Sobre Dona Gema, Carol e a busca de todos nós por uma longevidade saudável

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Gema tem 90 anos, Carol tem 30.

Gema mora perto da zona rural, numa casa de paredes de madeira com base em alvenaria, desde os 18 anos, quando mudou-se para junto de seu primeiro e único homem. Carol saiu da casa dos pais quando tinha 27, para um apartamento na cidade, cuja entrada foi paga por seus pais e o financiamento ela faz um grande esforço para quitar.

Gema foi casada por 62 anos até que enviuvou. Fala com saudade do seu marido, que, nas suas palavras, “era um homem que não existe mais igual”. Com ele teve sete filhos, 16 netos e três bisnetos. Quando todos se reúnem para a foto oficial em seu aniversário ou dia das mães sempre é uma grande festa. Carol ainda não tem filhos (na verdade tem considerado em segredo nem tentar), mas tem um namorado, com quem mora há dois anos. No último Natal de Carol teve foto oficial, havia sete pessoas. Eram ela, seus pais, seu irmão, seu namorado, além de seu pai e sua mãe (ninguém pode mencionar o fato de que ela constrangeu seu namorado a obrigar pai e mãe a passarem o Natal com ela).

Gema tem uma vaca, cinco galinhas, dois cachorros, um gato, um jardim e uma horta, dos quais cuidou religiosamente todos os dias de sua vida, com apego e orgulho. Atualmente para dar conta precisa da ajuda de sua filha, que mora na casa ao lado. Carol tem um maltês que ganhou do namorado, um iPhone, um carro, 15 álbuns de fotos feitos especialmente para ela, um iPad e um computador de mesa. Para manter isso recebe ajuda do pai, que frequentemente lhe faz aportes financeiros, e da mãe, que lhe lava trouxas de roupas toda semana.

Gema desde sempre adora comer torresmo, mas não abusa, bife à milanesa frito em banha de porco, polenta com raditi cozido, queijo, leite da vaca misturado com café acompanhado por pão colonial coberto de chimia de uva, que é feita por ela mesma. Carol come conforme o cardápio de sua última nutricionista misturado com as dicas de uma de suas influencers digitais. Nos últimos tempos segue uma linha mais low carb, baseada em ovos cozidos, carnes, farinha de amêndoas, abacate e morango. Todos os dias toma um pouco de kombucha e diz ter abandonado o açúcar completamente (mas não conta que semana passada sonhou vividamente que tomava banho em uma piscina de chocolate branco derretido).

Gema dorme fácil após rezar o terço todas as noites, em prol de si, dos seus e do seu mundo, recoberta por esperança. Carol dorme bem somente se toma uma melatonina de 2 mg e meio comprimido de Zolpidem, simplesmente “apaga”, em suas palavras.

Gema não almoça sem tomar meio copo de vinho, comum, colonial, às vezes branco, às vezes tinto, feito ali na vizinhança mesmo, por seu irmão. Carol degusta bebida alcoólica apenas quando em ocasiões especiais, como festas ou jantar com os amigos, preferindo cabernet franc chileno.

Gema nunca tomou na vida uma cápsula sequer de vitamina, suplemento ortomolecular ou semelhante – a realidade é que nem tem ideia do que isso representa. Em toda sua vida, raramente comeu peixe, preferindo, por facilidade de acesso mesmo, carne de porco, galinha ou gado geralmente sacrificados e limpos por sua família. Toma remédio para pressão alta e tireoide. Vai ao médico uma a duas vezes por ano. Orgulha-se do fato de ter ganhado todos seus filhos em casa, de ser capaz de se virar sozinha aos 90 e de nunca ter internado uma vez sequer na vida. Carol toma todos os dias cápsulas de colágeno, biotina, Ômega-3 e vitamina C, faz academia três vezes por semana e nos outros dias faz caminhadas ou corridas. Está pensando em começar crossfit, junto de suas amigas. Faz terapia com psicóloga desde os 22 anos quando acabou seu primeiro namoro, faz massagem, depilação, vai ao dentista para manter seu branqueamento realizado há alguns anos e atualizar sua plaquinha de bruxismo, RPG para melhorar sua postura. Para alcançar níveis mais elevados de autodesenvolvimento está estudando começar um acompanhamento com coaching.

Gema não muda 80% do seu guarda-roupa há mais de 15 anos. Dentre suas roupas preferidas estão várias costuradas ou bordadas por ela mesma. Carol busca estar sempre na moda, com a ajuda de duas lojas de grife que lhe enviam roupas novas para provar todo mês, conquistando assim elogios das amigas e destaque nas fotos.

Gema tem uma conta de telefone fixo. Carol tem conta no Insta, no TikTok, no Twitter, no Facebook e no Threads.

Gema liga a TV para assistir novela ou missa. Carol carrega a TV no bolso.

Carol pede para sua Alexa qual a previsão do tempo. Gema sabe se vai chover quando as juntas das mãos ou joelhos começam a doer.

O olhar de Carol é emoldurado por primores da estética, mas no fundo é angustiado. O olhar de Gema é cercado de rugas e manchas, e de perto só passa serenidade.

Os pés de Carol são brancos, delicados, perfumados, as unhas parecem uma pintura que muda a cada semana. Quase não conheceram o chão, e quando o fizeram, foi de areia pura ou grama artificial. São massageados com creme especial de cem reais o frasco, e vestidos com meias limpas todos os dias. Os pés de Gema são machucados, tortos, têm alguns pelos, unhas irregulares. Na juventude, tocaram pedra, barro, madeira, sujeira, frio, uma ou duas meias. Atualmente são cuidados com limitações impostas pela coluna e pela visão que sua dona possui.

Gema foi colocada para trabalhar aos seis anos, em parceria com seus dez irmãos. Foi nutrida minimamente de afeto através da atenção que recebia de sua irmã mais velha e de uma tia, esta última anormalmente espirituosa e positiva para aqueles tempos. Carol queixa-se de não ter recebido todas as oportunidades que pediu na vida, reclama de ninguém a compreender por não querer trabalhar mais do que 30 horas por semana. No dia a dia não vê a hora de sair do trabalho para cuidar da própria saúde e aparência.

Para mim, André, Gema é símbolo de força, inspiração, perseverança e amor. Carol é símbolo de uma modernidade insustentável em termos psíquicos, emocionais, ao primar por níveis de conforto e estética incompatíveis com sua raiz humana.

Em 100% dos dias nós, Geriatras, somos questionados quanto aos segredos para uma Longevidade saudável. Gosto de responder que não estão em cápsulas ou em academias, e sim, na união de um forte senso de propósito com o exercício de uma amorosidade autêntica.

Carol, a vida vale a pena! Dona Gema, obrigado!

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