O que estamos realmente buscando?

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"As histórias que eu ajudava a contar no cinema e na publicidade não eram tão diferentes das histórias que mais tarde escutaria no consultório."

Chega um momento da vida em que deixamos de contar os anos e começamos a contar as travessias.

Aos 66 anos, quando volto o olhar para trás, não vejo uma linha reta. Vejo um mosaico. Fragmentos de caminhos que, à época, pareciam independentes entre si, mas que agora revelam uma silenciosa costura.

Vejo o menino que se encantava diante das telas do cinema, sem imaginar que aquelas histórias também o estavam observando. Vejo o jovem que encontrou na arte uma forma de compreender o mundo, percorrendo corredores de uma faculdade de Artes Plásticas onde aprendeu que toda criação nasce de um olhar atento sobre a vida.

Mais adiante, encontro o homem que transitou pela televisão, pela publicidade e pelo próprio cinema, ajudando a contar histórias que buscavam emocionar, provocar reflexões e criar pontes entre as pessoas. Hoje percebo que, de algum modo, eu já procurava compreender aquilo que viria a encontrar mais tarde nos consultórios: os modos como os seres humanos constroem sentido para suas existências.

Também reencontro o servidor público, atravessado por encontros que jamais couberam em relatórios ou documentos. Crianças, famílias, perdas, esperanças e dores que passaram pela minha vida e deixaram marcas permanentes. Vejo o conselheiro tutelar, o trabalhador do acolhimento familiar e o homem que aprendeu que nenhuma história humana pode ser compreendida isoladamente de seus vínculos.

E então encontro o psicólogo.

Sentado diante de tantas pessoas ao longo dos anos, fui percebendo que as perguntas que chegavam ao consultório não eram muito diferentes daquelas que me acompanhavam em silêncio. Perguntas sobre pertencimento, amor, perdas, escolhas, recomeços e sentido.

Durante muito tempo imaginei que estava mudando de estrada. Hoje compreendo que era a mesma estrada me transformando.

Cada experiência deixou marcas. Algumas suaves como a luz da manhã que atravessa uma janela antiga. Outras profundas como as cicatrizes que a vida grava na alma para que não esqueçamos quem somos. Ao longo dessas décadas, conheci histórias que floresceram e histórias que foram interrompidas. Sonhos realizados e sonhos amputados. Amores que permaneceram e amores que ensinaram através da ausência. Vi pessoas perderem tudo e encontrarem forças para recomeçar. Vi outras conquistarem quase tudo e, ainda assim, seguirem procurando algo que não sabiam nomear.

Talvez porque exista uma pergunta que nos acompanha desde sempre: o que estamos realmente buscando?

Quando somos jovens, acreditamos que a resposta está logo adiante. Ela parece morar na próxima conquista, no próximo amor, na próxima promoção, na próxima casa, na próxima viagem. Passamos boa parte da vida caminhando em direção a um horizonte que parece estar sempre um pouco mais distante. Vivemos na expectativa de que algo extraordinário aconteça e, quando finalmente alcançarmos esse lugar imaginado, sentiremos a plenitude que tanto procuramos.

Entretanto, enquanto esperamos os grandes acontecimentos, a vida acontece silenciosamente nos bastidores.

Ela está no café compartilhado antes de um dia comum. Na conversa inesperada que prolonga a tarde. No abraço que não resolve nenhum problema, mas faz tudo parecer mais suportável. No olhar de quem amamos quando nenhuma palavra é necessária. Na sensação de pertencimento que surge quando estamos exatamente onde deveríamos estar, mesmo sem perceber.

Talvez uma das grandes aprendizagens da maturidade seja esta: compreender que a vida raramente acontece nos momentos que passamos anos aguardando. Ela floresce nos intervalos. Nos espaços entre uma conquista e outra. Nos dias aparentemente comuns que, vistos à distância, revelam-se extraordinários.

Ao longo dos anos, sentado diante de centenas de pessoas, ouvi narrativas muito diferentes entre si. Histórias de sucesso e fracasso. Casamentos duradouros e separações dolorosas. Famílias que se reconstruíram depois de perdas impensáveis. Homens e mulheres que atravessaram desertos emocionais e encontraram, do outro lado, uma versão mais inteira de si mesmos. Quanto mais escutava, mais percebia algo que a Psicologia Sistêmica sempre soube: nenhum ser humano constrói sua história sozinho.

Somos feitos de encontros. Das mãos que nos sustentaram quando ainda não sabíamos caminhar. Das pessoas que acreditaram em nós quando duvidávamos de nós mesmos. Daquelas que nos decepcionaram e, sem querer, nos ensinaram sobre limites. Daqueles que permaneceram e daqueles que partiram. Carregamos dentro de nós uma multidão de presenças. Somos, em grande medida, uma obra coletiva.

Talvez por isso a maturidade nos convide menos a acumular e mais a compreender. Menos a conquistar e mais a integrar. Chega um momento em que a pergunta deixa de ser “o que ainda me falta?” e passa a ser “o que tudo isso fez de mim?”. E então percebemos que a vida não foi uma sucessão de fatos isolados. Foi uma obra sendo escrita em camadas. Cada amor, cada perda, cada mudança de direção, cada sonho realizado e cada sonho abandonado encontrou seu lugar na composição final.

Talvez envelhecer seja justamente isso: aprender a olhar para a própria biografia com mais ternura do que julgamento. Reconhecer que houve erros, desvios, atrasos e despedidas, mas que nada disso impediu a beleza do caminho. Porque o sentido da vida raramente se revela enquanto estamos atravessando a ponte. Ele costuma aparecer quando olhamos para trás e percebemos que cada passo, mesmo os mais difíceis, nos trouxe até aqui.

E agora? O que estamos aguardando? Qual é o próximo portal que iremos atravessar? O que existe além do horizonte?

Hoje penso que a maturidade não nos entrega respostas definitivas para essas perguntas. Ela nos oferece algo mais precioso: a capacidade de contemplá-las sem ansiedade. Como quem se senta ao final da tarde diante de uma janela, observando a luz mudar lentamente sobre a paisagem. Sem pressa. Sem urgência. Apenas presente.

A juventude costuma buscar certezas. A maturidade aprende a conviver com os mistérios.

E talvez seja exatamente isso que exista além do horizonte. Não uma resposta. Não um ponto de chegada. Mas uma nova travessia.

Porque enquanto houver afeto, curiosidade, capacidade de se emocionar, desejo de aprender e disposição para construir significado, a vida continuará abrindo portas diante de nós.

A longevidade, então, talvez não seja apenas viver mais tempo. Talvez seja olhar para a própria história, reconhecer a beleza de cada capítulo vivido e, ainda assim, permanecer disponível para a próxima travessia.

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