Enoturismo não é só vinho: é história, cultura e identidade de um povo
Viajar para conhecer vinhos pode parecer, à primeira vista, uma experiência voltada apenas à degustação. Mas o enoturismo ganhou outra dimensão: visitar um território vitivinícola também é conhecer quem cultiva a terra, entender tradições familiares, experimentar a gastronomia local e descobrir como clima, paisagem e cultura ajudaram a construir a identidade de uma região.
Os números do turismo brasileiro ajudam a entender esse movimento. Em 2024, o país registrou cerca de 7 milhões de viagens de lazer, das quais 1,7 milhão tiveram cultura e gastronomia como principal motivação. Esse tipo de viagem representou 24,4% do total de viagens de lazer, contra 15,5% em 2020, avanço de 8,9 pontos percentuais em quatro anos.
O interesse também aparece de forma mais intensa entre os brasileiros de maior renda. Segundo o IBGE, os 20% dos domicílios com maior rendimento per capita responderam por 63,3% das viagens motivadas por cultura e gastronomia em 2024.
É nesse cenário que o enoturismo se fortalece. Para viajantes maduros, a proposta pode ser especialmente interessante pela possibilidade de construir roteiros em ritmo mais tranquilo, com gastronomia, paisagens, história, contato com produtores e experiências que não dependem apenas de atividades físicas intensas.
Um mercado que cresce enquanto o consumo de vinho muda
As projeções internacionais ajudam a mostrar a dimensão do fenômeno. Segundo a Grand View Research, o mercado mundial de enoturismo foi estimado em US$ 46,5 bilhões em 2023 e pode alcançar US$ 106,7 bilhões em 2030, com crescimento médio anual projetado de 12,6%.
Outro levantamento, da Persistence Market Research, publicado em 2026, estima um mercado de US$ 57,4 bilhões neste ano, com possibilidade de chegar a US$ 138,4 bilhões em 2033, uma taxa média anual de crescimento de 13,4%.
É interessante comparar esses números com o comportamento do próprio mercado de vinho. A Organização Internacional da Vinha e do Vinho estima que o consumo mundial caiu 2,7% em 2025 e acumula redução de aproximadamente 14% desde 2018.
Ou seja: enquanto beber vinho simplesmente por consumir perde espaço em diversos mercados, viajar para conhecer sua origem ganha valor. A experiência passa a ser tão importante quanto aquilo que está dentro da taça.
Muito além da degustação
A própria definição técnica de enoturismo vai nessa direção. A Embrapa descreve o segmento como uma experiência ligada não apenas às características do vinho, mas também à viticultura, à elaboração, às tradições, à gastronomia e à originalidade dos territórios produtores.
Na Europa, essa relação entre vinho e patrimônio é tão forte que existe desde 2009 a Iter Vitis, uma Rota Cultural certificada pelo Conselho da Europa. A iniciativa reconhece vinhedos, técnicas de produção, paisagens rurais, conhecimentos e tradições como parte do patrimônio cultural dos territórios.
Por isso, um roteiro de enoturismo pode incluir caminhadas entre videiras, conversas com produtores, visitas às caves, cursos e degustações comentadas, gastronomia regional, piqueniques, eventos culturais e experiências ligadas à vindima.
No Brasil, essa diversificação já faz parte da estratégia de grande parte do setor. Pesquisa do Sebrae divulgada em 2023 apontou que mais de 85% das vinícolas pesquisadas já atuavam com enoturismo. Entre elas, 63,7% utilizavam a diversificação de atividades como diferencial competitivo.
Brasil: diferentes terroirs, diferentes histórias
O enoturismo brasileiro já não está concentrado em uma única região. Dos vinhedos tradicionais da Serra Gaúcha à vitivinicultura tropical do Nordeste, o país permite conhecer formas muito diferentes de produzir vinho.
Vale dos Vinhedos, Rio Grande do Sul
O Vale dos Vinhedos permanece como uma das grandes referências brasileiras. A região ocupa áreas de Bento Gonçalves, Garibaldi e Monte Belo do Sul e foi pioneira no reconhecimento geográfico do vinho brasileiro: recebeu a primeira Indicação de Procedência do país, em 2002, e, em 2012, tornou-se também a primeira Denominação de Origem brasileira para vinhos.
Ali, a experiência está diretamente ligada à herança da imigração italiana e à paisagem formada por pequenas propriedades, vinhedos e produtores familiares. Degustações, gastronomia, hospedagens e passeios pelos parreirais transformaram a região em um destino no qual vinho e cultura caminham juntos.
A vindima, especialmente durante o verão, acrescenta outra dimensão à viagem, com experiências relacionadas à colheita e às tradições mantidas pelas famílias produtoras.
Vale do São Francisco, Pernambuco e Bahia
Se a Serra Gaúcha representa a tradição vitivinícola de clima temperado, o Vale do São Francisco mostra uma realidade completamente diferente.
Com clima tropical semiárido e irrigação proveniente do Rio São Francisco, a região consegue produzir uvas ao longo dos 12 meses do ano. O manejo dos vinhedos permite duas podas e duas safras anuais, com colheitas escalonadas durante o ano.
A região também conquistou sua própria Indicação de Procedência. A área delimitada abrange municípios de Pernambuco e da Bahia e produz vinhos tranquilos, espumantes e moscatéis com características próprias da vitivinicultura tropical.
É um dos exemplos mais interessantes de como conhecer o vinho também significa compreender geografia, tecnologia e adaptação humana ao território.
São Roque, São Paulo
A cerca de 50 quilômetros da capital paulista, São Roque oferece uma alternativa interessante para quem procura uma viagem curta.
Seu tradicional Roteiro do Vinho percorre a Estrada do Vinho, a Estrada dos Venâncios e a Rodovia Quintino de Lima, reunindo vinícolas, adegas, gastronomia, hospedagens e atividades de lazer. A história do cultivo de uvas no município remonta ao século XVII.
O destino pode funcionar tanto para um passeio de um dia quanto para um fim de semana, especialmente para quem deseja combinar vinho, gastronomia e interior sem fazer grandes deslocamentos.
Vinhos de altitude em Santa Catarina
Santa Catarina acrescenta outra paisagem ao mapa brasileiro do vinho. Na Serra Catarinense, no Planalto e na região do Contestado, existem vinhedos cultivados acima de 900 metros de altitude, onde condições de clima e relevo contribuíram para o desenvolvimento dos chamados vinhos de altitude.
A experiência combina vinícolas, gastronomia serrana, frio e algumas das paisagens mais características do interior catarinense, criando um roteiro que pode ser integrado a destinos como São Joaquim e outras cidades da Serra.
Espírito Santo do Pinhal, São Paulo
O interior paulista também vem abrindo novos caminhos. Espírito Santo do Pinhal já apresenta oficialmente o enoturismo entre seus atrativos, combinando a tradição agrícola da região com novos projetos vitivinícolas.
A região faz parte do movimento de expansão dos vinhos de inverno no Sudeste, que ampliou o mapa do vinho brasileiro e criou novas possibilidades de roteiros para quem deseja conhecer destinos ainda menos consolidados do que a Serra Gaúcha.
Argentina: Mendoza e os Andes como cenário
Poucos destinos sul-americanos são tão associados ao vinho quanto Mendoza.
Dados do governo provincial mostram que Mendoza concentra mais de 70% da área de vinhedos da Argentina e, com variações de uma safra para outra, responde por aproximadamente 80% da elaboração de vinho do país. Em 2025, o governo local informava quase 900 bodegas na província e cerca de 230 abertas ao turismo.
Luján de Cuyo, Maipú e o Valle de Uco estão entre os principais polos para quem deseja combinar gastronomia, vinhedos e a paisagem da Cordilheira dos Andes.
Mendoza também demonstra como o enoturismo consegue integrar outros interesses. Há experiências que combinam vinho com arquitetura, alta gastronomia, arte, hospedagens entre vinhedos e atividades na natureza.
Mais ao norte, a região de Cafayate, na província de Salta, oferece outro cenário vitivinícola argentino, conhecido pela produção em altitude e pelo Torrontés.
Chile: vinhedos próximos à capital
O Chile continua sendo um dos protagonistas do vinho mundial. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, foi o quarto maior exportador de vinho do mundo em volume em 2025, atrás apenas de Itália, Espanha e França.
Para o viajante brasileiro, uma das vantagens é a possibilidade de integrar o enoturismo à própria passagem por Santiago. Maipo, Casablanca e Colchagua estão entre os vales mais conhecidos, e o portal oficial de turismo chileno destaca esses territórios como referências para experiências ligadas ao vinho, à gastronomia e à cultura.
O Vale do Maipo fica a cerca de uma hora da capital, enquanto roteiros mais amplos permitem combinar Maipo, Casablanca e Colchagua em poucos dias. A época da vindima chilena, entre o fim do verão e o outono, também movimenta festivais e experiências especiais nos vinhedos.
Uruguai: vinho, famílias e influência do Atlântico
Menor em extensão, o Uruguai construiu uma identidade vitivinícola muito própria. O Ministério do Turismo uruguaio destaca o país como o quarto maior produtor de vinho da América Latina e ressalta a influência do clima atlântico sobre seus vinhedos.
A Tannat tornou-se a variedade mais emblemática do país, enquanto Canelones ocupa posição central no enoturismo. A região concentra mais de 60% das vinícolas uruguaias e mantém forte presença de empreendimentos familiares, muitos deles administrados pelos próprios proprietários.
Montevidéu, Canelones e Maldonado permitem construir roteiros bastante diferentes entre si, unindo vinhos, gastronomia, paisagens rurais e a costa uruguaia.
Acessibilidade também deve entrar no roteiro
Para o viajante maduro, distância entre os pontos, pisos irregulares, escadas, banheiros, áreas de descanso e tempo de permanência fazem diferença.
Por isso, antes de escolher uma vinícola, vale consultar diretamente o estabelecimento sobre estacionamento, rampas, acessibilidade dos banheiros, distância das caminhadas e necessidade de subir escadas para acessar caves ou salas de degustação.
O Uruguai oferece um exemplo interessante desse movimento. A região de Canelones vem desenvolvendo ações específicas para avaliar e melhorar a acessibilidade em empreendimentos ligados ao enoturismo, com visitas técnicas a bodegas e recomendações de adaptação. O próprio portal turístico regional identifica estabelecimentos com diferentes níveis de acessibilidade.
Planejar previamente permite transformar uma experiência que poderia ser cansativa em um passeio confortável e prazeroso.
O Brasil também avançou na formalização do turismo rural
A legislação brasileira passou por mudanças relevantes nos últimos anos. A Lei nº 14.978, de setembro de 2024, modernizou a Lei Geral do Turismo e passou a permitir que produtores rurais e agricultores familiares que prestem serviços turísticos se cadastrem no Cadastur inclusive como pessoas físicas. A legislação também permite, dentro das regras estabelecidas, que esses produtores comercializem sua produção mantendo sua caracterização como atividade rural.
Em setembro de 2025, a Portaria MTur nº 25 regulamentou as condições desse cadastramento, incluindo atividades como hospedagem rural, oferta de alimentos e bebidas produzidos na propriedade ou na região, visitação, experiências ligadas à produção e comercialização de produtos locais.
A medida é especialmente relevante para o enoturismo porque ajuda pequenos produtores a integrar produção agrícola, gastronomia e experiências turísticas.
Viajar devagar também pode significar viajar melhor
O enoturismo tem uma característica que combina especialmente bem com uma forma mais consciente de viajar: ele convida a permanecer.
Não é preciso correr de uma atração para outra. É possível passar horas em uma propriedade, conversar com quem produz, almoçar sem pressa, observar a paisagem e entender por que determinado vinho existe justamente naquele lugar.
Talvez seja por isso que o crescimento do enoturismo aconteça justamente enquanto o consumo mundial de vinho enfrenta retração. O vinho deixa de ser apenas um produto e passa a ser uma porta de entrada para conhecer pessoas, territórios e histórias.
No Vale dos Vinhedos, no semiárido do São Francisco, diante dos Andes ou nas pequenas propriedades do Uruguai, cada taça carrega algo que não pode ser reproduzido em uma prateleira: o lugar de onde ela veio.
E continuar descobrindo novos lugares, culturas e sabores também faz parte de envelhecer com curiosidade, autonomia e vontade de viver novas experiências.
Fontes consultadas
- IBGE — PNAD Contínua: Turismo 2024 e Sistema de Informações e Indicadores Culturais.
- Embrapa Uva e Vinho — Enoturismo no Brasil, DO Vale dos Vinhedos e IP Vale do São Francisco.
- Sebrae — pesquisa sobre a presença do enoturismo nas vinícolas brasileiras.
- Ministério do Turismo / Presidência da República — Lei nº 14.978/2024 e Portaria MTur nº 25/2025.
- Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) — State of the World Wine Sector 2025.
- Grand View Research — Wine Tourism Market Report 2024–2030.
- Persistence Market Research — Wine Tourism Market Forecast 2026–2033.
- Conselho da Europa — Iter Vitis Cultural Route.
- Chile Travel / Sernatur, Governo de Mendoza e Turismo de Canelones — informações oficiais sobre os destinos sul-americanos.
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