Carreira

Por que mulheres com carreiras bem-sucedidas estão repensando seus futuros?

Pesquisas apontam níveis preocupantes de estresse entre profissionais brasileiras. Depois dos 40 anos, mudar de emprego, empreender ou buscar uma nova profissão pode representar uma alternativa, mas exige planejamento.

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Chegar aos 40 ou 50 anos com uma carreira consolidada já não significa, necessariamente, querer permanecer no mesmo trabalho até a aposentadoria. Para muitas mulheres, essa fase desperta questionamentos sobre a rotina profissional, a sobrecarga de responsabilidades e o espaço reservado à vida pessoal.

Uma reportagem publicada pelo portal Contábeis, em setembro de 2025, trouxe um dado preocupante: 61% das brasileiras entre 40 e 55 anos teriam relatado sintomas relacionados ao Burnout, como esgotamento extremo, alterações do sono e sensação de baixa produtividade. O texto atribui o levantamento à Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), mas não apresenta informações suficientes para identificar e verificar a pesquisa original. Por isso, o percentual não pode ser tratado como uma estimativa confirmada da população brasileira.

Outras pesquisas, porém, documentam a pressão enfrentada pelas mulheres no mercado de trabalho. No levantamento Women @ Work 2025, realizado pela consultoria Deloitte com 7.500 mulheres em 15 países, incluindo 500 brasileiras, 40% das participantes do Brasil relataram aumento do estresse em relação ao ano anterior. Além disso, 34% avaliaram seu bem-estar mental como ruim.

Os resultados ajudam a compreender por que questões como saúde emocional, flexibilidade e autonomia passaram a ocupar um lugar importante nas decisões profissionais.

A sobrecarga que acompanha muitas mulheres durante a carreira

O acúmulo de responsabilidades profissionais e familiares é uma das questões centrais desse cenário.

Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres brasileiras dedicavam, em média, 21,3 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados de outras pessoas, enquanto os homens dedicavam 11,7 horas às mesmas atividades.

A diferença evidencia uma distribuição desigual do trabalho não remunerado, que pode reduzir o tempo disponível para descanso, qualificação profissional e interesses pessoais.

A pesquisa da Deloitte também identificou que essa divisão permanece desigual mesmo quando as mulheres são responsáveis pela maior parte da renda familiar. Entre as brasileiras entrevistadas que eram as principais provedoras, 51% continuavam assumindo a maior parte das tarefas domésticas.

A pressão pode ser especialmente relevante na meia-idade, período em que algumas profissionais conciliam o trabalho com o cuidado dos filhos, de pais idosos ou de outros familiares. Entretanto, essas responsabilidades não são universais e seus efeitos variam de acordo com as condições de vida de cada pessoa.

O resultado é que a insatisfação profissional pode estar relacionada tanto às características do emprego quanto à dificuldade de conciliar diferentes demandas cotidianas.

Quando o cansaço profissional pode ser Burnout?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o Burnout como um fenômeno ocupacional associado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente.

Ele envolve três dimensões principais: esgotamento de energia, distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Na Classificação Internacional de Doenças (CID-11), o burnout não é classificado como uma doença independente.

Isso significa que estar cansada, insatisfeita ou desejar uma mudança de carreira não caracteriza automaticamente a síndrome.

O Burnout está relacionado especificamente ao contexto profissional e precisa ser diferenciado de outras condições que também podem provocar cansaço, alterações de humor e dificuldades de concentração.

Quando os sintomas persistem, prejudicam o sono, afetam os relacionamentos ou comprometem atividades habituais, é importante buscar avaliação profissional.

Também é necessário considerar que mudar de emprego nem sempre resolve o problema. Se as condições de sobrecarga continuarem semelhantes, o sofrimento pode persistir mesmo em uma nova atividade.

Depois dos 40, mudar de carreira pode ser uma escolha possível

A insatisfação com o trabalho não precisa resultar obrigatoriamente em uma demissão ou em uma mudança completa de profissão.

Para algumas mulheres, a alternativa está em buscar outra empresa, negociar uma jornada mais flexível ou assumir novas funções dentro da área em que já trabalham. Outras consideram voltar a estudar, prestar serviços de forma independente ou abrir um negócio.

A pesquisa Women @ Work 2025 mostrou que 37% das brasileiras entrevistadas apontaram a falta de flexibilidade como um dos principais motivos para procurar outra oportunidade profissional.

O dado revela a importância das condições de trabalho nas decisões de permanência, embora não permita afirmar que todas essas mulheres desejam mudar de profissão.

O empreendedorismo aparece como outra possibilidade. Segundo dados divulgados pelo Sebrae, o Brasil contava com cerca de 10,3 milhões de mulheres donas de negócios em levantamento apresentado em 2023, aproximadamente um terço do total de empreendedores do país.

Abrir uma empresa, entretanto, também envolve riscos financeiros, responsabilidades administrativas e jornadas que podem ser extensas. A autonomia desejada precisa ser acompanhada de uma avaliação realista das exigências do negócio.

Há ainda obstáculos relacionados à discriminação por idade no mercado de trabalho. Profissionais experientes podem enfrentar dificuldades em processos seletivos, especialmente quando empresas associam inovação e capacidade de adaptação exclusivamente a trabalhadores mais jovens.

Por outro lado, a experiência acumulada pode ser aproveitada em atividades como consultoria, gestão, ensino, prestação de serviços e empreendedorismo.

Como planejar uma mudança profissional sem comprometer a estabilidade

Para quem considera uma transição de carreira, o planejamento ajuda a reduzir riscos e compreender se a mudança desejada realmente atende às necessidades pessoais e financeiras.

Algumas medidas podem contribuir nesse processo:

  • Identificar o motivo da insatisfação: avaliar se o problema está na profissão, no ambiente de trabalho, na remuneração ou na sobrecarga de responsabilidades.
  • Organizar a vida financeira: calcular despesas fixas, compromissos familiares e a reserva necessária para enfrentar uma possível redução temporária de renda.
  • Pesquisar o novo mercado: conhecer a demanda por profissionais, as possibilidades de remuneração e as qualificações exigidas.
  • Aproveitar a experiência anterior: identificar conhecimentos e habilidades que possam ser utilizados em outra função ou área.
  • Testar possibilidades antes da mudança definitiva: buscar cursos, projetos ou experiências que permitam conhecer melhor a nova atividade.

Para mulheres que sustentam a família ou dependem integralmente da própria renda, essa preparação pode ser decisiva.

Também vale considerar alternativas dentro do emprego atual. Uma mudança de jornada, setor ou organização pode oferecer melhores condições sem exigir o abandono de uma trajetória construída durante décadas.

Recomeçar profissionalmente não precisa significar começar do zero

A ideia de que a carreira precisa seguir uma trajetória contínua, iniciada na juventude e mantida até a aposentadoria, já não contempla todas as experiências profissionais.

Aos 40, 50 ou 60 anos, uma mulher pode ter conhecimentos técnicos, experiência em gestão, contatos profissionais e uma compreensão mais clara das condições de trabalho que deseja manter ou modificar.

Essas características não eliminam as dificuldades de uma transição, mas podem ajudar na avaliação de novas oportunidades.

É importante, porém, evitar transformar a reinvenção profissional em outra obrigação. Permanecer em uma carreira, buscar melhores condições no emprego atual ou decidir mudar de área são escolhas igualmente legítimas.

Os dados sobre estresse e sobrecarga indicam que melhorar a relação entre trabalho e vida pessoal continua sendo um desafio importante para as mulheres brasileiras.

Para quem pensa em mudar de carreira depois dos 40 anos, a decisão merece considerar tanto a saúde e a satisfação profissional quanto a segurança financeira. O caminho pode começar por ajustes na rotina atual ou por uma mudança gradual, sem exigir que toda a experiência construída até aqui seja deixada para trás.

Fontes:

  • Portal Contábeis (2025). Recomeço após os 40: burnout impulsiona mulheres a repensarem carreira e propósito.
  • Deloitte (2025). Women @ Work 2025, pesquisa global com recorte brasileiro.
  • IBGE (2024). Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil.
  • Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS). CID: burnout é um fenômeno ocupacional.
  • Sebrae. Empreendedoras celebram conquistas e desafios no Dia Nacional da Mulher Empresária.

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