Saúde Emocional

A crise da meia-idade pode ser um dos maiores mitos que você aprendeu sobre envelhecer

Repensar o trabalho, os relacionamentos ou os planos para os próximos anos pode acontecer aos 40, 50 ou 60. Isso, porém, não significa que toda pessoa vá passar por uma “crise” ao chegar à meia-idade.

A crise da meia-idade pode ser um dos maiores mitos que você aprendeu sobre envelhecer
Prefere ouvir? Toque para o portal ler a matéria para você.

Mudar de carreira aos 50, voltar a estudar, terminar um relacionamento, rever prioridades ou simplesmente olhar para os próximos anos e perceber que algumas escolhas já não fazem tanto sentido. Situações assim costumam ser rapidamente colocadas sob o mesmo rótulo: crise da meia-idade.

A expressão se tornou tão conhecida que é quase tratada como uma etapa obrigatória da vida adulta. A pesquisa em psicologia, porém, apresenta um quadro bem menos previsível. Há pessoas que atravessam períodos intensos de questionamento nessa fase, enquanto outras relatam estabilidade, satisfação e até melhora do bem-estar.

A própria Associação Americana de Psicologia afirma que não existem evidências que sustentem a ideia de que um sofrimento psicológico específico da meia-idade seja inevitável. Para muitos pesquisadores, o problema está justamente em transformar experiências muito diferentes em uma única “crise”.

De onde veio a ideia da crise da meia-idade

O termo ganhou espaço a partir do trabalho do psicanalista Elliott Jaques. Em 1965, ele publicou o artigo Death and the Mid-Life Crisis, no International Journal of Psycho-Analysis.

Jaques descrevia uma transição que poderia surgir por volta dos 35 anos, relacionada à percepção da passagem do tempo, da mortalidade e à revisão da própria trajetória. O conceito se difundiu nas décadas seguintes e acabou incorporado à cultura popular.

Com o avanço das pesquisas sobre desenvolvimento adulto, entretanto, a ideia de uma crise universal perdeu força.

Uma análise ligada ao estudo norte-americano MIDUS, que acompanha adultos ao longo da vida, encontrou que cerca de 26% dos participantes com mais de 40 anos disseram já ter vivido algo que consideravam uma crise da meia-idade. O resultado precisa ser interpretado com cuidado: tratava-se da percepção dos próprios participantes, e não de um diagnóstico clínico.

Além disso, muitas das crises relatadas ocorreram antes dos 40 ou depois dos 50 anos. Isso enfraquece a ideia de que exista uma janela biológica ou psicológica específica em que todas as pessoas estejam predispostas a entrar em crise.

A felicidade necessariamente diminui nessa fase?

Também não há uma resposta única para essa pergunta.

Um estudo longitudinal realizado por pesquisadores da Universidade de Alberta, no Canadá, acompanhou dois grupos durante vários anos. Um deles foi seguido dos 18 aos 43 anos e outro, dos 23 aos 37.

Em vez de encontrar uma queda contínua da felicidade à medida que os participantes envelheciam, os pesquisadores observaram aumento ao longo da juventude e do início da vida adulta. No grupo acompanhado até os 43 anos, houve apenas uma pequena redução no final do período analisado.

O resultado chama atenção porque estudos longitudinais acompanham as mesmas pessoas ao longo do tempo, enquanto grande parte das pesquisas anteriores comparava pessoas de idades diferentes em um único momento.

Isso não encerrou a discussão.

Outra linha de pesquisa encontrou o chamado formato de “U” do bem-estar. Nessa hipótese, a satisfação tende a diminuir durante parte da vida adulta, atingir um ponto mais baixo aproximadamente na meia-idade e voltar a aumentar depois.

Há evidências desse padrão em grandes levantamentos internacionais e também em pesquisas que acompanharam indivíduos ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, pesquisadores continuam discutindo quanto desse efeito depende de país, geração, condições econômicas, metodologia utilizada e das características de cada pessoa.

Uma queda média em indicadores de satisfação também não significa que todas as pessoas terão uma crise, muito menos um transtorno psicológico.

Por que os 40 e 50 podem ser anos especialmente intensos

Há uma razão para tantas pessoas associarem a meia-idade a períodos de mudança. Para uma parcela dos adultos, muitas responsabilidades importantes acabam se encontrando nessa etapa.

É possível estar no auge das demandas profissionais enquanto os filhos ainda precisam de apoio e os pais começam a necessitar de cuidados. É a situação frequentemente chamada de “geração sanduíche”.

Também podem surgir aposentadoria no horizonte, mudanças no casamento, saída dos filhos de casa, perdas familiares, questões financeiras e alterações na saúde. Para as mulheres, a transição da menopausa pode coincidir com várias dessas mudanças.

A psicóloga Margie Lachman, pesquisadora do desenvolvimento adulto e do envelhecimento, chama atenção justamente para essa posição intermediária. A meia-idade não é definida apenas pelo número no aniversário, mas também pelos papéis familiares, profissionais e sociais que costumam se acumular nessa etapa.

Por isso, sentir cansaço, questionar algumas escolhas ou decidir mudar de rumo não significa automaticamente estar vivendo uma crise.

Quando vale olhar para o que está acontecendo com mais atenção

O rótulo “crise da meia-idade” pode até ajudar alguém a descrever informalmente um momento de mudança. Ele não deve, porém, servir para explicar qualquer sofrimento que apareça depois dos 40 ou 50 anos.

Vale observar principalmente quando alterações de humor, sono, disposição ou interesse pelas atividades habituais persistem e começam a interferir na rotina, nos relacionamentos ou no trabalho.

Também é importante não atribuir automaticamente à idade sintomas físicos ou emocionais que podem ter outras causas. Depressão, ansiedade, distúrbios do sono, alterações hormonais e diferentes condições de saúde precisam ser avaliados de acordo com seus próprios critérios.

A Organização Mundial da Saúde chama atenção para o fato de que problemas de saúde mental em adultos mais velhos ainda podem passar despercebidos ou não receber tratamento adequado. Perdas, doenças, redução de renda, isolamento social e outras circunstâncias podem aumentar a vulnerabilidade, mas não significam que adoecer emocionalmente seja uma consequência natural de envelhecer.

O que observar

Uma fase de questionamentos pode fazer parte da vida e não exigir qualquer intervenção. Vale procurar orientação profissional quando houver, por exemplo:

  • tristeza, ansiedade ou irritabilidade persistentes;
  • perda importante de interesse por atividades antes prazerosas;
  • alterações prolongadas no sono ou no apetite;
  • dificuldade crescente para trabalhar ou manter atividades habituais;
  • sofrimento emocional intenso ou sensação de não conseguir lidar com a situação.

A avaliação ajuda justamente a diferenciar um período de adaptação de uma condição que merece tratamento.

Meia-idade não segue um roteiro único

Talvez o principal problema da expressão “crise da meia-idade” seja sugerir que existe um caminho previamente definido para essa fase.

Os estudos mostram uma realidade mais variada. Algumas pessoas passam por mudanças importantes. Outras vivem anos de relativa estabilidade. Há pesquisas que identificam redução média do bem-estar na meia-idade e outras que acompanham pessoas cuja satisfação aumenta ao longo dos anos.

O que a ciência não sustenta é a ideia de que chegar aos 40, 50 ou 60 anos determine, por si só, uma crise psicológica.

Então, se aos 50 você resolveu mudar de trabalho, rever um relacionamento, começar um projeto ou simplesmente está se perguntando o que deseja para os próximos anos, pode se acalmar: nem tudo precisa ser explicado pela idade.

Mudanças, dúvidas e reavaliações acontecem em diferentes momentos da vida. O importante é perceber quando elas fazem parte de um período de adaptação e quando o sofrimento persiste a ponto de merecer atenção profissional.

Talvez seja hora, portanto, de olhar para a chamada “crise da meia-idade” com menos medo. Fazer 40, 50 ou 60 anos não coloca ninguém automaticamente em crise. Às vezes, a vida apenas mudou e você está tentando entender o que fazer com ela agora.

Fontes:

  • Galambos, N. L. et al. Up, not down: The age curve in happiness from early adulthood to midlife in two longitudinal studies. Developmental Psychology, 2015.
  • Jaques, E. Death and the Mid-Life Crisis. International Journal of Psycho-Analysis, 1965.
  • American Psychological Association. APA Dictionary of Psychology: Midlife crisis.
  • American Psychological Association. Why midlife may be your prime time, entrevista com Margie Lachman.
  • Lachman, M. E.; Kranz, E. M. Midlife Crisis, referência baseada em dados do estudo MIDUS.
  • Cheng, T. C.; Powdthavee, N.; Oswald, A. J. Longitudinal evidence for a midlife nadir in human well-being. The Economic Journal.
  • Organização Mundial da Saúde. Mental health of older adults.

Comentários

Carregando comentários…

Deixe seu comentário