Refrigerante no almoço, biscoito no café da tarde, embutidos no sanduíche, uma refeição pronta quando falta tempo para cozinhar. Os alimentos ultraprocessados entraram na rotina justamente porque facilitam o dia a dia. Nos últimos anos, porém, pesquisadores começaram a investigar o que acontece quando eles ocupam uma parcela cada vez maior da alimentação.
Um dos resultados que mais chamou atenção veio de um estudo publicado em 2023 no periódico eClinicalMedicine, do grupo The Lancet. Pesquisadores acompanharam 197.426 participantes do UK Biobank, no Reino Unido, e encontraram uma associação particularmente forte para o câncer de ovário.
A cada aumento de 10 pontos percentuais na presença de ultraprocessados na quantidade total de alimentos consumidos, o risco de diagnóstico de câncer de ovário foi 19% maior. A mortalidade pela doença também foi 30% maior na mesma comparação.
Isso não significa que comer determinado produto aumente automaticamente em 19% a chance de uma mulher desenvolver câncer. A interpretação é mais cuidadosa.
O que o estudo realmente mostrou
Os participantes tinham entre 40 e 69 anos quando entraram na pesquisa e foram acompanhados por um período mediano de 9,8 anos. Durante esse intervalo, foram registrados 15.921 casos de câncer e 4.009 mortes relacionadas à doença.
Os pesquisadores classificaram os alimentos de acordo com o sistema NOVA e calcularam quanto os ultraprocessados representavam, em peso, na alimentação de cada participante.
Depois, compararam essa informação com os diagnósticos e as mortes por 34 tipos de câncer. As análises levaram em consideração fatores como idade, condições socioeconômicas, tabagismo, atividade física, consumo de álcool, ingestão energética e índice de massa corporal. Para os cânceres femininos, também foram considerados fatores como menopausa, número de filhos, uso de anticoncepcionais e terapia hormonal.
Mesmo depois desses ajustes, a associação com câncer de ovário permaneceu.
Ainda assim, existe uma diferença importante entre encontrar uma associação e provar uma relação de causa e efeito. Pessoas que comem mais ultraprocessados podem diferir em outros aspectos daquelas que consomem menos, e nem todos esses fatores conseguem ser completamente medidos em um estudo desse tipo.
Os próprios autores reconhecem a possibilidade de fatores residuais influenciarem os resultados e afirmam que são necessárias novas pesquisas para entender os mecanismos envolvidos.
Afinal, o que entra na categoria dos ultraprocessados?
Nem todo alimento que passou por algum processamento industrial é ultraprocessado.
A classificação NOVA, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo, separa os alimentos conforme a natureza e a finalidade do processamento. Produtos ultraprocessados são formulações industriais elaboradas a partir de diferentes substâncias derivadas de alimentos e, frequentemente, aditivos utilizados para modificar sabor, textura, aparência ou conservação.
Refrigerantes, macarrão instantâneo, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, algumas refeições prontas, embutidos e diversos produtos destinados ao consumo imediato estão entre os exemplos mais conhecidos.
Uma lista longa de ingredientes pode servir como pista, mas não é uma regra matemática. O que caracteriza o alimento é sua formulação e seu processo de produção.
O Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, recomenda que alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias sejam a base da alimentação e orienta evitar os ultraprocessados.
Ainda não sabemos por que apareceu uma relação com o ovário
Essa é provavelmente a pergunta mais interessante levantada pelo estudo e uma das que a ciência ainda não consegue responder com segurança.
Dietas com grande presença de ultraprocessados costumam apresentar características que podem ser desfavoráveis à saúde, como menor presença de alimentos frescos e fibras e maior densidade energética. O excesso de peso também é relevante porque já existe evidência de uma associação modesta entre maior índice de massa corporal e risco de câncer de ovário.
No estudo britânico, porém, a relação entre ultraprocessados e câncer de ovário continuou aparecendo mesmo depois de os pesquisadores ajustarem as análises pelo índice de massa corporal.
Há pesquisas investigando também aditivos, compostos formados durante determinados processos industriais, embalagens, inflamação e microbiota intestinal. Por enquanto, não é possível apontar nenhum desses mecanismos como a explicação para o resultado observado no câncer de ovário.
A conclusão mais correta hoje é justamente essa: existe um sinal epidemiológico que merece investigação, mas ainda não sabemos exatamente o que está por trás dele.
Outros estudos aumentaram a preocupação, mas com ressalvas
Em 2024, uma revisão publicada no The BMJ reuniu 45 análises anteriores, envolvendo dados de quase 9,9 milhões de pessoas. Foram encontradas associações entre maior exposição aos ultraprocessados e 32 desfechos de saúde.
As evidências mais consistentes apareceram para problemas como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e mortalidade geral.
Para câncer, o cenário foi menos conclusivo. A revisão encontrou associação entre maior consumo de ultraprocessados e câncer em geral e câncer colorretal, mas a qualidade das evidências foi classificada como baixa ou muito baixa em várias análises. Os próprios autores afirmaram que as relações com determinados cânceres ainda precisam de investigação.
Portanto, o estudo sobre câncer de ovário deve ser visto dentro desse contexto. É um resultado relevante e relativamente robusto dentro daquela população, mas não uma prova definitiva de causalidade.
Como diminuir os ultraprocessados sem transformar a alimentação em uma lista de proibições
A recomendação brasileira é simples: aumentar o espaço da comida de verdade na rotina.
Algumas trocas podem começar pelo que aparece com maior frequência no dia a dia. Água no lugar do refrigerante, fruta ou castanhas no lugar de parte dos lanches embalados e refeições preparadas com arroz, feijão, legumes, ovos, carnes, peixes ou outros alimentos básicos no lugar de pratos prontos são exemplos.
Também vale olhar a alimentação como um conjunto. Comer um biscoito ou uma refeição pronta ocasionalmente é diferente de ter os ultraprocessados como base da dieta.
Para pessoas mais velhas, restrições alimentares muito rígidas podem ainda ser inadequadas quando existem perda de peso, redução do apetite ou outras necessidades nutricionais. Nesses casos, mudanças importantes na alimentação devem ser discutidas com um profissional de saúde.
O dado merece atenção, não medo
A pesquisa de 2023 trouxe uma informação importante para uma área em que ainda existem muitas perguntas: mulheres com maior participação de ultraprocessados na alimentação apresentaram maior risco de câncer de ovário durante o acompanhamento.
Isso é suficiente para justificar novos estudos e reforça uma recomendação que já faz parte do Guia Alimentar brasileiro: deixar os ultraprocessados em segundo plano e priorizar alimentos in natura, minimamente processados e preparações culinárias.
Não é suficiente, porém, para concluir que um refrigerante, um biscoito ou qualquer outro produto isolado provoque câncer de ovário. Quando o assunto é alimentação e câncer, o que importa para a ciência é o padrão mantido ao longo do tempo e o conjunto de fatores que compõem a saúde de cada pessoa.
Fontes:
- Chang, K. et al. Ultra-processed food consumption, cancer risk and cancer mortality: a large-scale prospective analysis within the UK Biobank. eClinicalMedicine, 2023.
- Lane, M. M. et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses. The BMJ, 2024.
- Ministério da Saúde. Guia Alimentar para a População Brasileira.
- International Agency for Research on Cancer. IARC Handbooks of Cancer Prevention: Absence of Excess Body Fatness, seção sobre câncer de ovário.
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