Finanças

O custo invisível de envelhecer: quem paga quando a autonomia diminui?

O custo da perda de autonomia pode superar gastos com saúde e exigir um planejamento que a maioria das famílias ainda não faz.

O custo invisível de envelhecer: quem paga quando a autonomia diminui?
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Quando pensamos em quanto dinheiro será necessário para envelhecer, é comum colocar na conta plano de saúde, consultas, medicamentos, moradia e alimentação. Mas existe uma despesa capaz de mudar completamente o orçamento de uma família e que raramente aparece nas projeções para a aposentadoria: o custo de ser cuidado.

Os dados ajudam a dimensionar o problema. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, do IBGE, 20,4% das pessoas com 60 anos ou mais tinham alguma limitação para realizar atividades instrumentais da vida diária, como fazer compras, cuidar do próprio dinheiro, usar transporte, cozinhar ou fazer a limpeza da casa.

Quando consideradas atividades básicas, como tomar banho, vestir-se, alimentar-se ou se locomover dentro de casa, 9,5% dos idosos apresentavam limitações. E a dependência cresce significativamente com a idade: entre aqueles com 75 anos ou mais, 43,2% apresentavam limitação para atividades instrumentais da rotina.

Isso significa que planejar uma vida longa não deveria envolver apenas calcular quanto será necessário para viver. Também é preciso considerar quanto poderá custar viver quando determinadas tarefas já não puderem ser realizadas sozinho.

O Brasil vive mais. E isso muda a conta

A expectativa de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024, segundo o IBGE. Em 1970, era de 57,6 anos. Em pouco mais de cinco décadas, portanto, foram acrescentados quase 20 anos à expectativa média de vida do brasileiro.

E o processo de envelhecimento ainda está longe de terminar. A população com 60 anos ou mais representava 15,6% dos brasileiros em 2023. Pelas projeções mais recentes do IBGE, poderá chegar a 37,8% da população em 2070.

O fenômeno é mundial. A Organização Mundial da Saúde estima que, já em 2030, uma em cada seis pessoas no planeta terá 60 anos ou mais. A própria OMS chama atenção para a necessidade de os países ampliarem seus sistemas de saúde e de cuidados de longa duração diante dessa transformação demográfica.

O desafio financeiro aparece justamente na diferença entre viver mais e permanecer independente por mais tempo.

Quando o cuidado entra no orçamento

Uma perda de autonomia pode criar despesas que antes simplesmente não existiam.

É possível precisar de um cuidador durante algumas horas do dia. Depois, de dois ou mais profissionais para cobrir diferentes turnos. Podem surgir gastos com adaptações da residência, equipamentos de mobilidade, transporte especializado, enfermagem domiciliar ou uma instituição de longa permanência.

E não existe uma tabela nacional capaz de dizer exatamente quanto esse cuidado custará. Os valores dependem da cidade, da quantidade de horas de assistência, do grau de dependência e da qualificação dos profissionais envolvidos.

Mas dados públicos dão uma dimensão da conta. Em Caxias do Sul, por exemplo, a Fundação de Assistência Social informou em 2025 que mantinha mais de 80 vagas em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs), com custo médio superior a R$ 4,5 mil por mês por vaga. Não se trata de uma média nacional, mas de um exemplo concreto de quanto o cuidado institucional pode representar mensalmente.

No cuidado domiciliar, o salário do profissional também é apenas uma parte da despesa. Quando há vínculo formal, entram direitos trabalhistas e encargos. E uma pessoa que precisa de acompanhamento permanente pode exigir uma estrutura com mais de um cuidador para que haja cobertura durante todo o dia.

Por isso, o custo da dependência não deve ser tratado como uma despesa pontual. Ele pode acompanhar uma família durante meses ou anos.

Existe ainda um custo que não aparece no extrato bancário

Nem todo cuidado é contratado. Grande parte dele acontece dentro das próprias famílias.

E, historicamente, são as mulheres que absorvem a maior parcela desse trabalho.

Dados do IBGE mostram que, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, eram 11,7 horas. Mesmo entre quem estava no mercado de trabalho, a diferença permanecia significativa.

Esse tempo também tem valor econômico.

Quando um filho ou uma filha reduz sua carga de trabalho para acompanhar os pais, deixa de aceitar uma promoção ou sai do mercado para assumir os cuidados, o custo da dependência deixa de ser apenas o que é pago diretamente.

Passa a existir também uma perda de renda, de tempo de contribuição previdenciária e de oportunidades profissionais.

É nesse cenário que aparece a chamada geração sanduíche: adultos que sustentam ou cuidam dos filhos enquanto começam, ao mesmo tempo, a assumir responsabilidades financeiras e de cuidado com os próprios pais.

Uma vida mais longa, portanto, não altera apenas as finanças de quem envelhece. Pode alterar as finanças de duas ou até três gerações da mesma família.

O cuidado deixou de ser apenas um assunto de família

A dimensão do problema começou a aparecer também nas políticas públicas brasileiras.

Em dezembro de 2024, o Brasil instituiu a Política Nacional de Cuidados, que reconhece o direito de ser cuidado, de cuidar e de exercer o autocuidado. A lei estabelece que a responsabilidade pelo cuidado deve ser compartilhada entre Estado, famílias, setor privado e sociedade civil.

Em 2025, o governo regulamentou o Plano Nacional de Cuidados. A estratégia reúne 79 ações e prevê aproximadamente R$ 25 bilhões em investimentos até 2027, incluindo iniciativas direcionadas a pessoas idosas que necessitam de auxílio nas atividades da vida diária e a trabalhadores remunerados e não remunerados do cuidado.

A criação de uma política dessa dimensão revela que o cuidado na velhice deixou de ser uma questão estritamente doméstica. É também um desafio econômico, trabalhista e social para um país que envelhece rapidamente.

Quem vai pagar essa conta?

A legislação brasileira determina que família, sociedade e Estado têm responsabilidades na proteção da pessoa idosa. A Constituição estabelece ainda que filhos maiores devem ajudar e amparar os pais na velhice, carência ou enfermidade. Já o Estatuto da Pessoa Idosa prevê punição para situações de abandono ou para quem deixa de prover necessidades básicas quando existe obrigação legal de fazê-lo.

Mas existe uma diferença importante entre saber quem tem responsabilidade pelo cuidado e saber de onde virá o dinheiro para financiá-lo.

Essa segunda pergunta precisa aparecer mais cedo no planejamento financeiro.

Quanto da renda mensal poderia ser destinado a cuidados sem comprometer o restante do orçamento? A casa atual permitiria envelhecer com segurança ou exigiria adaptações? Existe patrimônio com liquidez suficiente para uma necessidade prolongada? Quem assumiria as decisões e as despesas se a autonomia diminuísse? A família já conversou sobre isso?

São perguntas desconfortáveis, mas que podem evitar decisões tomadas às pressas justamente no momento de maior fragilidade.

Planejar a longevidade é planejar também a dependência

Durante muito tempo, planejamento para aposentadoria significou acumular recursos suficientes para substituir o salário e manter determinado padrão de vida.

O aumento da longevidade exige uma conta mais sofisticada.

Moradia, alimentação, viagens, saúde e lazer continuam importantes. Mas é preciso acrescentar uma variável que dificilmente cabe em uma planilha simples: o custo potencial da perda de autonomia.

Isso não significa presumir que toda pessoa idosa ficará dependente. Significa reconhecer que a possibilidade existe e que suas consequências financeiras podem ser relevantes.

Estamos ficando melhores em planejar quanto dinheiro será necessário para viver mais.

Talvez o próximo passo seja perguntar algo igualmente importante:

se um dia você precisar de ajuda para viver, quem vai cuidar de você e como esse cuidado será pago?

Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento ou planejamento financeiro individual.

Fontes consultadas

  • Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Pesquisa Nacional de Saúde 2019, Tábuas Completas de Mortalidade 2024, Projeções da População e Estatísticas de Gênero
  • Organização Mundial da Saúde (OMS): Ageing and Health
  • Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social: Política Nacional de Cuidados e Plano Nacional de Cuidados – Brasil que Cuida
  • Presidência da República: Constituição Federal e Estatuto da Pessoa Idosa
  • Prefeitura de Caxias do Sul: Programa Cuidado Subsidiado
  • InfoMoney: reportagens sobre custos dos cuidados de longa duração e geração sanduíche

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