Saúde

O que o diabetes tipo 2 tem a ver com a saúde do cérebro?

Entenda como o açúcar afeta seu cérebro e aprenda a reduzir o consumo sem abrir mão do sabor, segundo as mais recentes evidências científicas.

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Memória, raciocínio e atenção não dependem apenas da idade. O que acontece com a glicose no sangue ao longo dos anos também entrou no radar de pesquisadores que estudam o envelhecimento cerebral.

A relação ganhou força porque diabetes tipo 2, alterações persistentes da glicemia e determinados padrões alimentares aparecem associados a um declínio cognitivo mais acelerado. Isso não significa que ter diabetes levará inevitavelmente à demência. Significa que a saúde metabólica também merece espaço quando pensamos em chegar aos 60, 70 ou 80 anos com autonomia mental.

Uma meta-análise que reuniu dados de mais de 2,3 milhões de pessoas encontrou risco aproximadamente 60% maior de demência entre indivíduos com diabetes. Para demência vascular, a associação foi ainda mais elevada em parte dos grupos analisados.

Quando a glicemia entra na conversa sobre memória

Um dos estudos mais conhecidos sobre o tema acompanhou 5.189 adultos durante cerca de oito anos no English Longitudinal Study of Ageing. Quanto maior a hemoglobina glicada, exame que ajuda a mostrar a média da glicemia nos últimos meses, maior foi a velocidade de queda observada em medidas de cognição global, memória e função executiva.

Pessoas com diabetes também apresentaram declínio cognitivo mais acelerado do que aquelas com glicemia normal. Os próprios pesquisadores, porém, ressaltam que estudos adicionais são necessários para determinar até que ponto melhorar o controle glicêmico consegue modificar essa trajetória.

Pesquisas mais recentes continuam reforçando essa preocupação. Uma revisão de 2025, com dados de mais de 7 milhões de pessoas com diabetes, encontrou associação entre episódios de hipoglicemia e risco 49% maior de demência em geral, mostrando que não se trata simplesmente de manter o açúcar “o mais baixo possível”. O equilíbrio glicêmico também importa.

E onde entra o açúcar que comemos?

É aqui que a conversa precisa de cuidado.

Uma revisão sistemática publicada no Nutrients analisou 77 estudos sobre açúcares livres ou adicionados e desempenho cognitivo. Nos estudos observacionais de longo prazo incluídos na revisão, maior consumo de açúcar adicionado apareceu relacionado a maior risco de comprometimento cognitivo. Os pesquisadores consideraram os resultados preocupantes, mas também destacaram que ainda são necessárias pesquisas melhores para estabelecer os efeitos específicos de cada tipo de açúcar.

Portanto, não faz sentido colocar uma fruta e um refrigerante na mesma categoria simplesmente porque ambos possuem açúcar. Açúcares livres incluem aqueles acrescentados aos alimentos, além dos encontrados no mel, xaropes, sucos e concentrados de frutas. Já frutas inteiras oferecem fibras e outros nutrientes dentro de uma estrutura alimentar bastante diferente.

O problema também não parece estar isolado em um único ingrediente. No Brasil, o ELSA-Brasil acompanhou 10.775 adultos durante uma mediana de oito anos. Pessoas com maior participação de ultraprocessados na alimentação tiveram uma taxa 28% mais rápida de declínio cognitivo global e 25% mais rápida na função executiva quando comparadas ao grupo com menor consumo.

O que diabetes tem a ver com o cérebro?

O cérebro depende de uma circulação sanguínea saudável e de um metabolismo equilibrado para funcionar bem. Por isso, alterações presentes no diabetes podem atingir também o sistema nervoso.

Resistência à insulina, inflamação, lesões nos pequenos vasos sanguíneos e alterações associadas à hipertensão e ao colesterol estão entre os mecanismos estudados. Diabetes e pré-diabetes também já foram relacionados a maior progressão de alterações vasculares na substância branca do cérebro, estruturas que participam da comunicação entre diferentes regiões cerebrais.

Isso ajuda a explicar por que o risco não aparece apenas para Alzheimer. A associação com demência vascular também é importante.

Ao mesmo tempo, risco maior não significa destino definido. Idade, pressão arterial, atividade física, tabagismo, alimentação, sono, histórico familiar e diversas outras características participam dessa equação.

Uma descoberta brasileira traz uma boa notícia

Um estudo do ELSA-Brasil publicado em 2024 observou mais de 12 mil adultos de meia-idade e idosos durante aproximadamente oito anos.

Entre participantes com diabetes que eram fisicamente inativos, o risco de comprometimento cognitivo foi 71% maior. Entre aqueles classificados como fisicamente ativos, essa associação não foi estatisticamente significativa.

Dentro do grupo com diabetes, praticar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada ou vigorosa esteve associado a um atraso estimado de 2,73 anos no aparecimento do comprometimento cognitivo. Como se trata de um estudo observacional, não é possível dizer que o exercício, sozinho, tenha provocado essa diferença. Ainda assim, o resultado mostra que o diagnóstico não encerra a história.

Trocar açúcar por adoçante resolve?

Não necessariamente.

Um estudo brasileiro publicado na Neurology acompanhou 12.772 adultos durante oito anos e encontrou associação entre maior consumo de alguns adoçantes de baixa ou nenhuma caloria e declínio mais rápido em testes cognitivos, especialmente entre participantes com menos de 60 anos. O estudo é observacional e não prova que adoçantes causam declínio cognitivo, mas adicionou uma nova questão a essa discussão.

A própria Organização Mundial da Saúde recomenda que a redução de açúcares livres não seja baseada simplesmente na substituição por adoçantes. A orientação continua sendo reduzir açúcares livres para menos de 10% das calorias diárias e, quando possível, aproximar-se de 5%.

Depois dos 50, talvez valha olhar além da balança

Reduzir açúcar costuma ser associado a peso, diabetes ou saúde dos dentes. A ciência acrescentou mais um motivo para observar a alimentação: preservar a saúde cerebral ao longo dos anos.

Isso não exige eliminar para sempre uma sobremesa ou viver contando gramas de açúcar. Vale começar pelas escolhas que se repetem todos os dias, especialmente bebidas açucaradas, alimentos ultraprocessados e produtos que concentram grande quantidade de açúcar adicionado.

No Brasil, a lupa na parte da frente das embalagens ajuda nessa escolha. A Anvisa determina o aviso “alto em açúcar adicionado” para alimentos sólidos com 15 gramas ou mais por 100 gramas e líquidos com 7,5 gramas ou mais por 100 ml.

Depois dos 50, acompanhar glicemia, pressão, colesterol, alimentação e atividade física pode parecer uma lista de cuidados para o coração. Hoje sabemos que essa mesma lista também conversa com o cérebro.

E talvez esse seja o ponto mais importante: cuidar da memória não começa quando os esquecimentos aparecem. Começa muitos anos antes, nas escolhas e condições de saúde que acompanham a vida cotidiana.

Fontes principais:

  • Nutrients; Diabetologia;
  • Diabetes Care;
  • JAMA Neurology;
  • Neurology;
  • PubMed/NIH;
  • Organização Mundial da Saúde;
  • Anvisa;
  • ELSA-Brasil.

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