Finanças

O golpe financeiro perfeito não começa roubando seu dinheiro, começa pagando você

Quanto mais irresistível parece uma oportunidade financeira, mais importante é entender quem está por trás dela antes de colocar o seu dinheiro.

O golpe financeiro perfeito não começa roubando seu dinheiro, começa pagando você
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Uma mensagem chega pelo WhatsApp. Alguém apresenta uma oportunidade que estaria rendendo muito mais do que os investimentos tradicionais. Talvez um amigo já tenha colocado dinheiro. Talvez existam comprovantes de pessoas que receberam. E há um detalhe especialmente tentador: dizem que praticamente não existe risco.

É justamente aí que vale desconfiar.

Ganhos elevados, rápidos e garantidos estão entre os sinais que merecem atenção quando alguém apresenta uma suposta oportunidade de investimento. Por trás de parte dessas ofertas podem estar esquemas que dependem da chegada contínua de novos participantes para continuar funcionando.

As chamadas pirâmides financeiras não são novidade. Mas continuam aparecendo entre os indícios de crimes financeiros identificados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Os alertas aumentaram

No segundo trimestre de 2024, a CVM emitiu 110 ofícios de alerta após identificar irregularidades na atuação de participantes regulados do mercado de capitais. No trimestre anterior, haviam sido 58.

Isso representa um crescimento de aproximadamente 90%.

Os ofícios não significam que todos esses casos eram pirâmides. Eles são utilizados pela CVM para comunicar irregularidades identificadas que, naquele momento, não justificavam a abertura de um processo administrativo sancionador.

Mas outro dado do mesmo relatório ajuda a dimensionar a presença das pirâmides financeiras. Entre abril e junho daquele ano, a CVM enviou ao Ministério Público 15 comunicações envolvendo indícios de crimes. Quatro delas estavam relacionadas a pirâmides financeiras.

Como uma pirâmide consegue parecer um bom negócio?

No início, o dinheiro pode realmente aparecer.

Esse é um dos motivos pelos quais esse tipo de fraude consegue convencer novos participantes.

Em vez de o rendimento ser gerado por uma atividade econômica capaz de sustentar os pagamentos, o dinheiro colocado pelos novos integrantes ajuda a remunerar aqueles que chegaram antes.

Enquanto novas pessoas continuam entrando, a aparência de sucesso pode permanecer.

O problema está na matemática.

Para continuar crescendo, o esquema precisa de uma quantidade cada vez maior de novos participantes. Em algum momento, essa expansão deixa de ser possível. Quando o fluxo de dinheiro diminui, os pagamentos começam a falhar e grande parte dos participantes pode ficar com o prejuízo.

Por isso, saber que um conhecido recebeu dinheiro ou conseguiu retirar seus primeiros rendimentos não é prova de que o investimento seja legítimo.

“Você não tem como perder” deveria acender um alerta

Todo investimento envolve algum tipo de risco.

Quando alguém combina rentabilidade muito elevada com garantia de retorno, facilidade para ganhar dinheiro e pouca explicação sobre de onde vem aquele rendimento, vale investigar antes de transferir qualquer valor.

Outro cuidado importante é observar o peso dado ao recrutamento.

Se a oportunidade fica mais lucrativa conforme você traz amigos, familiares ou novos participantes, é necessário entender exatamente de onde vem o dinheiro que está pagando essas bonificações.

Pressão também merece atenção.

Frases como “é só hoje”, “você vai perder a oportunidade” ou “todo mundo já está ganhando” podem dificultar uma decisão racional, especialmente quando são acompanhadas por histórias de pessoas que supostamente tiveram resultados extraordinários.

Antes de investir, faça uma consulta simples

Uma das recomendações da própria CVM é verificar se a pessoa ou empresa que oferece o investimento possui autorização para atuar no mercado quando esse registro é obrigatório.

A consulta pode ser feita no Cadastro Geral da CVM.

Mas existe um cuidado adicional: encontrar o nome de uma empresa legítima no cadastro não significa automaticamente que a pessoa que entrou em contato com você realmente a representa.

Golpistas também podem utilizar nomes, logotipos, CNPJs e dados de empresas verdadeiras para dar credibilidade à abordagem.

Por isso, depois de conferir o registro, procure os canais oficiais da instituição e confirme se aquela oferta e aquele contato realmente pertencem a ela.

Uma ferramenta pode ajudar antes da transferência

A CVM também mantém o ContraGolpe, ferramenta gratuita desenvolvida em parceria com a Associação Brasileira de Criptoeconomia.

O sistema apresenta uma sequência de perguntas sobre a oferta recebida e, a partir das respostas, aponta sinais de risco e fornece orientações educativas.

Não se trata de uma garantia de que determinado investimento é seguro. A proposta é ajudar o investidor a perceber características comuns de golpes que poderiam passar despercebidas no primeiro contato.

Pode ser especialmente útil naquele momento em que a proposta parece boa demais para simplesmente ignorar.

E se o dinheiro já tiver sido enviado?

O primeiro cuidado é não aumentar o prejuízo tentando recuperar o que já foi perdido com novos aportes.

Também é importante guardar tudo o que possa documentar a situação: mensagens, contratos, nomes, números de telefone, comprovantes de transferências e informações sobre contas utilizadas.

Segundo a orientação da CVM, vítimas de golpes financeiros devem registrar boletim de ocorrência e podem levar as informações ao Ministério Público. A investigação criminal cabe às autoridades policiais, enquanto a ação penal pública é atribuição do Ministério Público.

A CVM também recebe informações relacionadas a irregularidades dentro de sua área de atuação, mas deixa claro que não é responsável pela investigação criminal nem pode determinar o ressarcimento de valores perdidos em fraudes.

Quando o assunto é patrimônio, uma pequena desconfiança antes da transferência pode valer muito mais do que a promessa de um grande rendimento depois dela.

E talvez a pergunta mais importante diante de uma oportunidade extraordinária não seja “quanto isso pode render?”, mas “de onde exatamente está vindo esse dinheiro?”.

Este conteúdo é informativo. Para decisões de investimento, procure orientação profissional adequada.

Fontes:

  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Relatório de Atividade Sancionadora, 2º trimestre de 2024;
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Consulta de Participantes Autorizados;
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — Ofertas e Atuações Irregulares;
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — ContraGolpe;
  • Comissão de Valores Mobiliários (CVM) — orientações sobre denúncias de golpes financeiros.

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