Nossa biografia também mora nos outros (quarenta e seis anos depois)

Nossa biografia também mora nos outros. Um reencontro após 46 anos revela que vínculos verdadeiros sobrevivem ao tempo, à distância e às ausências. Envelhecemos, mas chegamos. E algumas pessoas pertencem à nossa história, não apenas ao passado.

Prefere ouvir? Toque para o portal ler a matéria para você.

Tudo começou pelas fotografias. Antes dos abraços, antes das malas, antes de alguém pegar a estrada, houve um pequeno movimento de voltar no tempo.

Uma fotografia aparecia no grupo. Depois outra. E mais outra.

Rostos muito jovens começaram a ocupar novamente as telas dos nossos telefones. Cabelos que já não existem da mesma maneira. Corpos que pareciam desconhecer cansaços. Roupas que hoje exigiriam alguma coragem. Poses cuidadosamente ensaiadas e outras que, quatro décadas depois, perderam qualquer possibilidade de defesa.

Vieram as risadas.

Os comentários.

As provocações que sobreviveram ao tempo.

— Olha esse cabelo!

— Quem é esse?

— Meu Deus, éramos assim? Éramos.

E talvez tenha sido essa a primeira delicadeza daquele reencontro: antes de nos encontrarmos novamente, precisamos reencontrar aqueles que um dia fomos. Durante seis anos dividimos uma formação.

Depois, durante quarenta, dividimos a distância. Quarenta e seis anos de uma história que não permaneceu acontecendo todos os dias, mas que, de alguma maneira difícil de explicar, nunca deixou inteiramente de existir.

A vida havia feito aquilo que sabe fazer.

Espalhou-nos.

Cada um tomou sua direção. Vieram profissões, casamentos, filhos, separações, mudanças de cidade, escolhas, conquistas, frustrações. Alguns construíram suas vidas perto. Outros, muito longe.

Houve filhos. Agora havia netos. Alguns filhos escolheram seguir os caminhos profissionais dos pais. Outros fizeram questão de construir estradas completamente diferentes.

A vida multiplicou-se. Mas alguma coisa permaneceu. Talvez seja isso que os vínculos longos tenham de misterioso.

Não precisam de presença permanente para continuarem existindo.

Há relações que sobrevivem aos intervalos.

Quando surgiu a ideia do encontro, a expectativa começou a crescer muito antes da data marcada.

Criou-se o grupo.

Organizaram-se os dias. Escolheu-se o lugar. Vieram as confirmações. As desistências. As dúvidas. E novamente as fotografias. Durante algumas semanas, aqueles jovens que havíamos sido passaram a visitar o presente.

O curioso é que ninguém parecia olhar para aquelas imagens com tristeza. Havia espanto. Havia humor. E havia uma frase que aparecia de diferentes maneiras:

"Envelhecemos muito bem." Era quase unânime. Talvez disséssemos aquilo brincando. Hoje penso que havia alguma coisa profundamente séria escondida naquela brincadeira. Não estávamos dizendo que o tempo não havia passado. Estávamos dizendo exatamente o contrário. Ele passou. E nós chegamos.

No dia do encontro, as mensagens começaram cedo. "Saindo agora." "Pegando a estrada." "Já estamos chegando." "Faltam duas horas."

De cidades diferentes, trajetórias que haviam se separado décadas antes começaram novamente a convergir para um mesmo ponto.

Achei bonita essa imagem. Durante quarenta anos a vida havia nos espalhado pelo mapa. Naquele dia, por algumas horas, ela resolveu nos recolher. As chegadas aconteceram em momentos diferentes. E cada chegada parecia obedecer ao mesmo ritual.

Primeiro o olhar. Depois aquele segundo necessário para reconhecer no rosto presente alguma coisa do rosto guardado na memória.

Então o sorriso. O nome dito um pouco mais alto.

E o abraço. Sobretudo o abraço.

Há abraços que servem para cumprimentar. Outros parecem querer conferir se o tempo deixou mesmo aquela pessoa ali. É impossível atravessar quarenta e seis anos sem que o corpo conte alguma coisa.

Os cabelos embranqueceram. As linhas de expressão apareceram. A pele perdeu a firmeza daqueles primeiros retratos.

Alguns movimentos já pediam um pouco mais de cuidado. Havia limitações. Pequenas denúncias de que o tempo não passou apenas pelo calendário. Mas havia algo extraordinariamente bonito naqueles rostos.

Eles já não tinham a juventude das fotografias. Tinham histórias. E uma história não cabe numa pele sem deixar marcas.

Durante muito tempo nossa cultura nos ensinou a olhar para essas marcas como perdas. Naquele encontro, foi difícil enxergá-las dessa maneira. Cada ruga parecia pertencer a alguma coisa vivida.

Cada cabelo grisalho havia atravessado noites que desconhecíamos. Cada corpo carregava vitórias, doenças, medos, filhos, amores, despedidas, recomeços. Os jovens eretos das fotografias antigas ainda estavam ali. Mas não estavam sozinhos. Quarenta e seis anos haviam chegado com eles.

Também havia ausências. Algumas circunstanciais. Colegas que, por diferentes razões, não puderam estar presentes. Outras, definitivas.

Nomes que já não poderiam responder no grupo. Cadeiras que nenhum atraso preencheria.

A longevidade também nos ensina isso.

Chegar significa, inevitavelmente, carregar aqueles que não chegaram conosco. Mas as pessoas que partiram possuem uma maneira curiosa de comparecer aos encontros antigos. Alguém conta uma história. Outro completa. Surge uma lembrança. Uma frase. Uma gargalhada. E, durante alguns instantes, quem já não está volta a ocupar um lugar à mesa.

Talvez um grupo que atravessa tantas décadas nunca seja formado apenas pelos presentes. Também somos feitos das ausências que aprendemos a carregar.

Durante os três dias, percebi outra mudança.

Quando jovens, tínhamos pressa. Pressa para terminar a faculdade. Pressa para começar a trabalhar. Pressa para construir alguma coisa. Pressa para chegar. Agora ninguém parecia precisar chegar a lugar algum.

As conversas podiam demorar. As histórias eram repetidas sem constrangimento. Alguém começava uma lembrança e outro acrescentava um detalhe esquecido.

O passado já não era uma sequência de fatos.

Era uma narrativa construída por muitas memórias.

Talvez seja essa uma das contribuições mais bonitas da Terapia Sistêmica para compreendermos a vida: nenhuma história existe sozinha.

Nossa biografia também mora nos outros. Há partes de nós que apenas determinados amigos conseguem recordar. Eles guardam versões nossas que já esquecemos. Sabem quem éramos antes de nos tornarmos aquilo que somos.

Talvez por isso alguns reencontros sejam tão emocionantes. Não encontramos apenas pessoas. Encontramos testemunhas da nossa própria existência.

Houve risadas. Muitas. Houve comida. Vinhos. Conversas atravessando as horas. Fotografias novas tentando registrar aqueles mesmos rostos tantos anos depois. E houve brindes e mais brindes. A felicidade dos reencontros se anunciava também no tilintar das taças e na alegria contagiante que alcançava até quem, de longe, presenciava aquele momento.

Um deles, pelo menos para mim, pareceu conter todos os outros.

Um brinde ao encontro.

Não apenas àquele.

Ao encontro como possibilidade.

À extraordinária capacidade humana de voltar.

De reconhecer.

De sentar novamente à mesma mesa depois de a vida ter levado cada um para tão longe.

Talvez a longevidade não possa ser medida apenas pela quantidade de anos que conseguimos acrescentar à vida. Existe também uma longevidade dos vínculos. Amizades que atravessam décadas. Afetos que suportam distâncias. Memórias que permanecem disponíveis quando alguém pronuncia uma única palavra. Histórias que envelhecem conosco.

E foi bonito perceber que, apesar das marcas do tempo, ninguém falava como quem havia chegado ao final.

Havia viagens planejadas. Projetos. Filhos. Netos. Sonhos.

E, sobretudo, o desejo de repetir aquele encontro.

Isso me tocou particularmente.

Depois de quarenta e seis anos, ainda havia futuro naquela mesa.

No último dia, inevitavelmente, começaram as despedidas. As malas voltaram aos carros. As estradas novamente apontaram para direções diferentes. Surgiram novas mensagens. "Chegamos." "Boa viagem." "Foi maravilhoso." "Precisamos repetir."

E então compreendi que aqueles três dias nunca foram apenas três dias.

Tinham começado muito antes. Talvez naquela primeira sala de aula. Talvez nas fotografias que atravessaram décadas guardadas em gavetas. Talvez em tudo aquilo que vivemos separadamente e que, de alguma maneira, levamos conosco para aquele encontro.

Voltamos diferentes. Como não voltaríamos? O tempo fez seu trabalho.

Mudou os cabelos.

Desenhou os rostos.

Desacelerou alguns passos.

Levou alguns dos nossos.

Trouxe filhos.

Depois netos.

Transformou sonhos.

Inventou outros.

Mas, ao final daqueles três dias, havia algo que quarenta e seis anos não tinham conseguido modificar.

A alegria de nos reconhecermos.

E talvez seja também disso que a longevidade seja feita: chegar suficientemente longe para descobrir que algumas pessoas não pertencem apenas ao nosso passado.

Elas pertencem à nossa história.

-Luís Claiton Medeiros Ehlers

Comentários

Carregando comentários…

Deixe seu comentário