Em 1940, a expectativa de vida ao nascer no Brasil era de apenas 45,5 anos. Em 2024, chegou a 76,6 anos, o maior patamar já registrado no país. São 31,1 anos a mais de expectativa de vida em pouco mais de oito décadas.
Somente entre 2023 e 2024, o indicador avançou cerca de 2,5 meses. As mulheres continuam vivendo mais: a expectativa chegou a 79,9 anos, enquanto entre os homens ficou em 73,3 anos.
Viver mais é uma das grandes conquistas das últimas décadas. Mas ela também muda uma conta importante: por quanto tempo será preciso financiar a própria vida depois do fim, ou da redução, da atividade profissional?
A aposentadoria deixou de ser necessariamente um período curto no final da vida. Para uma parcela cada vez maior da população, ela pode representar duas ou três décadas. Isso exige uma mudança de perspectiva sobre patrimônio, renda, saúde e planejamento financeiro.
Aos 60 anos, ainda podem existir mais duas décadas pela frente
A expectativa de vida ao nascer é apenas uma parte dessa transformação. Quando se observa quem já chegou aos 60 anos, o impacto da longevidade fica ainda mais evidente.
Em 2024, um brasileiro de 60 anos tinha, em média, mais 22,6 anos de vida pela frente. Para os homens, eram 20,8 anos; para as mulheres, 24,2 anos. Em 1940, a expectativa adicional aos 60 anos era de apenas 13,2 anos.
A probabilidade de chegar a idades mais avançadas também mudou profundamente. Em 1940, de cada mil pessoas que alcançavam os 60 anos, 213 chegariam aos 80. Em 2024, esse número chegou a 623.
Ou seja: não aumentou apenas a expectativa de vida de quem nasce hoje. Também aumentou o número de pessoas que atravessam os 60, os 70 e chegam aos 80 anos ou mais.
E essa transformação deve continuar.
As projeções mais recentes do IBGE indicam expectativa de vida de 83,9 anos em 2070. Ao mesmo tempo, a participação das pessoas com 60 anos ou mais deverá crescer de 15,6% da população, em 2023, para cerca de 37,8% em 2070.
O Brasil, portanto, precisa se preparar para uma sociedade em que viver por mais tempo será cada vez menos uma exceção.
O desafio não é apenas chegar à aposentadoria
Durante décadas, o planejamento financeiro esteve muito concentrado em uma pergunta: quanto é preciso acumular para se aposentar?
Com o aumento da longevidade, surge outra questão tão importante quanto: por quanto tempo esse patrimônio precisará sustentar a vida?
Uma pessoa que reduz sua atividade profissional aos 60 ou 65 anos pode precisar financiar despesas até os 80, 90 anos ou mais. Nesse período, o patrimônio precisa continuar acompanhando o custo de vida, enquanto despesas importantes podem crescer.
É aí que aparecem alguns dos principais riscos da longevidade financeira.
A inflação não pesa da mesma forma para todas as idades
Preservar o poder de compra durante décadas é um dos desafios de uma aposentadoria longa.
Em 2025, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) encerrou o ano com alta de 3,90%. Esse foi também o percentual utilizado para reajustar, em 2026, os benefícios do INSS acima do salário mínimo concedidos até janeiro de 2025.
Mas a composição dos gastos de uma pessoa pode fazer com que sua inflação particular seja diferente da média.
No mesmo período em que o INPC avançou 3,90%, o grupo Saúde e cuidados pessoais teve alta de 5,20%. Pelo IPCA, que fechou 2025 em 4,26%, os gastos com Saúde e cuidados pessoais aumentaram 5,59%.
Para quem destina uma parcela maior da renda a medicamentos, consultas, tratamentos e outros cuidados de saúde, essa diferença pode pesar progressivamente no orçamento.
É por isso que preservar o patrimônio na aposentadoria não significa apenas evitar perdas nominais. É necessário considerar o quanto aquele dinheiro conseguirá comprar dez, vinte ou trinta anos depois.
Saúde tende a ocupar uma parcela importante do orçamento
Os gastos com saúde ganham relevância especial quando se fala em longevidade.
Dados das Contas-Satélite de Saúde do IBGE mostram que, em 2021, as famílias brasileiras desembolsaram R$ 168,3 bilhões com medicamentos. O valor representou 33,7% de todas as despesas das famílias com saúde naquele ano.
Os serviços privados de saúde, categoria que inclui os planos de saúde, responderam por 63,7% das despesas familiares com saúde.
O impacto do envelhecimento também aparece nas contas públicas. Projeções da Secretaria do Tesouro Nacional apontam que apenas a mudança demográfica, considerando crescimento e envelhecimento da população, tende a elevar as despesas federais de saúde. Para 2034, a pressão adicional estimada é de R$ 11,7 bilhões, em valores de 2023.
Isso reforça um ponto importante: planejar uma vida mais longa exige considerar não apenas moradia, alimentação e lazer, mas também uma possível elevação dos gastos relacionados à saúde e ao cuidado.
Depender de apenas uma fonte de renda aumenta a vulnerabilidade
A Previdência Social exerce um papel essencial na renda de milhões de brasileiros. Mas depender exclusivamente de uma única fonte de recursos pode reduzir a capacidade de adaptação diante de despesas inesperadas ou de mudanças no padrão de vida.
O planejamento para uma aposentadoria mais longa pode envolver diferentes fontes de renda: benefício previdenciário, patrimônio acumulado, investimentos, previdência complementar, imóveis, atividade profissional ou outras receitas.
A questão não é substituir o INSS, mas evitar que toda a segurança financeira dependa de uma única fonte.
Quanto maior o período a ser financiado, maior a importância de construir uma estrutura capaz de atravessar diferentes ciclos econômicos, momentos de inflação e mudanças nas necessidades pessoais.
O risco de viver mais do que o patrimônio suporta
Existe um risco específico associado à longevidade: o patrimônio acabar antes da vida.
Ele pode ocorrer por diferentes motivos. Uma retirada mensal muito elevada, inflação persistente, custos inesperados, concentração excessiva dos investimentos, falta de liquidez ou simplesmente uma vida muito mais longa do que a inicialmente considerada no planejamento.
Ao mesmo tempo, o endividamento também merece atenção.
Em junho de 2026, o Brasil alcançou 83,7 milhões de consumidores inadimplentes, o maior número da série histórica da Serasa. Pessoas acima de 60 anos representavam 20% dos brasileiros com o nome negativado, o equivalente a aproximadamente um em cada cinco inadimplentes.
A longevidade financeira, portanto, não depende apenas de quanto uma pessoa consegue acumular. Depende também da forma como administra renda, dívidas, patrimônio e despesas ao longo do tempo.
Planejar cedo continua sendo uma das maiores vantagens
Quanto maior o horizonte de investimento, menor tende a ser o esforço necessário em cada etapa para construir patrimônio.
Quem começa cedo tem mais tempo para realizar aportes, atravessar diferentes ciclos econômicos e aproveitar o efeito dos juros compostos. Mas isso não significa que exista uma idade a partir da qual planejar deixe de fazer sentido.
O objetivo muda ao longo da vida.
Nas fases iniciais, o foco pode estar na formação de patrimônio. Mais perto da aposentadoria, entram questões como preservação, liquidez e organização das futuras fontes de renda. Durante a aposentadoria, passa a ser necessário administrar a velocidade de utilização desse patrimônio.
Por isso, planejamento financeiro para longevidade não deveria ser tratado como uma decisão tomada uma única vez, mas como um processo que precisa ser revisto ao longo dos anos.
Diversificar também é uma forma de proteção
Não existe um único investimento adequado para financiar a longevidade. A composição depende do patrimônio, da idade, dos objetivos, da necessidade de liquidez, da tolerância a risco e de diversas outras características de cada pessoa.
Títulos públicos indexados à inflação, por exemplo, podem ser utilizados em estratégias de proteção do poder de compra no longo prazo. Já CDBs de instituições financeiras podem fazer parte da parcela de renda fixa, observadas características como prazo, liquidez, risco da instituição e cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Atualmente, o FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado financeiro, para produtos elegíveis, respeitando também o limite global de R$ 1 milhão em garantias recebidas dentro de um período de quatro anos.
Planos de previdência privada também podem ser utilizados dentro de uma estratégia de longo prazo. No PGBL, contribuições podem ser deduzidas da base de cálculo do Imposto de Renda até o limite de 12% dos rendimentos tributáveis, desde que atendidas as condições previstas na legislação. No resgate ou recebimento do benefício, a tributação incide sobre o valor total.
No VGBL, as contribuições não são dedutíveis, e a tributação no recebimento incide sobre a diferença entre o valor recebido e o montante aplicado.
A renda variável também continua presente no patrimônio de pessoas mais velhas. Segundo a B3, os investidores com 60 anos ou mais representavam cerca de 10% das pessoas físicas que investiam em renda variável ao final de 2025, mas concentravam R$ 292 bilhões, ou 46% de todo o patrimônio dessa categoria.
O dado não significa que renda variável seja adequada para toda pessoa acima dos 60 anos. Ele mostra que idade, isoladamente, não define uma estratégia de investimentos. Patrimônio, objetivos, horizonte e perfil de risco também precisam ser considerados.
A aposentadoria também está mudando
A longevidade está transformando até mesmo a ideia de que existe uma idade para simplesmente “parar de trabalhar”.
A população brasileira com 60 anos ou mais cresceu de 22 milhões em 2012 para 34,1 milhões em 2024, uma expansão de 53,3%. No mesmo ano, 24,4% das pessoas dessa faixa etária estavam ocupadas, o maior percentual da série histórica iniciada em 2012. Em outras palavras, aproximadamente um em cada quatro brasileiros com 60 anos ou mais continuava trabalhando.
As razões são diferentes para cada pessoa. Para parte da população, continuar trabalhando é uma necessidade financeira. Para outra parcela, pode significar complementar renda, manter atividade profissional, empreender, prestar consultorias ou continuar exercendo uma profissão de maneira mais flexível.
Isso também modifica o conceito tradicional de aposentadoria. Em vez de uma ruptura imediata entre trabalho e inatividade, ela pode se tornar uma transição gradual entre diferentes formas de produzir renda e ocupar o tempo.
Uma vida mais longa exige uma estratégia igualmente longa
O aumento da expectativa de vida é uma conquista. O desafio está em fazer com que os anos adicionais sejam acompanhados de autonomia, saúde e segurança financeira.
No Brasil de 1940, uma pessoa que chegasse aos 60 anos viveria, em média, mais 13,2 anos. Hoje, são 22,6. No futuro, esse período poderá ser ainda maior.
Isso muda a pergunta que deve orientar o planejamento da aposentadoria.
Mais do que perguntar “quanto preciso juntar?”, talvez seja necessário perguntar:
por quantos anos quero que o meu patrimônio seja capaz de sustentar a vida que pretendo ter?
A resposta envolve renda, inflação, saúde, investimentos, dívidas, proteção patrimonial e, principalmente, tempo.
Se o brasileiro ganhou mais de três décadas de expectativa de vida desde 1940, o planejamento financeiro também precisa aprender a pensar algumas décadas à frente.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem considerar a situação individual e, quando necessário, contar com orientação profissional especializada.
Fontes consultadas
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Tábuas Completas de Mortalidade 2024.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Projeções da População: Brasil e Unidades da Federação, Revisão 2024.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). IPCA e INPC — dezembro de 2025.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Conta-Satélite de Saúde: Brasil 2010–2021.
- Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Síntese de Indicadores Sociais 2025.
- Ministério da Previdência Social. Portaria Interministerial MPS/MF nº 13, de 9 de janeiro de 2026.
- Secretaria do Tesouro Nacional. Anexo de Riscos Fiscais — PLDO 2025.
- Serasa Experian. Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas no Brasil — junho de 2026.
- B3. Geração prateada cresce na Bolsa com entrada de 40 mil investidores 60+ em 2025.
- Receita Federal. Orientações sobre PGBL e VGBL.
- Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Regras e limites da garantia ordinária.
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