Tecnologia

De depender de ajuda a resolver sozinho: como a tecnologia está mudando a velhice

Aplicativos de saúde, videochamadas, lembretes, serviços públicos digitais e dispositivos de segurança já fazem parte da rotina de uma parcela crescente da população idosa. O benefício, porém, depende de acesso, orientação e uso seguro.

De depender de ajuda a resolver sozinho: como a tecnologia está mudando a velhice
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A presença dos brasileiros mais velhos no ambiente digital cresceu rapidamente nos últimos anos. Em 2025, 74,5% das pessoas com 60 anos ou mais haviam utilizado a internet nos três meses anteriores à pesquisa do IBGE. Em 2019, essa proporção era de 44,8%. Apesar do avanço, os idosos continuam sendo o grupo etário com menor percentual de usuários da internet no país.

Essa expansão ajuda a explicar por que celular, aplicativos e outros dispositivos passaram a ocupar um espaço maior na rotina depois dos 60. Eles permitem conversar com familiares, acessar serviços de saúde, organizar compromissos, realizar operações bancárias, pedir transporte e até acompanhar determinados indicadores de saúde.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que tecnologias digitais, como telemedicina, aplicativos, dispositivos vestíveis e sistemas de monitoramento remoto, podem contribuir para o acesso aos cuidados de saúde e para a manutenção da independência na velhice. Ao mesmo tempo, a própria OMS alerta que acessibilidade, conhecimento digital, privacidade e condições financeiras precisam ser considerados.

A tecnologia pode facilitar tarefas que antes dependiam de outras pessoas

Parte dos ganhos aparece nas atividades mais simples do dia.

Alarmes no celular podem lembrar horários de medicamentos e consultas. Calendários compartilhados ajudam familiares a acompanhar compromissos quando essa organização é desejada pela própria pessoa idosa. Aplicativos de transporte facilitam deslocamentos e chamadas de vídeo permitem manter contato com familiares e amigos que vivem longe.

A tecnologia também passou a mediar a relação com serviços públicos. No Meu SUS Digital, por exemplo, é possível consultar informações disponíveis no sistema sobre vacinação, resultados de exames, medicamentos, documentos de saúde e outros registros. A plataforma pode ser acessada pelo aplicativo ou pela internet utilizando a conta Gov.br.

Esses recursos podem reduzir etapas e deslocamentos, principalmente para quem apresenta alguma limitação de mobilidade ou mora distante dos serviços. Isso não significa que todo atendimento presencial possa ser substituído. A utilidade depende da necessidade de cada pessoa e do serviço que está sendo procurado.

Relógios, sensores e monitoramento ampliam as possibilidades de cuidado

Relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis também ganharam espaço. Dependendo do equipamento, eles podem registrar frequência cardíaca, atividade física e sono, além de contar passos ou emitir alertas relacionados a quedas.

Sistemas de monitoramento residencial podem incluir sensores de movimento, iluminação automatizada, câmeras, campainhas conectadas e alertas enviados a familiares ou cuidadores.

A OMS considera o monitoramento remoto e os dispositivos vestíveis ferramentas com potencial para apoiar o envelhecimento saudável, especialmente quando integrados ao acompanhamento profissional.

É importante, porém, compreender a função desses equipamentos. Um relógio inteligente não substitui avaliação médica, e uma alteração identificada pelo aparelho não representa automaticamente um diagnóstico. Da mesma forma, um sensor de queda pode ajudar a identificar uma ocorrência ou acelerar um pedido de ajuda, mas não elimina o risco de quedas.

Estar conectado também pode aproximar pessoas

Para quem tem filhos, netos ou amigos morando em outra cidade, a tecnologia criou maneiras simples de manter a convivência. Videochamadas, mensagens e grupos familiares permitem participar de aniversários, acompanhar acontecimentos cotidianos e manter conversas com maior frequência.

A OMS considera a conexão social um componente importante da saúde e reconhece que ferramentas digitais podem facilitar o contato de pessoas com oportunidades limitadas de convivência presencial.

As evidências, entretanto, pedem cautela. Revisões analisadas pela própria organização encontraram resultados variados sobre a capacidade das intervenções digitais de reduzir solidão e isolamento social. Por isso, o celular deve ser entendido como uma forma de facilitar vínculos, e não como substituto automático da convivência presencial.

Como começar sem transformar a tecnologia em complicação

A adaptação costuma funcionar melhor quando parte de necessidades reais da rotina. Não é preciso aprender dezenas de aplicativos ao mesmo tempo.

Algumas medidas podem facilitar esse processo:

  • começar por funções úteis, como mensagens, chamadas, agenda, transporte ou acesso a serviços de saúde;
  • aumentar o tamanho das letras e ajustar brilho, volume e recursos de acessibilidade do aparelho;
  • aprender uma função de cada vez e repetir o uso até que ela se torne familiar;
  • manter senhas protegidas e desconfiar de mensagens que criem urgência para transferir dinheiro ou fornecer dados;
  • pedir ajuda quando surgir dúvida, sem entregar senhas bancárias ou códigos de segurança a terceiros.

O cuidado com golpes merece atenção especial. O Banco Central recomenda desconfiar de situações que pressionem por decisões rápidas e sempre conferir os dados do beneficiário antes de confirmar uma transferência. Em caso de fraude envolvendo Pix, a orientação é entrar em contato com o banco imediatamente e solicitar a contestação pelo Mecanismo Especial de Devolução, quando aplicável.

Inclusão digital também significa preservar escolhas

Ensinar uma pessoa idosa a usar tecnologia não significa assumir o controle de seus aplicativos, contas e decisões. A autonomia também passa pelo direito de escolher quais ferramentas utilizar e quem pode ter acesso às suas informações.

Outro cuidado é não tratar dificuldade com tecnologia como incapacidade. Interfaces pouco acessíveis, letras pequenas, excesso de etapas, termos técnicos e sistemas que mudam constantemente podem criar obstáculos para usuários de qualquer idade.

A própria OMS aponta que limitações de visão, audição ou mobilidade, falta de treinamento, custo dos equipamentos e dificuldades de acesso à internet podem ampliar a exclusão digital.

Com a expansão do uso da internet entre os brasileiros mais velhos, a questão deixa de ser simplesmente se pessoas idosas usam tecnologia. O desafio passa a ser garantir que elas consigam utilizá-la com segurança, acessibilidade e liberdade para resolver tarefas, cuidar da saúde e manter relações sem criar uma nova forma de dependência.

Fontes:

  • IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, módulo de Tecnologia da Informação e Comunicação, dados de 2025.
  • Organização Mundial da Saúde. Promoting healthy ageing in a digital world.
  • Organização Mundial da Saúde. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies.
  • Ministério da Saúde. Meu SUS Digital.
  • Banco Central do Brasil. Segurança no Pix.
  • Terça da Serra. Como a tecnologia pode beneficiar os idosos?

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