Aos 17 ou 18 anos, uma das perguntas mais comuns é: “O que você quer ser?”. Como se a resposta dada naquele momento precisasse continuar válida pelos próximos 40 ou 50 anos.
Mas talvez essa lógica esteja envelhecendo.
O aumento da longevidade, as transformações tecnológicas e as mudanças na própria relação das pessoas com o trabalho estão tornando as trajetórias profissionais menos lineares. Um relatório da OCDE aponta que já é mais comum uma pessoa passar por diferentes empregos e até diferentes carreiras ao longo da vida.
Isso muda uma ideia que acompanhou várias gerações: estudar, escolher uma profissão, construir uma carreira e permanecer nela até a aposentadoria.
Aos 50, ainda pode haver muita carreira pela frente
A mudança fica mais clara quando olhamos para quem continua trabalhando em idades mais avançadas.
No Brasil, 24,4% das pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupadas em 2024, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012. Entre 60 e 69 anos, 36,2% continuavam no mercado de trabalho.
E a tendência não é exclusiva do país. A OCDE estima que, em 2050, um em cada seis trabalhadores terá mais de 65 anos, em média, entre seus países membros.
Se a vida profissional se prolonga, uma mudança aos 45 ou 50 anos já não precisa necessariamente ser encarada como algo tardio. Para alguém que pretende trabalhar até os 65 ou 70, ela pode representar o início de uma trajetória de mais 15 ou 20 anos.
Mudar de carreira não significa começar do zero
Existe também uma diferença importante entre começar novamente e começar sem experiência.
Quem muda de área depois de décadas de trabalho leva consigo habilidades construídas ao longo da vida: capacidade de negociação, comunicação, gestão de conflitos, repertório profissional, relacionamento com pessoas e tomada de decisão.
Uma pesquisa divulgada pela FGV em maio de 2026 destaca justamente a importância dessas competências para profissionais acima dos 50 anos. O estudo aponta que reconhecer habilidades como empatia, perseverança, capacidade de aprendizagem e mediação de conflitos pode favorecer novas trajetórias profissionais.
Ou seja, a experiência acumulada em uma carreira pode se transformar em matéria-prima para a próxima.
E existe evidência de que mudar pode prolongar a vida profissional
Dados da OCDE trazem uma descoberta interessante.
Entre os países analisados, a probabilidade de uma pessoa continuar trabalhando aos 60 anos chegava a aproximadamente 62% entre quem havia mudado de emprego entre os 45 e os 54 anos. Entre aqueles que não passaram por essa mudança, a probabilidade era de cerca de 54%.
Isso não significa que trocar de profissão seja a melhor escolha para todos. Mas mostra que mobilidade profissional na maturidade não precisa ser interpretada apenas como instabilidade.
Ela também pode representar adaptação.
Talvez a pergunta tenha mudado
Durante muito tempo, construir uma boa carreira significava encontrar uma profissão e permanecer nela.
Uma vida mais longa pode exigir outra lógica.
Pode haver espaço para trabalhar em uma empresa durante décadas e depois empreender. Para abandonar uma função de gestão e começar a ensinar. Para voltar à universidade aos 50. Para transformar conhecimento acumulado em consultoria. Ou simplesmente para descobrir uma atividade que faça mais sentido para a pessoa que você se tornou.
Aos 18 anos, escolhemos com o repertório que temos aos 18.
Décadas depois, mudam as prioridades, as habilidades, o mercado e nós mesmos.
Por isso, talvez uma das perguntas mais interessantes da longevidade profissional não seja apenas “até quando vamos trabalhar?”.
Mas também:
quantas vezes teremos a oportunidade de escolher o que queremos fazer?
Fontes
OCDE — Promoting Better Career Choices for Longer Working Lives
IBGE — Síntese de Indicadores Sociais 2025, dados sobre pessoas com 60 anos ou mais no mercado de trabalho
Fundação Getulio Vargas — pesquisa sobre reinvenção profissional e competências socioemocionais após os 50 anos, publicada em maio de 2026
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