Cultura e Lazer

Crochê, tricô e bordado voltaram à moda e a ciência começa a explicar o que eles fazem pelo cérebro

As técnicas manuais reaparecem nas passarelas e nas redes, enquanto estudos associam atividades artesanais a atenção, memória, função executiva e bem-estar, especialmente entre adultos mais velhos.

Crochê, tricô e bordado voltaram à moda e a ciência começa a explicar o que eles fazem pelo cérebro
Prefere ouvir? Toque para o portal ler a matéria para você.

Crochê, tricô e bordado voltaram a ocupar vitrines, passarelas e guarda-roupas. Em 2026, o crochê apareceu em coleções de primavera, vestidos, acessórios e até moda nupcial, em um movimento que reforçou a valorização do feito à mão e das texturas artesanais.

O retorno, porém, não interessa apenas à moda. Essas atividades também chamam atenção de pesquisadores porque exigem coordenação entre olhos e mãos, repetição de sequências, planejamento, memória de trabalho e concentração. Em outras palavras, enquanto as mãos executam pontos e padrões, o cérebro precisa acompanhar uma tarefa com várias etapas.

A literatura científica ainda não permite afirmar que fazer crochê ou tricô previne demência. Mas estudos recentes vêm encontrando associações entre atividades manuais e melhor desempenho em determinadas funções cognitivas, além de possíveis benefícios para bem-estar e participação social.

O cérebro precisa acompanhar cada ponto

Uma peça de crochê pode parecer automática para quem já domina a técnica, mas envolve uma combinação de habilidades.

É preciso manter atenção, lembrar o ponto que está sendo usado, acompanhar uma sequência, corrigir erros e coordenar movimentos finos das mãos. Ao iniciar um novo padrão, há ainda um componente de aprendizagem.

Um estudo publicado em 2025 avaliou justamente o efeito de uma sessão curta de crochê sobre a atenção. Pesquisadores compararam pessoas experientes na atividade com um grupo de controle e observaram, entre quem praticava crochê, melhora no tempo de reação em tarefas relacionadas a alerta e orientação da atenção depois da sessão. Exames de atividade cerebral também identificaram mudanças compatíveis com maior integração entre diferentes áreas do cérebro.

O estudo foi pequeno e avaliou um efeito imediato. Portanto, não mostra que o crochê produz proteção cognitiva a longo prazo. Ainda assim, ajuda a explicar por que uma atividade aparentemente simples pode exigir bastante do sistema nervoso.

Outra pesquisa, publicada em 2024, analisou 50 moradores de uma comunidade para aposentados e encontrou associação entre a prática de artesanato e melhor desempenho em memória de trabalho, raciocínio não verbal e tarefas visuais. Os próprios autores ressaltam que o resultado aponta uma relação, e não prova que o artesanato tenha sido a causa direta do melhor desempenho.

Artesanato e risco de declínio cognitivo

Estudos maiores também encontraram resultados interessantes.

Uma pesquisa do Mayo Clinic Study of Aging acompanhou 1.929 pessoas cognitivamente saudáveis, com mediana de 77 anos. Durante cerca de quatro anos, atividades como jogos, uso de computador, convívio social e trabalhos manuais estiveram associadas a menor risco de desenvolver comprometimento cognitivo leve. No caso das atividades artesanais, a redução observada foi de cerca de 28%.

Outro trabalho do mesmo projeto acompanhou aproximadamente 2 mil pessoas com 70 anos ou mais por cinco anos. Os pesquisadores observaram que participar de diferentes atividades mentalmente estimulantes, entre elas artesanato, leitura, jogos e uso de computador, estava associado a menor ocorrência de comprometimento cognitivo leve.

Esses dados precisam ser lidos com cuidado. São estudos observacionais. Pessoas que se mantêm ativas em hobbies também podem ter melhor saúde, maior escolaridade, mais contato social ou outros hábitos que ajudam a preservar a cognição.

O resultado mais prudente, portanto, é dizer que trabalhos manuais parecem fazer parte de um conjunto de atividades que mantém o cérebro engajado.

O feito à mão também voltou a ser desejado

A retomada do crochê e do tricô não acontece apenas dentro de casa.

Na moda, técnicas artesanais ganharam nova visibilidade. A Vogue destacou o crochê entre as tendências de 2026, tanto em coleções de verão quanto em vestidos de noiva e peças urbanas. Marcas como Isabel Marant, Gabriela Hearst e outras incorporaram texturas abertas, tricôs e acabamentos com aparência artesanal às coleções recentes.

A valorização também acompanha um interesse maior por peças que pareçam únicas, feitas à mão ou com técnicas tradicionais. Em reportagem recente, a Vogue observou que até grandes marcas vêm destacando processos artesanais como crochê, bordado, rendas e trabalhos manuais para diferenciar seus produtos.

Isso ajuda a explicar por que atividades vistas durante décadas como “coisa de avó” passaram a circular novamente entre públicos mais jovens.

Para quem aprendeu crochê, tricô ou bordado há muitos anos, a tendência pode ter outro efeito: uma habilidade antiga volta a ser valorizada socialmente e até comercialmente.

Os benefícios não ficam restritos à memória

A revisão sistemática enviada como referência para esta matéria analisou 19 estudos sobre intervenções baseadas em artesanato. As atividades incluíam cerâmica, trabalhos têxteis, madeira, papel e outras formas de produção manual.

Os resultados apontaram efeitos positivos em diferentes dimensões de saúde mental e bem-estar, embora os estudos variassem bastante em metodologia, público e tipo de atividade. Por isso, os autores destacam que ainda é necessário produzir pesquisas mais robustas antes de estabelecer conclusões definitivas.

Há também uma dimensão social.

Um estudo qualitativo realizado com mulheres com demência leve a moderada em um centro de convivência na Noruega observou que o tricô favorecia conversas, resolução de problemas e interação entre as participantes. A atividade servia como ponto de encontro e ajudava a manter habilidades já conhecidas.

Outro estudo longitudinal, com mais de 19 mil pessoas com mais de 50 anos nos Estados Unidos, avaliou diferentes atividades de lazer, entre elas costura, tricô e bordado, em relação a sintomas de depressão ao longo dos anos. Os pesquisadores encontraram associações entre determinados tipos de participação em atividades de lazer e menor ocorrência de depressão, embora esse tipo de estudo não permita estabelecer causa direta.

Como aproveitar melhor a atividade

Para quem pretende retomar ou começar uma atividade manual, a ciência sugere que o benefício pode estar justamente no envolvimento com a tarefa.

Vale escolher algo que exija aprendizagem ou concentração, avançar gradualmente para padrões mais complexos e variar projetos para evitar que a atividade se torne totalmente automática.

Fazer parte de grupos de crochê, tricô ou bordado também acrescenta um componente social, que pode ser relevante para o bem-estar e para a manutenção da atividade ao longo do tempo.

Dores persistentes nas mãos, punhos, ombros ou coluna não devem ser ignoradas. Pausas, boa iluminação, posição confortável e ajuste da postura ajudam a tornar a prática mais sustentável.

Crochê, tricô e bordado não substituem atividade física, sono adequado, controle de doenças crônicas, convívio social e acompanhamento médico. Também não podem ser apresentados como tratamento contra demência.

O que as evidências permitem dizer é mais simples: manter as mãos e o cérebro envolvidos em uma atividade criativa, desafiadora e prazerosa pode ser uma das formas de continuar cognitivamente ativo.

E, desta vez, a moda ajudou a colocar essas agulhas novamente em evidência.

Fontes:

National Library of Medicine / PMC. “The effects of crafts-based interventions on mental health and well-being: A systematic review”.

PubMed. “Handicraft art leisure activities and cognitive reserve”, The Clinical Neuropsychologist, 2024.

PubMed. “Association Between Mentally Stimulating Activities in Late Life and the Outcome of Incident Mild Cognitive Impairment”, JAMA Neurology.

PubMed. “Quantity and quality of mental activities and the risk of incident mild cognitive impairment”, Neurology.

PMC. “Crochet increases attention through a requiring motor skill learning”, 2025.

Vogue e British Vogue. Cobertura das tendências de crochê e tricô nas coleções de 2025 e 2026. 

Comentários

Carregando comentários…

Deixe seu comentário