, faz pouco tempo que os neurocientistas passaram a explorar os efeitos fisiológicos de se dizer “com licença, por favor, obrigado”.

Dois estudos recentes sobre gentileza apresentaram resultados interessantes. Ambos foram realizados por pesquisadores da Universidade da Califórnia, a UCLA. 

Em 2022, Lee Lazar e Naomi Eisenberger publicaram na revista Psychophysiology o estudo “Os benefícios da caridade: efeitos do comportamento pró-social na recuperação do estresse” (tradução livre). A questão avaliada era relativamente simples. Depois de submeter os indivíduos a uma situação estressante, qual de duas atitudes logo após o evento reduziria mais seis danos metabólicos: fazer algo positivo por si mesmo ou fazer algo bom para outra pessoa. Os participantes foram distribuídos em três grupos: um que pegaria um cartão-presente para si mesmo, outro que enviaria um cartão-presente para alguém de sua escolha, e um terceiro que apenas avaliaria e apontaria qual cartão considerava mais bonito - este último grupo existiu para afastar a possibilidade de que um efeito benéfico estivesse vindo do simples contato com o cartão e não do fato dele servir como presente. Usando de medidas que representam a intensidade do estresse sofrido pelo organismo - frequência cardíaca, pressão arterial e dosagem de cortisol (o hormônio do estresse), foi possível avaliar o efeito anti-estresse ocorrido em cada um dos grupos. 

Os resultados? Aqueles que deram o cartão-presente para alguém apresentaram, em comparação aos que o fizeram para si ou que simplesmente olharam para os cartões, um melhor controle da frequência cardíaca e da pressão arterial. Além disso, quanto mais forte o sentimento pró-social associado ao gesto, maior foi a redução da pressão arterial. Curiosamente, isso não foi acompanhado por uma melhora equivalente naquilo que as pessoas diziam sentir, ou nas medidas hormonais. Ou seja, fazer algo por outra pessoa parece fazer bem para quem o fez mesmo quando este não sentia a melhora. Traduzindo em termos mais simples, o corpo foi beneficiado mesmo sem que seu dono o percebesse.

O segundo estudo, publicado em 2026 na revista Emotion, da Associação Americana de Psicologia, com o título Explorando os efeitos de intervenções pró-sociais e de autocompaixão em desfechos de saúde mental (tradução livre).

A pergunta aqui foi semelhante à do estudo descrito acima, mas ao invés dos efeitos no estresse, foi sobre ocorrências de problemas de saúde mental: quando buscamos melhorar nosso bem-estar, existe alguma diferença entre praticar gentileza consigo mesmo e praticar gentileza com outras pessoas? Os participantes também foram distribuídos aleatoriamente em três grupos: gentileza dirigida aos outros, gentileza dirigida a si próprio ou grupo controle. Durante duas semanas, as pessoas dos dois primeiros grupos deveriam realizar três atos de gentileza por semana. Ao final, 777 participantes haviam completado a intervenção. Os resultados mostraram diferenças interessantes.

Comparadas ao grupo controle, as pessoas orientadas a realizar atos de gentileza para outras pessoas apresentaram redução de sintomas de depressão, ansiedade e solidão. As pessoas orientadas a realizar atos de gentileza para si mesmas também apresentaram redução da depressão, mas não foram observadas diferenças significativas em ansiedade e solidão em relação ao grupo controle.

Houve ainda uma diferença sobre como essas experiências eram vividas. Quem praticava gentileza consigo mesmo relatava mais sentimentos positivos durante os atos. Quem fazia algo pelos outros relatava maior sensação de conexão social.

Juntos, os trabalhos apontam para uma ideia interessante, mas ainda não definitiva: fazer algo por outra pessoa pode produzir benefícios para quem faz, e esses benefícios talvez sejam diferentes daqueles obtidos quando fazemos algo agradável para nós mesmos.

No primeiro estudo, essa diferença aparece principalmente na fisiologia da recuperação do estresse. No segundo, apareceu na saúde mental e na sensação de conexão com outras pessoas.

Nenhum dos dois estudos permite afirmar que ser altruísta previne doenças ou que atos de gentileza devam ser tratados como terapia. Eles oferecem evidências experimentais de que o comportamento pró-social pode interferir em processos psicológicos e fisiológicos mensuráveis, além de boas razões para continuar investigando por quê.

Como sempre, antes de tirar conclusões para o dia a dia, é fundamental lembrar que tratam-se de estudos com limitações, que pedem muita calma antes de sair por aí achando que dar presentes pode aliviar os efeitos negativos da orgia de fritura da última noite, ou que fazer o bem é o suficiente na busca pela saúde. 

É fácil entender por que a biologia, que objetiva perpetuar a vida, privilegia atitudes gentis entre os seres vivos. O carinho e o respeito mútuos aproximam, protegem o corpo e a mente ativando o sistema nervoso parassimpático, que age contrapondo  os efeitos do estresse excessivo.

Por fim, querido(a) leitor(a)! Foi um prazer raro para esse que vos fala poder compartilhar singelas descobertas sobre os efeitos biólogos de fazer o bem. É provável que você seja uma pessoa que se interessa pelo mesmo que o colunista: um mundo repleto de gentileza, com mais paz, e saúde para todos.

André Moschetta

Comentários

Carregando comentários…

Deixe seu comentário