As redes sociais podem aproximar familiares, recuperar amizades e ampliar o acesso à informação. Mas, quando o uso se torna excessivo ou difícil de controlar, essa relação pode mudar.
Um estudo publicado em novembro de 2025 na revista científica JMIR Aging analisou 15.986 aposentados de Xangai, na China, com idade média de 68,5 anos. Os pesquisadores encontraram que participantes classificados com dependência de redes sociais apresentavam chances estatísticas 2,81 vezes maiores de ansiedade e 2,51 vezes maiores de depressão quando comparados aos que não apresentavam esse padrão.
O resultado chama atenção, mas exige uma distinção importante: o estudo encontrou uma associação, não provou que as redes sociais provocaram ansiedade ou depressão.
As redes sociais também podem fazer bem
Estar conectado não é necessariamente um problema.
Para pessoas mais velhas, ferramentas digitais podem ajudar a manter contato com familiares e amigos, participar de grupos de interesse e preservar vínculos mesmo quando existe distância física.
Uma revisão sistemática sobre redes sociais e pessoas com 65 anos ou mais encontrou evidências de benefícios relacionados à conexão social e a determinados indicadores de bem-estar, embora os resultados variem bastante conforme a forma de utilização das plataformas.
Um estudo realizado com brasileiros acima de 60 anos também encontrou associação entre maior participação nas redes e melhor percepção de bem-estar durante o período analisado.
Isso está de acordo com uma discussão mais ampla da Organização Mundial da Saúde: conexões sociais de qualidade são importantes para a saúde física e mental ao longo da vida. Mas conexão digital e uso excessivo das redes não são a mesma coisa.
Quando o tempo de tela vira um sinal de alerta
No estudo de Xangai, 32,3% dos participantes disseram utilizar redes sociais por mais de quatro horas diariamente.
Entre aqueles que permaneciam nas plataformas por seis horas ou mais, as chances estatísticas de ansiedade foram 1,44 vez maiores e as de depressão, 1,50 vez maiores em relação a quem utilizava as redes por até uma hora ao dia.
Mais importante do que estabelecer um número universal de horas, porém, é observar como a tecnologia está interferindo na vida cotidiana.
O sinal de atenção aparece quando a pessoa tenta diminuir o uso e não consegue, abandona atividades de que gostava, perde horas de sono, deixa encontros presenciais de lado ou percebe que seu estado emocional depende constantemente do que acontece na tela.
Também é importante considerar o sentido contrário: ansiedade, depressão, solidão ou dificuldades sociais podem levar algumas pessoas a passar mais tempo conectadas. Os próprios autores do estudo ressaltam que novas pesquisas longitudinais são necessárias para esclarecer essa relação.
Comparação: quando a vida dos outros começa a pesar
As redes mostram uma parte muito selecionada da realidade.
Viagens, conquistas, corpos, famílias felizes e rotinas aparentemente perfeitas aparecem com muito mais frequência do que perdas, inseguranças, dificuldades financeiras ou dias comuns.
Por isso, observar como determinado conteúdo faz você se sentir pode ser mais útil do que simplesmente contar quantas horas passou no celular.
Se determinados perfis provocam frequentemente comparação, irritação, ansiedade ou sensação de inadequação, deixar de acompanhá-los pode ser uma escolha saudável.
Ao mesmo tempo, não é preciso abandonar as redes para proteger o bem-estar. Estudos mostram que os efeitos da tecnologia entre pessoas mais velhas dependem bastante de como e para que ela é utilizada. Interações que fortalecem vínculos podem ter efeitos diferentes de horas de navegação passiva e difícil de interromper.
Como ter uma relação mais saudável com o digital
Algumas mudanças simples podem ajudar:
- acompanhe quanto tempo você realmente passa nas plataformas;
- evite deixar as redes ocuparem o horário destinado ao sono;
- priorize perfis e grupos que acrescentem informação, diversão ou conexão;
- preserve atividades fora das telas, como exercícios, leitura, hobbies e encontros;
- desative notificações que criam a sensação de que é preciso verificar o celular a todo momento;
- perceba seu estado emocional depois de longos períodos conectado.
Também não existe obrigação de publicar tudo o que acontece. Uma experiência continua tendo valor mesmo quando não recebe curtidas, comentários ou visualizações.
A sua vida não precisa da aprovação de um algoritmo
As redes sociais foram construídas para tornar visíveis números que antes não faziam parte das nossas relações: seguidores, curtidas, compartilhamentos e visualizações.
Essas métricas podem ser divertidas, mas não são uma medida de importância, afeto ou valor pessoal.
O estudo de Xangai não demonstra que redes sociais causam ansiedade ou depressão. Ele mostra algo mais cuidadoso e igualmente relevante: padrões problemáticos e muito intensos de uso aparecem associados a pior saúde mental entre aposentados pesquisados.
A tecnologia pode aproximar, informar e entreter. O desafio é impedir que ela ocupe o espaço das relações, atividades e experiências que dão sentido à vida fora da tela.
Quando o uso se torna difícil de controlar ou começa a interferir de forma persistente no sono, nas relações, na rotina ou no bem-estar emocional, conversar com um profissional de saúde pode ajudar.
Fontes consultadas
JMIR Aging / PubMed: Huang J. et al. Associations Between Social Media Use and Anxiety and Depression Among Older Adults: Cross-Sectional Study. Publicado em 10 de novembro de 2025.
International Psychogeriatrics: revisão sistemática sobre uso de redes sociais e resultados psicossociais em pessoas com 65 anos ou mais.
Organização Mundial da Saúde (OMS): relatório e informações da Comissão sobre Conexão Social, isolamento, solidão e saúde.
Aging Clinical and Experimental Research: estudo sobre diferentes formas de uso de redes sociais e bem-estar psicossocial em adultos mais velhos.
International Journal of Environmental Research and Public Health: pesquisa com brasileiros de 60 anos ou mais sobre redes sociais, inclusão digital e percepção de bem-estar.
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