Pesquisas não encontraram evidências de gravação generalizada de conversas para publicidade, mas celulares e aplicativos já coletam dados suficientes para criar perfis bastante detalhados.
Você comenta que precisa trocar de colchão e, algumas horas depois, aparece uma propaganda exatamente sobre isso. A sensação é imediata: o celular estava ouvindo.
Até hoje, porém, não há evidência sólida de que grandes plataformas mantenham o microfone ligado secretamente para gravar conversas cotidianas e usar o conteúdo em anúncios.
Isso não significa que elas saibam pouco sobre você. Na prática, pesquisas, localização, sites visitados, vídeos assistidos, uso de aplicativos e outros dados já permitem prever interesses com bastante precisão.
O que as pesquisas mostram
Um estudo publicado em 2018 analisou mais de 17 mil aplicativos Android em busca de transmissão inesperada de áudio e vídeo. Os pesquisadores encontraram problemas de privacidade, mas não identificaram gravação secreta de conversas pelo microfone durante os testes.
O resultado não prova que isso seja impossível. Aplicativos maliciosos podem acessar o microfone quando conseguem permissão ou comprometem o aparelho. O estudo apenas não encontrou evidências de que essa prática seja usada de forma disseminada para publicidade.
Então como o anúncio sabia?
As plataformas conseguem reunir muitos sinais sobre a atividade digital.
O Google informa que anúncios personalizados podem considerar pesquisas, sites e aplicativos utilizados, vídeos assistidos, localização aproximada e interesses estimados.
A Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, também explica que cookies de publicidade podem registrar hábitos de navegação e ajudar na criação de perfis de interesse.
Além disso, empresas podem receber informações de parceiros e de fornecedores especializados em dados. Em relatório publicado em 2024, a Federal Trade Commission dos Estados Unidos apontou que grandes plataformas digitais coletavam grandes volumes de dados para publicidade direcionada.
Isso ajuda a explicar por que um anúncio pode parecer ligado a uma conversa recente. O sistema talvez já tivesse identificado aquele interesse antes mesmo de você comentar sobre o assunto.
E o microfone?
Aplicativos podem acessar o microfone quando recebem autorização.
No Android e no iPhone, os sistemas atuais mostram indicadores quando o microfone ou a câmera estão em uso. Também é possível consultar e retirar essas permissões nas configurações de privacidade.
Assistentes de voz, como Siri e Google Assistant, funcionam de forma diferente. Eles precisam identificar palavras de ativação para responder aos comandos e podem ocorrer ativações acidentais. Isso, porém, não significa que todas as conversas estejam sendo gravadas continuamente para publicidade.
O que vale revisar no celular
Algumas medidas simples ajudam a reduzir a coleta de dados:
- revisar quais aplicativos têm acesso ao microfone, câmera e localização;
- retirar permissões que não sejam necessárias;
- limitar a personalização de anúncios;
- revisar cookies de publicidade nos sites;
- manter sistema e aplicativos atualizados.
A preocupação com privacidade faz sentido
A coleta de dados digitais é extensa e bem documentada. O ponto é que, na maior parte das vezes, a explicação mais provável para um anúncio muito específico não é o celular ouvindo uma conversa.
É o cruzamento de várias informações deixadas ao longo da navegação e do uso de aplicativos.
Por isso, além de perguntar se o celular está ouvindo, vale verificar quais dados você já autorizou que ele e seus aplicativos coletem.
Fontes:
Proceedings on Privacy Enhancing Technologies, estudo Panoptispy: Characterizing Audio and Video Exfiltration from Android Applications.
Autoridade Nacional de Proteção de Dados, Guia Orientativo Cookies e Proteção de Dados Pessoais.
Federal Trade Commission, relatório A Look Behind the Screens, 2024.
Google, Central de Ajuda sobre anúncios personalizados e privacidade.
Apple, Suporte sobre acesso ao microfone e à câmera no iPhone.
Comentários
Carregando comentários…