Cultura e Lazer

A ciência está descobrindo que envelhecer bem pode envolver algo que você abandonou na infância

Oficinas e atividades artísticas podem estimular criatividade, convivência e expressão emocional, mas é importante diferenciar um hobby prazeroso da arteterapia profissional.

A ciência está descobrindo que envelhecer bem pode envolver algo que você abandonou na infância
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Pincéis, tintas e uma tela em branco têm ganhado espaço em oficinas voltadas a adultos e pessoas mais velhas, não apenas como passatempo. A proposta costuma reunir criatividade, concentração e convivência, como mostra uma reportagem do ND Mais sobre oficinas de pintura usadas para incentivar conexão entre os participantes.

A relação entre arte e saúde também desperta interesse científico. Uma ampla revisão publicada pela Organização Mundial da Saúde analisou mais de 3 mil estudos sobre diferentes formas de participação artística e encontrou evidências de benefícios potenciais para saúde e bem-estar em diferentes fases da vida.

Isso, porém, não significa que pegar um pincel substitua acompanhamento psicológico ou tratamento médico.

Por que pintar pode fazer bem

A pintura exige atenção a cores, formas, movimentos e decisões que acontecem durante a criação. Ao mesmo tempo, permite produzir algo sem depender apenas da linguagem verbal.

Nas atividades em grupo, existe ainda o componente social. Uma revisão e meta-análise publicada em 2025 na revista Nature Mental Health reuniu estudos com pessoas acima de 55 anos e encontrou melhora em sintomas de depressão e ansiedade associada a intervenções artísticas coletivas, como pintura, dança e outras práticas. Os próprios autores apontam limitações na literatura, incluindo sinais de viés de publicação em parte dos estudos.

Os resultados, portanto, são promissores, mas não permitem afirmar que uma oficina artística previna ou cure transtornos mentais.

E o cérebro?

A arte também tem sido estudada entre pessoas com alterações cognitivas.

Uma revisão sistemática de 2024 avaliou pesquisas sobre arteterapia visual em pessoas com mais de 60 anos e comprometimento cognitivo leve. Os trabalhos analisados indicaram possíveis benefícios para aspectos cognitivos e psicológicos, embora os pesquisadores tenham destacado que a quantidade e a qualidade dos estudos ainda limitavam conclusões mais firmes.

Outra revisão publicada em 2020, com 831 participantes, também encontrou melhora modesta da função cognitiva global associada a intervenções estruturadas de arteterapia visual.

Esses resultados se referem a programas organizados e acompanhados, não simplesmente ao hábito de pintar em casa.

Pintar e fazer arteterapia são a mesma coisa?

Não.

Uma pessoa pode pintar por prazer, relaxamento, curiosidade ou para conviver com outras pessoas. Isso pode fazer parte de uma rotina saudável sem qualquer objetivo clínico.

A arteterapia envolve o uso planejado de recursos como pintura, desenho, colagem, modelagem, música ou expressão corporal dentro de um processo terapêutico. No Brasil, a prática integra a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS desde 2017.

O Ministério da Saúde descreve a arte, nesse contexto, como recurso de expressão e comunicação entre profissional e participante.

Como começar

Não é necessário saber desenhar ou dominar técnicas de pintura. Para quem deseja experimentar a atividade, algumas escolhas simples podem ajudar:

  • começar com materiais básicos, como papel, lápis, aquarela ou tinta;
  • procurar oficinas comunitárias, centros culturais ou grupos quando o objetivo também for ampliar a convivência;
  • escolher uma atividade prazerosa, sem transformar o resultado artístico em cobrança;
  • buscar acompanhamento profissional quando houver sofrimento emocional intenso ou persistente, em vez de depender apenas da atividade artística.

A pintura pode oferecer um espaço de concentração, expressão e encontro com outras pessoas. A ciência vem investigando esses efeitos com resultados positivos, especialmente em atividades estruturadas e coletivas. O cuidado está em reconhecer seus benefícios sem atribuir à arte uma função terapêutica que ela, sozinha, não pode garantir.

Fontes:

Organização Mundial da Saúde, What is the evidence on the role of the arts in improving health and well-being?, 2019.

Ministério da Saúde, informações sobre Arteterapia e Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares.

Nature Mental Health, revisão e meta-análise sobre intervenções artísticas em grupo entre adultos mais velhos, 2025.

International Journal of Geriatric Psychiatry, revisão sobre arteterapia visual e comprometimento cognitivo leve, 2024.

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