Etarismo no mercado de trabalho: como transformar experiência em diferencial
A experiência profissional deveria abrir portas. No entanto, para muitos trabalhadores, o avanço da idade ainda se transforma em uma barreira para permanecer no mercado, conquistar uma nova oportunidade ou assumir posições de liderança.
Essa discriminação tem nome: etarismo ou idadismo. Segundo a Organização Mundial da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde, o termo se refere ao uso da idade para categorizar pessoas de uma forma que provoca prejuízos, injustiças e limitações.
No ambiente profissional, o etarismo aparece de diferentes maneiras. Pode estar em uma vaga que procura alguém “jovem e dinâmico”, na exclusão de profissionais mais velhos de treinamentos, na suposição de que eles não dominam novas tecnologias ou até em desligamentos motivados, direta ou indiretamente, pela idade.
Em um país que envelhece rapidamente, enfrentar esse problema deixou de ser apenas uma questão social. Também se tornou uma necessidade econômica e estratégica.
O envelhecimento da população já chegou ao mercado de trabalho
O Brasil passa por uma importante transformação demográfica. Em 2024, a população com 60 anos ou mais chegou a 34,1 milhões de pessoas, um crescimento de 53,3% em comparação com 2012. As projeções do IBGE também indicam que, até 2060, aproximadamente um quarto da população brasileira terá mais de 65 anos.
Isso significa que haverá cada vez mais pessoas maduras trabalhando, buscando recolocação, empreendendo ou iniciando novas trajetórias profissionais.
Apesar dessa realidade, a idade ainda interfere nas oportunidades.
A pesquisa global Talent Trends 2025, da Michael Page, apontou que 41% dos profissionais brasileiros já sofreram algum tipo de discriminação relacionada à idade durante a carreira. O percentual está acima da média global, de 36%, e da média da América Latina, de 35%.
Outros levantamentos também ajudam a dimensionar o problema. Uma pesquisa do Infojobs indicou que 57% dos brasileiros com mais de 40 anos já perceberam discriminação etária. Entre os profissionais acima de 55 anos, 39% afirmaram se sentir excluídos do mercado, segundo a consultoria Hype50+.
A dificuldade também aparece nas contratações. A pesquisa Etarismo e Inclusão 2023, realizada pela Robert Half e pela Labora, mostrou que 70% das empresas contratam poucos ou nenhum profissional com mais de 50 anos.
Esses números revelam uma contradição: enquanto a população envelhece e permanece economicamente ativa por mais tempo, muitas organizações ainda não sabem reconhecer ou aproveitar todo o potencial dos profissionais experientes.
Como o etarismo aparece na prática
A discriminação por idade nem sempre é explícita. Muitas vezes, ela surge por meio de comentários, decisões e critérios aparentemente comuns.
Entre os exemplos estão:
• não considerar um candidato por acreditar que ele está “superqualificado”;
• presumir que profissionais mais velhos têm dificuldade com tecnologia;
• deixar de oferecer treinamentos ou promoções por causa da idade;
• associar maturidade à falta de criatividade ou flexibilidade;
• priorizar candidatos mais jovens, mesmo quando possuem menos experiência;
• considerar que o profissional está “perto de se aposentar” e não vale o investimento.
Essas atitudes podem dificultar a recolocação, limitar o crescimento profissional e gerar insegurança até mesmo em pessoas com décadas de conhecimento acumulado.
O impacto não é apenas financeiro. A exclusão pode provocar perda de confiança, isolamento, desmotivação, ansiedade e sofrimento emocional. A OMS estima que milhões de casos de depressão em todo o mundo estejam relacionados ao etarismo.
As empresas também perdem
Excluir profissionais experientes não prejudica apenas quem procura trabalho. As próprias organizações deixam de aproveitar competências construídas ao longo de anos.
Profissionais com mais tempo de carreira costumam reunir conhecimento técnico, capacidade de tomada de decisão, visão ampla dos processos e experiência para lidar com situações complexas. Também podem contribuir para a formação de novas lideranças e para a transmissão de conhecimentos que não estão registrados em manuais.
Uma equipe formada por diferentes gerações tende a reunir perspectivas complementares. Enquanto alguns profissionais trazem domínio de novas ferramentas e tendências, outros oferecem repertório, memória institucional e experiência prática.
Quando essa troca acontece de maneira respeitosa, todos aprendem.
Por outro lado, uma cultura que associa competência à juventude pode perder talentos, aumentar a rotatividade e comprometer sua reputação. Além disso, a empresa pode enfrentar consequências jurídicas quando a idade é utilizada como critério de contratação, promoção ou desligamento.
O que diz a legislação brasileira
A discriminação por idade nas relações de trabalho é proibida no Brasil.
A Constituição Federal garante o direito à igualdade e estabelece a dignidade da pessoa humana e o valor social do trabalho como princípios fundamentais.
A Lei nº 9.029/1995 proíbe práticas discriminatórias para acesso ou manutenção do emprego. Em casos de demissão discriminatória, o trabalhador pode ter direito à reintegração ou a uma indenização correspondente ao dobro da remuneração do período de afastamento.
O Estatuto da Pessoa Idosa também proíbe a discriminação e a definição de limite máximo de idade para admissão em empregos, salvo quando a natureza da função justificar esse critério.
A Consolidação das Leis do Trabalho reforça essa proteção. O artigo 373-A proíbe anúncios de emprego que estabeleçam restrições de idade sem justificativa, enquanto o artigo 461 determina igualdade salarial para funções equivalentes, sem distinção etária.
As consequências jurídicas têm se tornado mais visíveis. Entre 2018 e 2023, as ações trabalhistas relacionadas ao etarismo cresceram de forma expressiva no Brasil, mostrando que profissionais e instituições estão mais atentos a esse tipo de discriminação.
Como transformar experiência em diferencial
O etarismo é um problema estrutural, mas existem estratégias que podem ajudar profissionais experientes a fortalecer seu posicionamento e ampliar suas oportunidades.
Apresente resultados, não apenas tempo de carreira
Ter muitos anos de experiência é relevante, mas é ainda mais importante mostrar o que foi construído durante esse período.
Em currículos, entrevistas e perfis profissionais, destaque projetos realizados, problemas solucionados, melhorias implantadas e resultados alcançados. Sempre que possível, utilize números, exemplos e situações concretas.
Em vez de apenas informar que trabalhou durante 20 anos em determinada área, explique quais competências desenvolveu e como elas podem ajudar a empresa atualmente.
Mantenha o currículo objetivo
Um currículo muito extenso pode esconder as informações mais importantes.
Priorize as experiências recentes e as competências mais relacionadas à vaga. Não é necessário detalhar toda a trajetória desde o início da carreira. Cursos antigos ou experiências que já não contribuem para o objetivo atual podem ser resumidos.
O foco deve estar no valor que você consegue entregar hoje.
Atualize seus conhecimentos
A experiência não substitui a necessidade de continuar aprendendo. Da mesma forma, uma nova tecnologia não elimina o valor do conhecimento acumulado.
Cursos, certificações e contato com novas ferramentas demonstram disposição para acompanhar as mudanças. Essa atualização pode acontecer por meio do aprimoramento das habilidades atuais, conhecido como upskilling, ou da aprendizagem de competências para atuar em uma nova função, chamada de reskilling.
O objetivo não é acompanhar todas as tendências, mas compreender quais mudanças realmente afetam sua profissão.
Fortaleça sua presença profissional
Manter uma rede de contatos ativa pode abrir caminhos que não aparecem em anúncios de vagas.
Retome o contato com antigos colegas, participe de eventos, converse com profissionais da área e mantenha seu perfil em plataformas como o LinkedIn atualizado. Compartilhar aprendizados, análises e experiências também ajuda a demonstrar conhecimento e manter sua trajetória visível.
Networking não significa pedir emprego. Significa construir e preservar relações profissionais.
Demonstre adaptabilidade
Durante processos seletivos, prepare exemplos que mostrem sua capacidade de aprender, mudar processos e trabalhar com pessoas de diferentes gerações.
Em vez de apenas afirmar que se adapta bem, conte situações em que precisou aprender uma nova ferramenta, assumir uma função diferente ou participar de uma transformação dentro da empresa.
Exemplos concretos ajudam a combater estereótipos.
Considere novos formatos de atuação
A continuidade da vida profissional não precisa acontecer apenas por meio de um emprego tradicional.
Consultorias, mentorias, projetos temporários, trabalho autônomo, empreendedorismo e participação em conselhos podem transformar o conhecimento acumulado em novas oportunidades.
Esses caminhos permitem utilizar a experiência de forma mais flexível e, em alguns casos, iniciar uma segunda carreira.
Pratique a troca entre gerações
A mentoria é uma maneira de compartilhar experiências e fortalecer a posição do profissional como referência. Ao mesmo tempo, a mentoria reversa permite aprender com pessoas mais jovens sobre tecnologias, comportamentos e novas dinâmicas do mercado.
Essa troca reduz preconceitos e mostra que diferentes gerações não precisam competir entre si. Elas podem se complementar.
Experiência não tem prazo de validade
Combater o etarismo não significa negar as mudanças que acompanham cada etapa da vida. Significa impedir que a idade seja utilizada como uma explicação automática para definir a competência, a capacidade de aprender ou o potencial de uma pessoa.
Profissionais experientes carregam conhecimentos que não podem ser adquiridos rapidamente. Eles foram construídos por meio de decisões, erros, mudanças, desafios e anos de prática.
Ao atualizar seus conhecimentos, comunicar melhor seus resultados e manter uma presença profissional ativa, é possível transformar essa trajetória em um diferencial competitivo.
As empresas também precisam fazer sua parte, revendo critérios de contratação, promovendo treinamentos acessíveis a todas as idades e construindo equipes verdadeiramente multigeracionais.
O futuro do trabalho será cada vez mais longevo. Valorizar a experiência não é olhar apenas para o passado, mas preparar organizações e profissionais para uma realidade que já começou.
Fontes consultadas
Organização Mundial da Saúde
Organização Pan-Americana da Saúde
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
Michael Page
Infojobs
Hype50+
Robert Half
Labora
Ministério do Trabalho e Emprego
Tribunal Superior do Trabalho
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