Saúde

NOLT ganha força e propõe um novo olhar para o envelhecimento

NOLT ganha força e propõe um novo olhar para o envelhecimento
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Tendência que ganhou espaço em 2026 desafia antigos estereótipos sobre a vida depois dos 60. A ciência reforça parte dessa discussão: hábitos construídos ao longo dos anos podem influenciar não apenas quanto vivemos, mas como chegamos às próximas décadas.

Uma nova sigla começou a aparecer nas redes sociais e nas discussões sobre longevidade: NOLT, de New Older Living Trend. O termo representa uma corrente que procura retratar pessoas acima dos 60 anos que continuam trabalhando, viajando, praticando atividades físicas, aprendendo, se relacionando, utilizando novas tecnologias e fazendo planos para o futuro.

O movimento ganhou repercussão no Brasil em 2026 e já foi discutido por veículos como o Jornal da USP. A proposta é questionar a imagem da velhice necessariamente associada à fragilidade, dependência e afastamento da vida social.

Mas existe uma distinção importante: NOLT não é uma classificação médica ou uma nova fase biológica da vida. Trata-se de uma tendência comportamental que tenta dar nome a uma mudança que já está acontecendo na sociedade.

E ela acontece justamente em um momento em que o Brasil envelhece rapidamente.

O Brasil dos próximos anos será cada vez mais longevo

Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a 15,8% da população. Em 2010, essa faixa etária representava 10,8%.

O crescimento transforma saúde, trabalho, consumo, moradia, relações familiares e a própria maneira como pensamos a velhice.

Também ajuda a explicar por que expressões como NOLT despertam tanta atenção. Estamos vivendo mais e, ao mesmo tempo, discutindo com mais intensidade o que queremos fazer com esses anos adicionais.

É justamente nesse ponto que a tendência encontra a ciência.

Cinco fatores e uma diferença que chegou a 14 anos

Um dos estudos mais conhecidos sobre estilo de vida e longevidade foi conduzido por pesquisadores ligados à Harvard T.H. Chan School of Public Health e publicado na revista científica Circulation.

A pesquisa analisou dados de 78.865 mulheres e 44.354 homens, totalizando mais de 123 mil participantes, acompanhados por até 34 anos.

Os pesquisadores observaram cinco fatores classificados como de baixo risco: nunca ter fumado, manter determinado intervalo de IMC, praticar pelo menos 30 minutos diários de atividade física moderada ou vigorosa, apresentar uma alimentação de melhor qualidade e consumir álcool dentro dos parâmetros definidos pelo estudo naquela época.

Aos 50 anos, mulheres que reuniam os cinco fatores apresentaram uma expectativa de vida projetada 14 anos maior em relação às mulheres que não apresentavam nenhum deles. Entre os homens, a diferença foi de 12,2 anos.

O resultado não significa que seguir uma fórmula acrescente automaticamente 14 anos à vida. O estudo é observacional e encontrou associações entre determinados comportamentos e menor mortalidade.

Também é importante atualizar um ponto: o consumo moderado de álcool fazia parte dos critérios utilizados pela pesquisa publicada em 2018. Evidências e recomendações de saúde pública evoluíram desde então. A Organização Mundial da Saúde afirma atualmente que não é possível estabelecer um nível de consumo de álcool sem risco para câncer e saúde.

Por isso, o dado de Harvard precisa ser interpretado dentro do contexto científico em que o estudo foi desenvolvido.

Viver mais não significa necessariamente viver melhor

Talvez uma das contribuições mais interessantes da discussão sobre longevidade seja justamente mudar a pergunta.

Além de “quantos anos vamos viver?”, cresce a preocupação com quantos desses anos serão vividos com independência, mobilidade, capacidade cognitiva e participação social.

Para a Organização Mundial da Saúde, envelhecimento saudável está relacionado à manutenção da capacidade funcional que permite às pessoas continuarem fazendo aquilo que valorizam.

Isso inclui conseguir se locomover, tomar decisões, aprender, manter relacionamentos, atender às próprias necessidades e participar da sociedade.

Ter uma doença crônica, portanto, não exclui automaticamente a possibilidade de envelhecer de maneira saudável. Hipertensão, diabetes e outras condições podem coexistir com autonomia e qualidade de vida quando adequadamente acompanhadas e controladas.

Músculo também é uma questão de longevidade

A atividade física ocupa um papel central nessa discussão.

Para pessoas com 65 anos ou mais, a OMS recomenda entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada, além de exercícios de fortalecimento muscular pelo menos duas vezes por semana. Atividades que trabalhem equilíbrio e força também ganham importância para preservar capacidade funcional e prevenir quedas.

E uma pesquisa publicada em janeiro de 2026 acrescentou um dado interessante.

Pesquisadores ligados à Harvard T.H. Chan School of Public Health acompanharam 70.725 mulheres e 40.742 homens e observaram que a variedade das atividades físicas também estava associada à longevidade.

Mesmo depois de considerar a quantidade total de exercício realizado, participantes no grupo com maior variedade de atividades apresentaram mortalidade geral 19% menor em comparação ao grupo com menor variedade.

Caminhar, realizar exercícios de resistência, subir escadas, pedalar e outras formas de movimento podem trabalhar capacidades diferentes do organismo.

A mensagem não é que exista um exercício perfeito para envelhecer. O conjunto e a constância parecem importar.

Cuidar do cérebro também começa antes do diagnóstico

A mesma lógica aparece quando olhamos para saúde cognitiva.

O relatório de 2024 da Comissão da Lancet sobre prevenção, intervenção e cuidados em demência identificou 14 fatores potencialmente modificáveis associados ao risco de demência ao longo da vida.

Entre eles estão hipertensão, tabagismo, sedentarismo, diabetes, obesidade, perda auditiva, depressão, isolamento social, colesterol LDL elevado e perda visual não tratada.

A comissão estima que atuar sobre esses fatores poderia estar relacionado à prevenção ou ao adiamento de até 45% dos casos de demência globalmente, embora isso represente uma estimativa populacional e não uma garantia individual.

No Brasil, pesquisadores utilizando dados do ELSI-Brasil também encontraram um potencial relevante de prevenção ao aplicar esses fatores à realidade nacional.

É mais um exemplo de como envelhecimento cerebral não começa aos 70 ou 80 anos. Parte do que encontraremos nessa fase está sendo construída muito antes.

Alimentação continua fazendo parte dessa construção

Em janeiro de 2026, a OMS atualizou suas orientações sobre alimentação saudável e voltou a destacar quatro princípios: adequação, equilíbrio, moderação e diversidade.

A recomendação prioriza alimentos pouco ou minimamente processados, frutas, verduras, legumes, grãos integrais e fontes variadas de nutrientes, com redução de excesso de açúcares livres, sódio e gorduras prejudiciais.

Na maturidade, alimentação também se relaciona à preservação da massa muscular, saúde cardiovascular, controle metabólico e manutenção da independência.

E isso reforça um ponto central: longevidade não costuma ser construída por uma única grande decisão, mas por comportamentos repetidos durante anos.

Relações também fazem parte da saúde

Há ainda uma dimensão que muitas vezes fica fora da conversa sobre prevenção: os vínculos sociais.

Em 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou o primeiro grande relatório de sua Comissão sobre Conexão Social, tratando solidão e isolamento como questões relevantes de saúde pública.

Manter relações, participar da comunidade, encontrar outras pessoas e continuar pertencendo a diferentes espaços também faz parte do envelhecimento saudável.

Por isso, uma pessoa pode manter exames controlados e praticar exercícios regularmente e ainda assim precisar olhar para outra dimensão da própria saúde: a capacidade de continuar conectada às pessoas e ao mundo ao redor.

Afinal, o NOLT muda alguma coisa?

Talvez o maior mérito da tendência não esteja em inventar uma nova categoria para pessoas mais velhas.

Está em colocar uma pergunta em circulação: por que ainda esperamos determinada idade chegar para começar a falar sobre envelhecimento?

A ciência não sustenta a ideia de que podemos controlar completamente como vamos envelhecer. Genética, renda, escolaridade, ambiente, acesso à saúde, condições de trabalho e acontecimentos ao longo da vida também interferem nesse processo.

Mas as evidências mostram que existe espaço para prevenção.

Cuidar da pressão, não fumar, manter-se fisicamente ativo, preservar força muscular, alimentar-se bem, acompanhar alterações de visão e audição, cuidar da saúde mental e cultivar relações sociais são atitudes que atravessam diferentes pesquisas sobre longevidade.

O NOLT pode até ser uma tendência passageira. A discussão que ele provoca provavelmente não será.

Porque viver mais deixou de ser o único objetivo. O desafio das próximas décadas será encontrar maneiras de chegar mais longe preservando aquilo que permite continuar vivendo a própria vida.

No Longevidade 365, esse pensamento já está no nosso princípio: longevidade é caminho, não destino.

Fontes

  • IBGE. Censo Demográfico 2022 – População por idade e sexo. Dados sobre a população brasileira com 60 anos ou mais.
  • Jornal da USP. “New Older Living”: repensar o estilo de vida para um envelhecimento saudável sem o preconceito da idade. Publicado em 17 de abril de 2026.
  • Li Y. et al. Impact of Healthy Lifestyle Factors on Life Expectancies in the US Population. Circulation, 2018. DOI: 10.1161/CIRCULATIONAHA.117.032047.
  • Han H. et al. Physical activity types, variety, and mortality: results from two prospective cohort studies. BMJ Medicine, 2026. DOI: 10.1136/bmjmed-2025-001513.
  • Organização Mundial da Saúde. Healthy ageing and functional ability. Referência sobre capacidade funcional e envelhecimento saudável.
  • Organização Mundial da Saúde. Healthy diet. Atualização publicada em janeiro de 2026.
  • Organização Mundial da Saúde. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies. Relatório da Comissão sobre Conexão Social, 2025.
  • Livingston G. et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, 2024. DOI: 10.1016/S0140-6736(24)01296-0.
  • Organização Mundial da Saúde/IARC. Evidências atuais sobre álcool e risco à saúde, incluindo a impossibilidade de estabelecer um nível de consumo sem risco para câncer.

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