Um áudio chega pelo WhatsApp dizendo que houve uma mudança importante na eleição. Logo depois aparece um vídeo atribuído a um candidato, um print de uma suposta notícia ou uma mensagem informando que determinada regra para votar mudou. O conteúdo parece convincente e, muitas vezes, vem acompanhado do nome de alguém conhecido.
Às vésperas do primeiro turno das eleições de 2026, marcado para 4 de outubro, identificar a origem dessas informações ganhou uma dificuldade adicional. Textos podem ser retirados de contexto, notícias antigas reaparecem como atuais e ferramentas de inteligência artificial permitem produzir imagens, vozes e vídeos cada vez mais realistas.
Isso não significa que toda informação surpreendente seja falsa. Também não existe um único sinal capaz de confirmar que uma publicação é uma fake news. A checagem funciona melhor quando o leitor observa quem publicou, quando aquilo aconteceu, qual é a fonte original e se outras fontes confiáveis confirmam a informação.
A mentira pode usar uma informação verdadeira
Uma das formas mais difíceis de desinformação não inventa tudo. Ela pode usar uma fotografia verdadeira com uma legenda falsa, recuperar uma notícia antiga como se tivesse acontecido agora ou apresentar apenas alguns segundos de uma entrevista, retirando a fala de seu contexto.
Por isso, ler apenas a manchete ou assistir a um pequeno trecho pode não ser suficiente. O InvestNews, em reportagem sobre as eleições de 2026, chama atenção para sinais como títulos apelativos, fontes desconhecidas, endereços de sites que imitam veículos conhecidos, notícias antigas apresentadas como atuais e mensagens que pressionam o leitor a compartilhar rapidamente. Nenhum desses elementos, sozinho, comprova que o conteúdo seja falso. Eles funcionam como motivos para verificar antes de repassar.
Também é importante separar notícia de opinião. Um comentário político pode ser legítimo mesmo quando o leitor discorda dele. O problema aparece quando uma opinião, interpretação ou acusação é apresentada como um fato comprovado sem indicar de onde aquela informação foi retirada.
Cinco verificações antes de compartilhar
Ao receber uma informação eleitoral que provoque surpresa, indignação ou urgência, vale fazer uma pequena pausa para procurar a origem.
1. Descubra quem publicou. Veja se há autor, veículo, instituição ou documento identificado. Um print sem endereço, data ou autoria não permite saber de onde a informação saiu.
2. Confira a data. Notícias verdadeiras de eleições anteriores podem voltar a circular como se descrevessem uma situação de 2026.
3. Procure a informação original. Se a mensagem citar uma decisão do TSE, uma pesquisa, uma entrevista ou uma declaração, procure o documento, vídeo ou publicação completa.
4. Compare com outras fontes. Um acontecimento eleitoral relevante costuma deixar registros em diferentes veículos, órgãos públicos ou serviços de checagem. Se a afirmação aparece apenas em uma corrente de mensagens, a origem merece atenção.
5. Não repasse enquanto houver dúvida. Encaminhar uma mensagem para perguntar se ela é verdadeira também contribui para que o conteúdo continue circulando. Quando possível, envie o link para uma fonte confiável ou para uma checagem já publicada.
Para informações sobre o próprio processo eleitoral, a Justiça Eleitoral mantém a página Fato ou Boato, atualizada para as eleições de 2026 e voltada à consulta de informações verificadas e conteúdos educativos sobre desinformação.
Vídeos e áudios exigem atenção extra em 2026
A inteligência artificial tornou mais simples criar uma voz semelhante à de uma pessoa conhecida, alterar imagens ou fabricar vídeos realistas. Um arquivo com boa qualidade visual, portanto, não deve ser considerado verdadeiro apenas porque “parece real”.
Nas eleições de 2026, a regulamentação do TSE determina que propaganda eleitoral que utilize conteúdo sintético produzido ou significativamente modificado com inteligência artificial informe, de forma explícita e destacada, que houve fabricação ou manipulação e indique a tecnologia utilizada.
Em setembro de 2026, o tribunal também definiu critérios para caracterizar deepfake no contexto eleitoral. Segundo o entendimento firmado, trata-se de conteúdo sintético produzido ou manipulado por inteligência artificial ou tecnologia equivalente, com grau de realismo ou verossimilhança, capaz de criar, reproduzir ou alterar imagem, voz ou manifestação de uma pessoa. A aplicação da proibição prevista na norma eleitoral depende também de o material ser caracterizado como propaganda eleitoral.
Para o eleitor, a recomendação prática continua sendo buscar a origem. Em vez de tentar descobrir apenas pela aparência se um vídeo foi manipulado, procure a gravação original, o perfil oficial da pessoa envolvida, a entrevista completa ou outras fontes que tenham registrado o mesmo episódio.
Onde conferir e onde denunciar
Informações sobre local de votação, situação eleitoral e outros serviços do eleitor devem ser conferidas diretamente nos canais da Justiça Eleitoral, como o e-Título e o Autoatendimento Eleitoral. O próprio TSE alerta, por exemplo, que não envia e-mails comunicando cancelamento de título eleitoral.
Quando o problema envolve informações falsas, enganosas ou fora de contexto capazes de afetar a integridade das eleições, o TSE mantém o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral, o Siade. O canal pode ser utilizado para alertar sobre conteúdos relacionados ao funcionamento da votação, páginas que imitam a Justiça Eleitoral, mensagens que tentam impedir ou desestimular o voto e outras situações previstas pelo sistema. O envio pode ser feito de forma anônima.
O Siade não é o canal para toda situação envolvendo candidatos e partidos. Possíveis irregularidades de campanha, como determinadas propagandas eleitorais irregulares e conteúdos relacionados às candidaturas, devem ser encaminhadas pelo aplicativo Pardal. O TSE orienta o eleitor a escolher a ferramenta de acordo com o tipo de ocorrência.
Na denúncia ao Siade, é útil guardar o endereço da publicação, fazer uma captura de tela e informar em qual plataforma o conteúdo apareceu. O formulário também permite explicar por que aquela informação parece falsa ou enganosa e indicar se ela já foi analisada por algum serviço de checagem.
Antes do compartilhamento vem a origem
Reconhecer desinformação eleitoral não depende de decorar uma lista de sinais nem de descobrir sozinho se uma imagem foi criada por inteligência artificial. A verificação mais segura começa pela procedência: quem publicou, quando, com base em qual documento e onde a mesma informação pode ser confirmada.
Durante o período eleitoral, desconfiar não significa considerar tudo falso. Significa evitar transformar uma mensagem sem origem conhecida em informação apenas porque ela chegou pelo celular de alguém em quem confiamos.
Fontes:
- Tribunal Superior Eleitoral. Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade).
- Tribunal Superior Eleitoral. Fato ou Boato: nova página para Eleições 2026 amplia ferramentas de combate à desinformação.
- Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.610/2019, com alterações para as Eleições 2026.
- Tribunal Superior Eleitoral. TSE fixa tese sobre deepfake e delimita regra para as Eleições 2026.
- Tribunal Superior Eleitoral. Saiba quais canais usar para denunciar irregularidades e desinformação nas eleições.
- InvestNews. Fake news nas eleições 2026? Veja como identificar e denunciar ao TSE.
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