Ao longo da vida, a vacinação acompanha diferentes fases e necessidades de saúde. Depois dos 60 anos, esse cuidado ganha uma importância especial.
Isso acontece porque o sistema imunológico também envelhece. Com o passar do tempo, o organismo pode responder de forma menos eficiente a vírus e bactérias, aumentando o risco de complicações causadas por doenças que, em pessoas mais jovens, muitas vezes têm evolução mais simples.
A influenza é um bom exemplo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a gripe sazonal provoca entre 3 milhões e 5 milhões de casos graves e até 650 mil mortes respiratórias por ano no mundo, e pessoas mais velhas estão entre os grupos com maior risco de evolução desfavorável.
No Brasil, os dados também mostram por que esse cuidado merece atenção. Pessoas idosas representam uma parcela importante das internações e mortes relacionadas às síndromes respiratórias, especialmente durante os períodos de maior circulação de vírus.
Por isso, falar de vacinação na terceira idade não é apenas falar em evitar uma infecção. É falar em reduzir a chance de que uma doença leve a uma internação, piore condições crônicas já existentes ou provoque uma recuperação mais lenta.
O sistema imunológico também envelhece
Uma das explicações está em um processo chamado imunossenescência. Com o passar dos anos, o sistema imunológico sofre alterações e pode responder de forma menos eficiente às infecções.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) explica que essas mudanças podem aumentar tanto a incidência quanto a gravidade de doenças infecciosas. A produção de anticorpos também pode ocorrer de maneira mais lenta e diminuir mais rapidamente em pessoas mais velhas. Ainda assim, a própria OMS reforça que a idade avançada não deve ser considerada uma barreira para a vacinação.
A partir daqui, o restante da matéria pode seguir igual.
A vacina realmente reduz hospitalizações?
As pesquisas indicam que sim.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet Global Health analisou dados de oito países do Hemisfério Sul durante a temporada de influenza de 2023. Mais de 31 mil pessoas internadas com infecção respiratória aguda grave foram avaliadas.
Entre pessoas com 65 anos ou mais, a vacinação contra a influenza apresentou 47,7% de efetividade contra hospitalizações relacionadas à gripe. Considerando todas as faixas etárias estudadas, a efetividade estimada foi de 51,9%.
Isso significa que a vacina não elimina totalmente o risco, mas pode mudar de maneira importante o desfecho de uma infecção.
A própria OMS destaca que, mesmo quando a resposta à vacina contra influenza é menor nas pessoas idosas do que nos adultos mais jovens, a imunização continua contribuindo para tornar a doença menos grave e reduzir complicações e mortes.
E não é só a gripe
Pneumonia e outras doenças pneumocócicas também merecem atenção ao longo do envelhecimento.
Um grande estudo clínico envolvendo 84.496 adultos com 65 anos ou mais avaliou uma vacina pneumocócica conjugada. O imunizante apresentou eficácia de 45,6% contra pneumonia causada pelos tipos de pneumococo presentes na vacina e de 75% contra doença pneumocócica invasiva, quadro no qual a bactéria pode atingir locais normalmente estéreis do organismo, como sangue ou líquido que envolve o cérebro.
As recomendações evoluíram desde esse estudo, e hoje existem vacinas pneumocócicas mais recentes. O Calendário 2026/2027 da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), por exemplo, recomenda a vacina pneumocócica conjugada VPC20 como rotina para idosos, além de vacinação anual contra influenza e imunização contra herpes-zóster. A entidade também recomenda vacinação contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) como rotina a partir dos 70 anos e, a partir dos 60, para pessoas com maior risco de evolução grave.
Essas recomendações não são exatamente iguais às vacinas disponibilizadas rotineiramente pelo SUS. Por isso, é importante diferenciar o calendário do Programa Nacional de Imunizações das recomendações de sociedades médicas e avaliar individualmente quais vacinas são indicadas.
Quais vacinas o SUS recomenda depois dos 60?
No Calendário Nacional de Vacinação de 2026, o Ministério da Saúde estabelece para pessoas a partir dos 60 anos a vacinação anual contra influenza e uma dose de covid-19 a cada seis meses.
Hepatite B e a vacina contra difteria e tétano também fazem parte do calendário conforme o histórico vacinal. Outras imunizações, como febre amarela e pneumocócica 23-valente, possuem indicações específicas de acordo com condições de saúde, histórico e situação da pessoa.
O Ministério da Saúde reforça que manter a vacinação atualizada ajuda a prevenir doenças graves e reduz o risco de complicações, hospitalizações e mortes, contribuindo também para qualidade de vida e autonomia na terceira idade.
E esse último ponto talvez seja um dos mais importantes.
Uma internação pode representar muito mais do que alguns dias no hospital
Na terceira idade, uma doença grave não termina necessariamente quando a infecção desaparece.
Dias ou semanas de repouso e hospitalização podem significar perda de força muscular, dificuldade para caminhar, maior dependência para atividades cotidianas e um processo de recuperação mais demorado.
Por isso, pensar em vacinação dentro da longevidade é olhar além da prevenção de uma doença específica.
É também tentar evitar situações que possam interromper uma rotina ativa, comprometer a independência ou desencadear uma sequência de problemas de saúde.
Vacinar-se não elimina todos os riscos do envelhecimento e tampouco substitui acompanhamento médico, alimentação adequada, atividade física e controle de doenças crônicas. É mais uma camada de proteção.
E, diante de uma população que está vivendo cada vez mais, essa camada pode fazer diferença.
A carteira de vacinação, portanto, merece ocupar o mesmo espaço de atenção dado aos exames de rotina, medicamentos e consultas periódicas.
Porque envelhecer com saúde não é apenas acrescentar anos à vida. É proteger, sempre que possível, a capacidade de continuar vivendo esses anos com autonomia.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde: Calendário Nacional de Vacinação 2026 e orientações para vacinação da pessoa idosa.
- Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina / DIVE: Boletim Epidemiológico nº 16/2026, com dados atualizados até 15 de agosto de 2026.
- Organização Mundial da Saúde (OMS): dados sobre influenza, vacinação ao longo da vida e envelhecimento do sistema imunológico.
- Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm): Calendário de Vacinação do Idoso 2026/2027.
- The Lancet Global Health / PubMed: estudo sobre efetividade da vacina contra influenza na prevenção de hospitalizações em países do Hemisfério Sul.
- New England Journal of Medicine / PubMed: estudo clínico com mais de 84 mil adultos sobre vacinação pneumocócica.
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