Robôs que conversam, lembram compromissos, propõem jogos de memória, ajudam em exercícios e até auxiliam em atendimentos a distância já fazem parte de projetos voltados ao envelhecimento. A pergunta que acompanha esse avanço é inevitável: essas máquinas podem substituir cuidadores e profissionais que trabalham com pessoas idosas?
Pelo que mostram as pesquisas até agora, a resposta é não. Os robôs sociais podem assumir tarefas específicas e funcionar como apoio, inclusive com resultados positivos em interação e redução da solidão em determinados grupos. Ainda não há evidência suficiente, porém, para tratá-los como substitutos do cuidado humano.
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece o potencial de tecnologias assistivas, incluindo robôs, para aumentar a autonomia e permitir que pessoas idosas permaneçam por mais tempo em suas casas. Ao mesmo tempo, alerta que as evidências ainda são limitadas e que qualquer tecnologia deve respeitar necessidades, preferências, privacidade e autonomia.
O que um robô social consegue fazer hoje
Nem todo robô voltado ao cuidado se parece com uma pessoa. Existem modelos em formato de animais, dispositivos móveis com tela e máquinas humanoides com braços e sensores.
Um dos exemplos mais conhecidos é o Paro, desenvolvido no Japão no formato de uma pequena foca e criado para responder a toque, voz e interação. Há também projetos bem mais complexos, como o Garmi, desenvolvido pela Universidade Técnica de Munique, na Alemanha.
A versão atual do Garmi está sendo projetada para executar atividades como buscar objetos, auxiliar exercícios de reabilitação, ajudar uma pessoa a se levantar e facilitar consultas de telemedicina. O sistema também pode trabalhar conectado a equipamentos para medir pressão arterial, eletrocardiograma e outros parâmetros.
Os chamados robôs sociais têm outra função importante: provocar interação. Uma reportagem publicada pelo VIVA durante o Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia de 2026 mostrou experiências em instituições de longa permanência nas quais os equipamentos foram usados em jogos de memória, adivinhações e atividades de inclusão digital.
O interesse não está apenas no que a máquina faz, mas em saber se ela consegue estimular uma pessoa que, por diferentes razões, participa pouco das atividades disponíveis.
Estudos encontram benefícios, mas ainda há limites
As evidências científicas se tornaram mais consistentes nos últimos anos, principalmente em relação à solidão e ao engajamento.
Uma meta-análise publicada em 2024 no Journal of the American Medical Directors Association reuniu oito estudos randomizados realizados com moradores de instituições de longa permanência. Os pesquisadores encontraram redução de solidão e de sintomas depressivos entre participantes expostos a intervenções com robôs sociais.
Uma revisão publicada em 2025 chegou a conclusão semelhante. Ao analisar diferentes agentes artificiais, os autores encontraram associação com redução da solidão, com resultados mais favoráveis para robôs sociais do que para ferramentas baseadas apenas em aplicativos ou páginas da internet. A mesma análise, porém, não encontrou melhora significativa em indicadores como qualidade de vida e felicidade.
Outro estudo randomizado realizado no Japão acompanhou 68 pessoas idosas que viviam na comunidade, com idade média superior a 82 anos. O grupo que utilizou um robô social apresentou redução maior da solidão e melhora em uma medida de bem-estar psicológico em comparação com o grupo de controle.
Os resultados não significam que qualquer robô produzirá o mesmo efeito. Uma revisão sistemática publicada em 2025 apontou que os benefícios dependem de fatores como o tipo de equipamento, a função cognitiva do usuário, a frequência das atividades e a presença de profissionais durante a intervenção. Os próprios autores afirmam que ainda são necessários estudos mais rigorosos antes de uma adoção em larga escala.
O profissional pode mudar de função antes de desaparecer
A discussão também envolve mercado de trabalho. Se uma máquina consegue lembrar medicamentos, conduzir uma atividade ou buscar um copo de água, parte das tarefas realizadas atualmente por pessoas pode ser automatizada.
Isso não significa que a profissão de cuidador esteja próxima do fim.
A OCDE já analisou o impacto da automação sobre trabalhadores de cuidados de longa duração e concluiu que o risco de substituição integral é relativamente baixo quando comparado a setores como indústria, transporte e construção. O relatório aponta espaço principalmente para o uso da tecnologia como forma de aumentar produtividade e apoiar trabalhadores.
Há uma razão prática para isso. O cuidado envolve observar mudanças de comportamento, perceber desconforto, adaptar uma rotina, lidar com situações inesperadas, auxiliar na higiene, oferecer segurança física e conversar com familiares e equipes de saúde.
Além disso, a OMS considera uma força de trabalho qualificada um dos pilares dos sistemas de cuidados de longa duração. A tecnologia aparece dentro dessa estrutura, e não como substituta de todos os profissionais.
O que observar antes de colocar um robô dentro de casa
Para famílias interessadas nessas tecnologias, a pergunta mais útil talvez seja o que o equipamento realmente resolve.
Vale verificar se o robô executa uma necessidade concreta, como oferecer lembretes, facilitar chamadas com familiares, estimular exercícios ou aumentar a segurança. Também é importante saber quais dados ele coleta, onde essas informações ficam armazenadas e quem terá acesso a elas.
Outro ponto é a aceitação da própria pessoa idosa. Um equipamento pode ser interessante para alguém e invasivo ou cansativo para outra pessoa. A OMS recomenda que tecnologias assistivas sejam adotadas de acordo com preferências e necessidades individuais, justamente porque autonomia também inclui o direito de não querer usar determinado recurso.
Também é preciso desconfiar de promessas de que uma máquina poderá resolver sozinha problemas como solidão, depressão ou necessidade de cuidados contínuos. Robôs podem participar de estratégias de cuidado, mas não devem ser tratados como tratamento médico ou substituto automático de vínculos sociais.
O futuro parece mais próximo da parceria
A tendência mais provável, pelo menos com a tecnologia disponível hoje, é que profissionais, familiares e máquinas passem a dividir algumas tarefas.
Um robô pode repetir exercícios quantas vezes forem necessárias, lembrar horários, facilitar uma consulta remota ou estimular uma atividade. Um profissional continua necessário para avaliar condições, interpretar mudanças, tomar decisões e adaptar o cuidado àquela pessoa.
Com o envelhecimento da população e o aumento da demanda por cuidados de longa duração, essa combinação pode ganhar espaço rapidamente. A OMS já aponta que os países precisarão de sistemas mais estruturados e de uma força de trabalho maior e melhor preparada para atender populações mais velhas.
Os robôs sociais, portanto, provavelmente estarão cada vez mais presentes no cuidado. O desafio será definir quais tarefas podem ser delegadas à tecnologia sem transformar eficiência em perda de contato humano.
Fontes:
- Organização Mundial da Saúde, World Report on Ageing and Health e materiais sobre cuidados de longa duração.
- OECD, Who Cares? Attracting and Retaining Care Workers for the Elderly.
- Technical University of Munich, projeto Garmi e Geriatronics Research Center.
- Journal of the American Medical Directors Association, meta-análise sobre robôs sociais, solidão e depressão, 2024.
- PubMed, revisões e estudos sobre robôs sociais e pessoas idosas, 2025.
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