Imagine estar em um restaurante movimentado. Há música, pratos batendo, pessoas conversando nas mesas ao lado e, bem à sua frente, alguém tentando contar uma história. Para quem convive com perda auditiva, distinguir essa voz de todos os outros sons pode exigir um esforço enorme.
É justamente esse problema que uma nova geração de aparelhos auditivos pretende enfrentar com inteligência artificial.
A suíça Sonova apresentou em 24 de agosto de 2026 a plataforma Phonak EON, sua terceira geração de aparelhos auditivos com recursos de IA. A tecnologia utiliza processamento em tempo real para identificar a fala e diferenciá-la do ruído que vem de outras direções.
Na prática, o aparelho não tenta simplesmente deixar tudo mais alto. A proposta é reconhecer quais sons provavelmente fazem parte da conversa e quais podem ser reduzidos, algo particularmente importante em lugares com várias fontes de ruído ao mesmo tempo.
Segundo dados técnicos divulgados pela Phonak, seu sistema Spheric Speech Clarity 3.0 proporcionou melhora de até 44% na compreensão da fala em ambientes movimentados e barulhentos, dentro das condições avaliadas pela fabricante. A nova plataforma também foi projetada para consumir menos energia e permitir aparelhos menores.
A Reuters destacou que a geração apresentada agora evolui uma tecnologia lançada pela empresa em 2024, quando a Sonova começou a utilizar redes neurais em tempo real para diferenciar fala e ruído de fundo em seus aparelhos auditivos.
Por que ouvir melhor importa tanto depois dos 60?
A novidade ganha importância quando colocada diante do envelhecimento da população.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 25% das pessoas acima dos 60 anos apresentam perda auditiva incapacitante. Considerando diferentes graus de perda auditiva, o número é ainda maior e aumenta progressivamente com a idade.
E não estamos falando apenas de não escutar a televisão ou precisar pedir para alguém repetir uma frase.
A audição participa diretamente da comunicação e da capacidade de acompanhar o que acontece ao redor. Quando ouvir exige esforço constante, situações simples como almoçar com amigos, conversar com os netos, participar de uma reunião ou resolver algo fora de casa podem se tornar mais cansativas.
A própria OMS relaciona a perda auditiva na população mais velha a impactos na capacidade funcional, na qualidade de vida e na participação social. Por isso, a entidade recomenda atenção à saúde auditiva e identificação precoce das alterações, principalmente após os 60 anos.
Audição também entrou no debate sobre saúde cognitiva
Nos últimos anos, pesquisadores também passaram a estudar com mais atenção a relação entre perda auditiva e envelhecimento cognitivo.
Um dos principais trabalhos nessa área é o estudo ACHIEVE, financiado pelo National Institute on Aging, dos Estados Unidos. No resultado geral do estudo, a intervenção auditiva não produziu diferença significativa no declínio cognitivo de todos os participantes. Entretanto, entre pessoas mais velhas que já apresentavam maior risco de declínio cognitivo, o uso de intervenção para a audição esteve associado a uma redução de 48% na taxa de declínio cognitivo ao longo de três anos.
Isso não significa que um aparelho auditivo previna demência, nem que a nova tecnologia com IA tenha demonstrado esse efeito. O dado ajuda, porém, a mostrar por que a saúde auditiva passou a ser tratada como uma parte relevante do envelhecimento saudável.
Da amplificação à inteligência artificial
Durante décadas, a evolução dos aparelhos auditivos esteve muito ligada à qualidade da amplificação, ao tamanho dos dispositivos e ao conforto.
Agora, a disputa tecnológica avança para outra direção: entender melhor o ambiente sonoro.
Redes neurais conseguem analisar grandes quantidades de informação e identificar padrões que ajudam o aparelho a decidir, quase instantaneamente, quais sons devem receber maior destaque.
Para uma população que viverá cada vez mais tempo, essa evolução pode ter um objetivo muito maior do que simplesmente ouvir mais alto.
Pode significar continuar acompanhando uma conversa em um restaurante cheio, participando de encontros familiares, circulando por ambientes movimentados e mantendo algo fundamental para a longevidade: a capacidade de permanecer conectado ao mundo e às pessoas ao redor.
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