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Aprender uma nova língua pode atrasar o Alzheimer em até 5 anos

Mais que comunicação, nova língua fortalece o cérebro e protege contra o declínio.

Aprender uma nova língua pode atrasar o Alzheimer em até 5 anos
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Aprender uma nova língua pode ajudar o cérebro a envelhecer melhor

Estudos relacionam o bilinguismo à reserva cognitiva, mas ainda não provam que começar um idioma na maturidade adie o Alzheimer em cinco anos

Aprender a pedir uma refeição em italiano, acompanhar uma conversa em espanhol ou finalmente compreender aquela música em inglês exige muito mais do que memorizar palavras.

O cérebro precisa reconhecer sons, atribuir significados, recuperar informações armazenadas, organizar frases, controlar a atenção e escolher entre dois sistemas linguísticos. Quando uma pessoa bilíngue deseja falar em um idioma, o outro não desaparece completamente. O cérebro precisa administrar essa possível interferência para selecionar as palavras adequadas.

Essa combinação transforma o aprendizado de línguas em uma atividade mental complexa e estimulante.

Nos últimos anos, pesquisas associaram o bilinguismo a melhor desempenho em determinadas habilidades cognitivas e ao aparecimento mais tardio de sintomas de demência. Alguns estudos observaram diferenças próximas de quatro ou cinco anos entre pessoas bilíngues e monolíngues.

A descoberta despertou uma conclusão sedutora: aprender uma nova língua poderia atrasar o Alzheimer em até cinco anos.

A ciência, porém, exige uma interpretação mais cuidadosa.

Os estudos que encontraram essa diferença analisaram principalmente pessoas que utilizaram dois idiomas durante boa parte da vida. Eles não demonstraram que alguém que começa a estudar uma língua mais tarde obterá exatamente o mesmo resultado.

Aprender um idioma continua sendo uma excelente atividade para o cérebro, para a vida social e para a autonomia. O que ainda não se pode afirmar é que esse hábito, isoladamente, previne a doença de Alzheimer ou adia seus sintomas por um período determinado.

De onde surgiu a história dos cinco anos?

Uma das primeiras pesquisas que chamou atenção para essa possibilidade foi publicada em 2007.

O estudo analisou prontuários de 184 pacientes diagnosticados com demência em uma clínica de memória no Canadá. Os pesquisadores observaram que os pacientes bilíngues haviam apresentado os primeiros sintomas aproximadamente quatro anos depois dos monolíngues. Tratava-se de uma pesquisa retrospectiva, construída a partir de informações clínicas já registradas.

Outro estudo, publicado em 2010 com 211 pacientes diagnosticados com provável Alzheimer, encontrou uma diferença de 5,1 anos no relato do início dos sintomas e de 4,3 anos na idade do diagnóstico. Os participantes bilíngues haviam convivido regularmente com duas línguas durante grande parte da vida.

Em 2013, uma pesquisa realizada na Índia analisou pacientes com diferentes tipos de demência. Os bilíngues desenvolveram sintomas, em média, 4,5 anos mais tarde que os monolíngues. A associação permaneceu depois que os pesquisadores consideraram fatores como escolaridade, sexo, profissão e local de residência.

Esses trabalhos deram origem à afirmação de que o bilinguismo poderia atrasar a demência em até cinco anos.

Mas há uma diferença importante entre encontrar uma associação e comprovar que um fator causou determinado resultado.

Pessoas bilíngues podem ter histórias de vida, oportunidades educacionais, hábitos culturais, profissões, redes sociais e experiências migratórias diferentes das pessoas monolíngues. Mesmo quando os estudos tentam ajustar esses fatores, nem todas as diferenças podem ser eliminadas.

Também existe o risco de causalidade reversa. Pessoas com melhor funcionamento cognitivo podem ter maior facilidade, interesse ou oportunidade para aprender e utilizar outro idioma. Nesse cenário, o bilinguismo poderia ser parcialmente uma consequência de determinadas características, e não necessariamente a causa isolada da proteção observada.

Bilinguismo não significa imunidade contra demência

Uma revisão sistemática com meta-análises publicada em 2020 concluiu que o bilinguismo estava associado ao aparecimento e ao diagnóstico mais tardios de demência. No entanto, não encontrou evidências consistentes de que falar duas línguas reduzisse o risco de desenvolver a doença.

Em outras palavras, pessoas bilíngues podem conseguir manter o funcionamento cotidiano por mais tempo diante de alterações cerebrais, mas isso não significa que o processo neurodegenerativo tenha sido impedido.

Outras revisões também identificaram uma diferença entre os resultados de pesquisas retrospectivas e prospectivas.

Estudos retrospectivos, que analisam pacientes depois do diagnóstico e reconstroem sua história, frequentemente encontram atraso de quatro a cinco anos. Já pesquisas prospectivas, que acompanham pessoas inicialmente saudáveis ao longo do tempo, apresentam resultados mais variados e muitas vezes não confirmam a mesma proteção.

A interpretação mais equilibrada é que o bilinguismo pode contribuir para a maneira como o cérebro enfrenta o envelhecimento e determinadas alterações. Entretanto, a intensidade do efeito e sua capacidade de realmente atrasar uma doença continuam em investigação.

O que é reserva cognitiva?

Para compreender por que duas pessoas podem apresentar sintomas em momentos diferentes, mesmo possuindo alterações cerebrais semelhantes, é necessário conhecer o conceito de reserva cognitiva.

A reserva cognitiva representa a capacidade do cérebro de utilizar estratégias, conexões e redes alternativas para continuar realizando suas funções diante do envelhecimento ou de algum dano.

Imagine duas cidades afetadas pelo bloqueio de uma avenida importante.

Na primeira, existem poucas rotas alternativas. O trânsito rapidamente para.

Na segunda, há diferentes ruas, túneis e acessos capazes de redistribuir o fluxo. O bloqueio continua existindo, mas seus efeitos demoram mais para comprometer o funcionamento da cidade.

Algo semelhante pode acontecer no cérebro.

Pessoas com maior reserva cognitiva podem tolerar determinado nível de alteração antes que dificuldades de memória, atenção ou raciocínio se tornem evidentes. Educação, atividades profissionais complexas, convivência social, leitura, aprendizado contínuo e outras experiências intelectualmente estimulantes podem contribuir para essa reserva.

O uso frequente de dois idiomas é investigado como um desses possíveis componentes.

Isso não significa que o bilinguismo impeça a formação das alterações relacionadas ao Alzheimer. A hipótese é que ele ajude o cérebro a compensá-las por mais tempo.

Por que falar duas línguas pode ser um exercício mental?

Quando alguém conhece dois idiomas, ambos podem permanecer parcialmente ativos durante uma conversa.

Ao ouvir a palavra “casa”, por exemplo, uma pessoa que fala português e espanhol também possui acesso ao termo “casa” em espanhol, embora a pronúncia e determinadas associações possam ser diferentes. Em outras situações, as palavras competem entre si e o cérebro precisa selecionar uma enquanto inibe a outra.

Esse processo envolve sistemas relacionados à atenção, ao controle cognitivo e à seleção de respostas.

Também são exigidas outras habilidades:

Memória de trabalho para manter palavras e estruturas durante a construção de uma frase.

Memória de longo prazo para recuperar vocabulário e regras.

Atenção seletiva para acompanhar o idioma utilizado naquele momento.

Flexibilidade cognitiva para mudar de uma língua para outra.

Percepção auditiva para distinguir sons desconhecidos.

Planejamento para organizar a comunicação antes de falar.

A repetição dessas tarefas pode funcionar como uma forma de treinamento mental. Porém, a existência de uma vantagem cognitiva bilíngue universal continua sendo debatida.

Uma meta-análise sobre funções executivas em adultos encontrou vantagens muito pequenas antes da correção para viés de publicação. Depois dos ajustes, parte dos efeitos deixou de ser consistente. Os resultados também variaram conforme a tarefa, a idade dos participantes e a maneira como o bilinguismo foi medido.

Portanto, falar duas línguas não torna automaticamente uma pessoa mais inteligente, mais concentrada ou melhor em realizar várias tarefas ao mesmo tempo.

Os efeitos parecem depender de fatores como frequência de uso, nível de domínio, idade de aquisição, contexto social e necessidade real de alternar entre os idiomas.

Um estudo com 746 participantes encontrou melhores resultados

Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Neurobiology of Aging avaliou 746 pessoas entre 59 e 76 anos.

Os participantes informaram se utilizavam diariamente uma segunda língua em diferentes períodos da vida: entre 13 e 30 anos, entre 30 e 65 anos e depois dos 65.

Quem relatou uso diário de uma segunda língua durante a juventude ou a fase intermediária da vida apresentou melhores resultados em determinados testes de aprendizagem, memória de trabalho, funções executivas e linguagem.

O estudo acrescenta evidências de que o uso frequente de dois idiomas pode estar associado a melhor desempenho cognitivo mais tarde.

Ainda assim, ele foi observacional. Os pesquisadores não ensinaram um novo idioma a um grupo e acompanharam o desenvolvimento de demência durante décadas.

Também não é possível excluir totalmente a influência de escolaridade, profissão, condições sociais, hábitos de saúde e experiências acumuladas durante a vida.

A pesquisa sustenta uma associação, mas não prova que aprender uma língua tenha sido a causa direta das diferenças encontradas.

Aprender depois de adulto também pode trazer benefícios

Uma das dúvidas mais comuns é se os possíveis efeitos estariam restritos a quem aprendeu outra língua durante a infância.

Uma pesquisa da Universidade de Edimburgo analisou 853 pessoas nascidas em 1936. Elas haviam realizado testes de inteligência aos 11 anos e foram avaliadas novamente quando estavam na faixa dos 70.

Os participantes que aprenderam uma segunda língua apresentaram resultados cognitivos melhores do que seria previsto a partir de suas pontuações na infância. Os efeitos foram mais claros em inteligência geral, leitura e habilidades verbais.

O resultado também apareceu entre participantes que aprenderam outro idioma depois de adultos.

Esse desenho foi importante porque permitiu considerar o desempenho cognitivo anterior ao bilinguismo. Mesmo assim, não foi um ensaio clínico e não avaliou diretamente se o aprendizado tardio preveniu ou adiou Alzheimer.

O estudo mostra que adquirir outra língua durante a vida adulta pode estar relacionado a benefícios cognitivos posteriores. Ele não permite calcular quantos anos de proteção essa experiência ofereceria.

Um aplicativo pode realmente exercitar o cérebro?

Uma pesquisa conduzida por cientistas do Baycrest Health Sciences e da Universidade York avaliou se começar uma nova língua mais tarde poderia produzir benefícios mensuráveis.

O estudo reuniu 76 adultos entre 65 e 75 anos. Durante 16 semanas, um grupo estudou espanhol pelo Duolingo durante 30 minutos por dia, cinco dias por semana. Outro realizou treinamento cerebral em um aplicativo e o terceiro permaneceu em uma lista de espera.

Ao final, o grupo de idiomas apresentou melhora em memória de trabalho e função executiva semelhante à observada no grupo de treinamento cognitivo.

Esse resultado é animador porque veio de um estudo com distribuição aleatória dos participantes.

Mas suas limitações precisam ser consideradas.

A amostra era pequena, a intervenção durou quatro meses e os participantes aprenderam apenas noções iniciais de espanhol. A pesquisa avaliou desempenho em tarefas cognitivas, não o risco de Alzheimer nem o desenvolvimento de demência ao longo dos anos.

Assim, é correto dizer que estudar um idioma por aplicativo pode exercitar determinadas habilidades cognitivas.

Não é correto concluir que o aplicativo previne Alzheimer.

O cérebro adulto ainda consegue mudar?

A capacidade de adaptação do cérebro não desaparece ao final da juventude.

Estudos de neuroimagem mostram que a aprendizagem de um segundo idioma pode estar associada a modificações na estrutura e na conectividade cerebral de adultos. Uma pesquisa acompanhou pessoas durante nove meses de estudo intensivo e observou reorganização progressiva da substância branca, responsável por conectar diferentes regiões do cérebro.

Essas mudanças são exemplos de neuroplasticidade: a capacidade do sistema nervoso de modificar suas conexões de acordo com experiências e treinamento.

Isso não significa que aprender aos 60 será igual a aprender aos seis anos.

Crianças geralmente apresentam maior facilidade para adquirir pronúncia e domínio gramatical semelhante ao de falantes nativos. Um estudo divulgado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts indicou que a habilidade para aprender gramática permanece elevada até o final da adolescência, mas a probabilidade de atingir proficiência semelhante à nativa diminui quando o aprendizado começa mais tarde.

A pesquisa não mostrou que a capacidade de aprender permanece idêntica em todas as idades.

Adultos podem aprender, conversar, ler e desenvolver bom domínio de outra língua. Porém, podem precisar de mais repetição, estratégias conscientes, contato frequente e objetivos adaptados à própria rotina.

A meta não precisa ser falar como um nativo para que a experiência tenha valor.

O que realmente importa: conhecer palavras ou utilizar o idioma?

Memorizar listas de palavras durante alguns minutos pode ser útil, mas dificilmente reproduz toda a complexidade do bilinguismo ativo.

Grande parte das pesquisas que encontrou associações positivas analisou pessoas que utilizavam regularmente os dois idiomas em situações reais.

Conversar, compreender perguntas, procurar palavras, corrigir frases e alternar entre idiomas aumenta a variedade das demandas cognitivas.

Por isso, um aprendizado mais completo tende a combinar:

Estudo de vocabulário e gramática.

Escuta de diálogos, músicas ou programas.

Leitura de textos compatíveis com o nível do estudante.

Produção de frases próprias.

Conversação com professores, colegas ou falantes do idioma.

Revisão espaçada do conteúdo.

Contato regular ao longo da semana.

O aplicativo pode ser uma porta de entrada. Contudo, o aprendizado se torna mais rico quando a língua deixa de ser apenas um exercício na tela e passa a ser utilizada para compreender, comunicar e criar vínculos.

A vantagem social também importa

Aprender outra língua não estimula apenas memória e atenção.

Um curso pode ampliar o convívio, criar novos compromissos, aproximar pessoas com interesses semelhantes e facilitar o acesso a livros, filmes, músicas, viagens e culturas diferentes.

A interação social possui relevância própria para a saúde cerebral. A Comissão da revista The Lancet sobre prevenção de demência inclui o isolamento social entre os fatores modificáveis associados ao risco de demência. A atualização de 2024 estimou que enfrentar 14 fatores modificáveis ao longo da vida poderia prevenir ou adiar uma parcela expressiva dos casos na população.

As diretrizes da Organização Mundial da Saúde publicadas em 2026 também recomendam atividades de estimulação cognitiva e participação social dentro de uma estratégia mais ampla de redução de risco.

Nesse sentido, estudar uma língua em grupo pode reunir diferentes componentes positivos: desafio intelectual, rotina, interação e sensação de progresso.

Um idioma não substitui os outros cuidados com o cérebro

A doença de Alzheimer não possui uma causa única.

Seu desenvolvimento envolve idade, genética, saúde vascular, condições metabólicas, educação, ambiente e diferentes experiências acumuladas ao longo da vida.

Por isso, nenhuma atividade isolada deve ser apresentada como garantia de prevenção.

Aprender línguas pode fazer parte de uma rotina favorável à saúde cerebral, mas não substitui:

Atividade física regular.

Controle da pressão arterial, do diabetes e do colesterol.

Tratamento de perdas auditivas e visuais.

Sono adequado.

Alimentação equilibrada.

Abandono do tabagismo.

Moderação no consumo de álcool.

Convívio social.

Avaliação e tratamento da depressão.

Acompanhamento médico diante de alterações de memória ou comportamento.

A melhor estratégia não parece estar em encontrar um exercício cerebral milagroso, mas em combinar cuidados físicos, cognitivos e sociais durante toda a vida.

Como começar sem transformar o estudo em obrigação?

Aprender uma língua exige continuidade, mas não precisa se transformar em uma rotina cansativa.

Sessões curtas e frequentes tendem a ser mais fáceis de manter do que longos períodos realizados apenas esporadicamente. Quinze ou vinte minutos por dia podem criar mais contato com o idioma do que uma aula extensa seguida por vários dias sem prática.

Escolher uma língua ligada a um interesse real também ajuda.

Pode ser o idioma de um país que a pessoa deseja visitar, das músicas que gosta, de familiares que vivem no exterior ou de autores que gostaria de ler.

O objetivo inicial deve ser concreto e possível:

Apresentar-se.

Pedir informações.

Compreender uma música.

Ler uma notícia curta.

Assistir a uma cena com menos apoio da legenda.

Conversar durante cinco minutos.

Pequenas conquistas mantêm a motivação e permitem perceber o progresso.

Também é útil aceitar erros como parte do processo. A tentativa de produzir frases perfeitas pode reduzir a disposição para conversar. Para o cérebro, o esforço de procurar uma palavra, testar uma estrutura e corrigir uma frase faz parte da aprendizagem.

Cursos voltados a pessoas mais velhas são obrigatórios?

Não.

Um curso adaptado pode oferecer ritmo mais confortável, material relevante e atenção a possíveis dificuldades auditivas, visuais ou tecnológicas. Isso pode melhorar a experiência, mas não significa que todas as pessoas precisem estudar apenas com colegas da mesma faixa etária.

Turmas intergeracionais também podem ser estimulantes.

O mais importante é que o ambiente permita participação, repetição, interação e segurança para errar.

Quando existem alterações auditivas, utilizar aparelhos adequados e escolher um ambiente com pouco ruído pode facilitar bastante o aprendizado. Dificuldades para ouvir determinados sons podem ser confundidas com problemas de memória ou incapacidade de aprender.

Esquecer palavras durante o estudo é normal?

Sim.

Aprender envolve esquecer e recuperar informações repetidamente. O fato de uma palavra não surgir imediatamente não significa que o cérebro tenha perdido a capacidade de aprender.

A recuperação tende a melhorar com revisões distribuídas ao longo do tempo e uso em contextos diferentes.

Também é comum que pessoas bilíngues demorem um pouco mais para encontrar determinada palavra, inclusive no idioma materno. Isso pode acontecer porque possuem mais possibilidades linguísticas competindo durante a seleção.

Entretanto, alterações novas e progressivas merecem atenção.

Dificuldade frequente para acompanhar conversas, perder-se em lugares conhecidos, repetir perguntas, não conseguir organizar tarefas habituais ou apresentar mudanças importantes de comportamento não deve ser atribuída apenas à idade ou ao estudo de outro idioma.

Nessas situações, é importante procurar avaliação médica.

Então vale a pena aprender outra língua?

Sim, desde que a expectativa seja realista.

Aprender um idioma oferece acesso a novas pessoas, culturas, viagens, histórias e formas de compreender o mundo. Também exige memória, atenção, flexibilidade e prática contínua.

Há evidências de que o bilinguismo pode contribuir para a reserva cognitiva e estar associado à manifestação mais tardia dos sintomas de demência. Existem ainda estudos mostrando que o aprendizado iniciado mais tarde pode melhorar determinadas habilidades cognitivas.

Mas a ciência não permite prometer que uma pessoa que começar hoje evitará o Alzheimer ou adiará a doença por cinco anos.

Os números de quatro a cinco anos vieram de comparações entre grupos que possuíam experiências linguísticas e histórias de vida diferentes, muitas vezes acumuladas durante décadas.

Isso não diminui o valor do aprendizado.

A atividade continua sendo segura, acessível e capaz de estimular o cérebro, ampliar relações e devolver à rotina algo que também importa para a longevidade: a curiosidade.

Fechamento

Uma nova língua não funciona como uma vacina contra o Alzheimer.

Ela não apaga fatores genéticos, não interrompe sozinha processos neurodegenerativos e não substitui os cuidados com a saúde cardiovascular, o sono, a audição, a visão e a atividade física.

O que ela oferece é um desafio rico e contínuo.

A cada palavra aprendida, o cérebro precisa criar associações. A cada conversa, precisa ouvir, selecionar, interpretar e responder. A cada erro corrigido, reorganiza o caminho utilizado para chegar à resposta.

Talvez o benefício mais concreto não esteja em contar quantos anos uma língua poderia acrescentar antes do aparecimento de uma doença.

Está em utilizar o tempo presente com mais participação, aprendizado e conexão.

Nunca é tarde demais para pronunciar a primeira palavra. Só não é preciso transformá-la em uma promessa que a ciência ainda não conseguiu fazer.

Fontes consultadas

Bialystok, E.; Craik, F. I. M.; Freedman, M. “Bilingualism as a protection against the onset of symptoms of dementia”. Neuropsychologia, 2007.

Craik, F. I. M.; Bialystok, E.; Freedman, M. “Delaying the onset of Alzheimer disease: bilingualism as a form of cognitive reserve”. Neurology, 2010.

Alladi, S. et al. “Bilingualism delays age at onset of dementia, independent of education and immigration status”. Neurology, 2013.

Bak, T. H. et al. “Does bilingualism influence cognitive aging?”. Annals of Neurology, 2014.

Brini, S. et al. “Bilingualism is associated with a delayed onset of dementia but not with a lower risk of developing it”. Neuropsychology Review, 2020.

Rauchmann, B. S. et al. “Linking early-life bilingualism and cognitive advantage in older adulthood”. Neurobiology of Aging, 2023.

Meltzer, J. A. et al. “Improvement in executive function for older adults through smartphone apps: a randomized clinical trial comparing language learning and brain training”. Aging, Neuropsychology, and Cognition, 2023.

Livingston, G. et al. “Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission”. The Lancet, 2024.

Organização Mundial da Saúde. “Risk reduction of cognitive decline and dementia: WHO guidelines”. Segunda edição, 2026.

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