Uma nova geração de exoesqueletos está começando a mudar a imagem daqueles equipamentos grandes e pesados usados principalmente em hospitais e centros de reabilitação. Pesquisadores trabalham agora com dispositivos menores, alguns parecidos com cintos, shorts ou estruturas vestidas sobre a roupa, capazes de fornecer uma pequena ajuda mecânica durante a caminhada.
A ideia não é fazer a pessoa caminhar sem esforço. Sensores identificam o movimento das pernas e o equipamento acrescenta força em momentos específicos do passo, reduzindo parte da energia necessária para avançar.
Uma reportagem publicada pela revista Nature em agosto de 2026 destacou justamente essa mudança. Exoesqueletos que antes eram pensados principalmente para pessoas com lesões neurológicas estão dando origem a modelos mais leves voltados à assistência durante atividades cotidianas, inclusive para pessoas mais velhas que ainda caminham de forma independente. Alguns equipamentos para caminhada e atividades ao ar livre já começaram a chegar ao mercado consumidor.
Um equipamento que ajuda, sem fazer o movimento pela pessoa
Os modelos mais recentes são bem diferentes dos exoesqueletos rígidos que envolvem grande parte das pernas. Os chamados exotrajes macios utilizam tecidos, cabos, pequenos motores e sensores presos ao corpo.
Um exemplo é o WalkON, desenvolvido por pesquisadores na Alemanha. O sistema pesa pouco menos de 3 quilos e se parece com um short robótico usado sobre a roupa. Sensores acompanham o movimento das pernas e motores tracionam cabos semelhantes a tendões artificiais para auxiliar o movimento do quadril.
Em um estudo publicado em 2024 na revista Nature Machine Intelligence, dez participantes mais velhos testaram o equipamento enquanto caminhavam ao ar livre em uma pista plana de 400 metros. Com a assistência ligada, o custo metabólico da caminhada, uma medida de quanta energia o organismo gasta para se deslocar, caiu cerca de 10%.
Na prática, significa que percorrer determinada distância exigiu menos energia do corpo. Isso pode ser relevante para quem ainda consegue caminhar sozinho, mas sente que trajetos mais longos estão se tornando cansativos.
Tecnologia também está sendo testada para levantar da cadeira
Outro estudo, publicado em julho de 2026 na Nature Communications, avançou um passo nessa direção. Pesquisadores testaram um exotraje macio capaz de auxiliar tanto a caminhada quanto o movimento de sentar e levantar.
Participaram dez pessoas entre 69 e 85 anos, com média de idade de quase 78 anos e algum grau de redução no desempenho dos membros inferiores.
Com a assistência ativada, o gasto energético durante a caminhada caiu 13,6% em comparação com a condição sem ajuda. No teste de levantar e sentar durante um minuto, os participantes realizaram, em média, 1,8 repetição a mais. Os pesquisadores também avaliaram o padrão de movimento e não observaram alterações importantes na estabilidade ou na forma natural de se movimentar.
Os resultados chamam atenção porque levantar de uma cadeira e caminhar estão entre as tarefas mais importantes para manter independência no cotidiano. Ainda assim, o próprio estudo é apresentado como uma investigação de viabilidade. Dez participantes são insuficientes para determinar como o equipamento funcionaria em diferentes condições de saúde ou durante meses e anos de uso.
O que os estudos já mostram e o que ainda falta descobrir
Uma revisão científica publicada em 2024 analisou 36 estudos com exoesqueletos para membros inferiores envolvendo pessoas com 65 anos ou mais. Os trabalhos incluíam participantes com diferentes condições de saúde e utilizaram equipamentos bastante variados.
No conjunto, foram observadas melhoras em indicadores relacionados à caminhada, equilíbrio, força muscular, mobilidade articular e esforço necessário para se deslocar. A revisão também encontrou experiências em que os exoesqueletos foram utilizados como parte do treinamento físico e da reabilitação, e não apenas como assistência permanente durante a caminhada.
Isso ajuda a explicar por que ainda é difícil responder simplesmente se um exoesqueleto "funciona para idosos". Existem aparelhos que auxiliam quadril, joelho ou tornozelo, modelos rígidos e versões flexíveis, dispositivos destinados à reabilitação e outros desenvolvidos para pessoas que continuam caminhando sem ajuda.
Também faltam estudos maiores e de longa duração. Uma das questões ainda abertas é o que acontece quando a assistência passa a fazer parte da rotina por meses ou anos. Pesquisadores investigam, por exemplo, se o usuário poderia se tornar excessivamente dependente da ajuda mecânica ou se, ao contrário, caminhar com menos esforço permitiria aumentar a quantidade de atividade física realizada no dia. Até agora, não há evidência suficiente para responder essa questão de forma definitiva.
O que observar antes de pensar em usar um exoesqueleto
Para uma pessoa mais velha com dificuldade para caminhar, a existência desses dispositivos não significa que qualquer modelo disponível seja indicado. Antes de considerar o uso, alguns pontos são importantes:
- qual é a causa da dificuldade para caminhar e se ela já foi avaliada por um profissional de saúde;
- se o equipamento foi desenvolvido para reabilitação, assistência cotidiana ou atividade recreativa;
- quais grupos de pessoas participaram dos estudos daquele dispositivo;
- peso, conforto, facilidade para vestir, autonomia da bateria e necessidade de acompanhamento;
- se há evidências de segurança e benefício para a condição específica do usuário.
Exoesqueletos também não substituem automaticamente medidas já utilizadas para preservar mobilidade, como atividade física adequada, fortalecimento muscular, fisioterapia quando indicada e tratamento das condições que interferem na marcha.
Uma tecnologia que começa a sair do laboratório
O interesse por soluções de mobilidade tende a crescer junto com o envelhecimento da população. A Organização Mundial da Saúde estima que o número de pessoas com 60 anos ou mais chegará a cerca de 2,1 bilhões em 2050.
Os exoesqueletos leves representam uma das tecnologias que tentam responder a esse cenário. Os resultados atuais mostram que é possível reduzir o esforço necessário para caminhar e facilitar determinados movimentos sem transformar o usuário em um passageiro do equipamento.
O próximo desafio é demonstrar que esses benefícios permanecem fora dos pequenos estudos experimentais, por períodos mais longos e em pessoas com diferentes níveis de mobilidade. É essa resposta que determinará se os exoesqueletos serão apenas uma ferramenta especializada ou se realmente poderão se tornar parte da rotina de quem deseja continuar caminhando com autonomia por mais tempo.
Fontes:
- Nature, “Will you be wearing an exoskeleton in ten years? The tech that could change how we move”, publicada em 18 de agosto de 2026.
- Nature Communications, “Enhancing sit-to-stand transitions and walking efficiency in older adults with a soft robotic suit”, 2026.
- Nature Machine Intelligence, “Soft robotic shorts improve outdoor walking efficiency in older adults”, 2024.
- PubMed / Sensors, revisão “A State-of-the-Art of Exoskeletons in Line with the WHO's Vision on Healthy Aging”, 2024.
- Organização Mundial da Saúde, “Ageing and health”.
- Exame, “Você usaria um exoesqueleto? Como a tecnologia está entrando em uma nova fase”, 31 de agosto de 2026.
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