Saúde Emocional

O Hexa não veio, mas a vida segue: Lições de resiliência

A frustração faz parte do caminho, mas aprender a lidar com ela nos fortalece para os próximos ciclos da vida.

O Hexa não veio, mas a vida segue: Lições de resiliência
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A emoção do futebol e o espelho da vida

Poucas coisas no Brasil unem tantas pessoas quanto a Copa do Mundo. A cada quatro anos, milhões de corações pulsam em um só ritmo, alimentando o sonho do hexa. Mais do que um simples título esportivo, a vitória da nossa seleção se torna um símbolo de esperança, de pertencimento e de memórias afetivas que atravessam gerações. Torcer é, de certa forma, um ato de acreditar – e essa capacidade de acreditar, de nutrir expectativas e de se conectar com algo maior, tem um papel relevante na nossa saúde emocional.

O futebol, neste contexto, funciona como um potente integrador social, onde compartilhamos expectativas, símbolos e emoções. A emoção durante os jogos ativa áreas do cérebro ligadas ao apego e à recompensa, reforçando o sentimento de pertencimento, conforme apontam estudos sobre a “fusão de identidade” em torcedores. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a FIFA, inclusive, reconhecem essa conexão, com campanhas como a #ReachOut, lançada em 2021, que visam conscientizar sobre a saúde mental no esporte.

É nesse cenário de intensa paixão e esperança que a vida se espelha no campo. Assim como depositamos nossos anseios no desempenho de uma equipe, também o fazemos em nossos sonhos, planos, tratamentos de saúde, projetos profissionais e relações pessoais. Mas o que acontece quando o resultado não é o esperado? Quando o hexa não vem, e a derrota se instala?

Quando a expectativa encontra a realidade

A eliminação de uma seleção em um torneio tão grandioso como a Copa do Mundo pode trazer uma onda de sentimentos difíceis: tristeza, irritação, raiva e uma profunda sensação de frustração. É importante reconhecer que todas essas emoções são legítimas. A frustração é uma experiência universal e inevitável na vida, surgindo sempre que nossos desejos, expectativas ou planos não se concretizam, gerando desapontamento e desânimo.

Para a saúde mental, o ponto crucial não é evitar o sofrimento – o que é impossível –, mas sim aprender a lidar com ele de forma construtiva, sem permitir que a dor nos paralise. Quando a paixão pelo futebol é vivida de maneira excessivamente intensa, ela pode, em pessoas mais vulneráveis emocionalmente, elevar os níveis de estresse e ansiedade. O descontrole diante da frustração pode levar a impulsividade, explosões de raiva e alterações de humor, afetando até mesmo as relações familiares e sociais, como destaca o dossiê de pesquisa sobre o tema.

É fundamental, portanto, evitar que o resultado de um jogo interfira de forma desproporcional na nossa rotina e no nosso bem-estar emocional. Gerenciar o incômodo causado por resultados não esperados é uma tarefa contínua, uma habilidade que desenvolvemos ao longo da vida.

Resiliência: reconhecer a dor para reconstruir

Diante da derrota, surge a oportunidade de exercitar a resiliência. A resiliência, um conceito que o psicanalista Boris Cyrulnik ajudou a difundir, não é fingir que está tudo bem ou ser invulnerável aos problemas. Pelo contrário, é a capacidade de lidar com as adversidades, superá-las, adaptar-se às mudanças e transformar experiências negativas em crescimento. Não é uma qualidade inata, mas um processo de aprendizado contínuo que pode ser desenvolvido e trabalhado a cada dia, conforme explica o psiquiatra e psicoterapeuta Nelio Tombini.

Pessoas resilientes têm a habilidade de reconhecer a dor que enfrentam, absorvê-la e elaborá-la, sem se vitimizar. Assim como uma seleção de futebol precisa rever seus erros, treinar intensamente, renovar seu grupo e pensar no próximo ciclo, cada um de nós precisa aprender a olhar para as próprias quedas com menos culpa e mais responsabilidade emocional. O luto, por exemplo, não é apenas um processo de superação de uma perda, mas uma experiência de transformação subjetiva, de reconstrução da identidade e de ressignificação da existência, como abordam estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o psicólogo americano William Worden.

Nesse percurso, a esperança se mostra um sentimento crucial para a saúde mental. Ela fortalece a resiliência emocional, reduz o estresse e a ansiedade, e aumenta a motivação para buscar novos objetivos. A ausência de esperança, por outro lado, pode levar a sentimentos de desespero e desânimo.

A vida em ciclos: perder não é fracassar

A analogia da Copa do Mundo se estende a muitas situações da nossa vida. Quantas vezes depositamos grandes expectativas em uma tentativa que não deu certo, em um diagnóstico de saúde desafiador, em uma meta profissional que não foi alcançada, em um relacionamento que chegou ao fim ou em um projeto que não saiu como o esperado? A mensagem central é clara: perder uma batalha não significa fracassar como pessoa.

A capacidade de gerenciar o fracasso e o incômodo emocional é uma constante em nossa jornada. Estratégias como aceitar a realidade dos fatos, estar atenta às próprias expectativas e desenvolver a autorregulação emocional são fundamentais. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, é reconhecida por sua eficácia no manejo da baixa tolerância à frustração, ajudando a compreender e administrar esses sentimentos de forma saudável, segundo Serpa e Lucena (2022).

A saúde mental, conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um estado de bem-estar no qual o indivíduo acredita em suas habilidades, consegue lidar com as dificuldades da vida cotidiana, é capaz de trabalhar produtivamente e contribuir com o meio social. A atividade física, como o futebol, inclusive, é reconhecida como uma ferramenta terapêutica importante, utilizada em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) para promover interação social, autoestima e bem-estar.

Cuidar da mente é continuar em movimento

“O hexa não veio, mas o sonho continua ensinando: a vida também é feita de ciclos, e nem toda derrota significa fim. Algumas derrotas apenas mostram que ainda existe caminho pela frente.” Essa frase nos lembra que, mesmo quando os planos não se concretizam como desejamos, o percurso não se encerra ali. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reforça a importância de promover estratégias de saúde mental ao longo da vida, focando na resiliência e na capacidade de adaptação.

Seguir em frente não significa esquecer o que doeu, nem transformar tudo em uma positividade forçada. É um processo de aceitação de que a frustração e a perda são partes intrínsecas da experiência humana. Após uma queda, um desapontamento ou uma mudança inesperada, ainda podemos reconstruir o sentido, a esperança e o movimento em nossas vidas. Na saúde mental, continuar a jornada, ajustando a rota quando necessário e aprendendo com cada experiência, é também uma profunda forma de cuidado consigo mesma.

Fontes consultadas:

  • pucpr.br
  • Current time information in Rio de Janeiro, BR.
  • editoradobrasil.com.br
  • revistatopicos.com.br
  • saudebemestar.pt
  • clicrbs.com.br
  • psicored.com.br
  • amenteemaravilhosa.com.br
  • ordemdospsicologos.pt
  • ufrrj.br
  • uol.com.br
  • scielo.br

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