Saúde Emocional

Autenticidade não tem idade: ser quem você é pode fazer bem para a saúde emocional

Pesquisas associam uma vida mais coerente com os próprios valores a maior bem-estar e satisfação. E há um detalhe importante: essa relação não parece desaparecer com a idade.

Autenticidade não tem idade: ser quem você é pode fazer bem para a saúde emocional
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Existe uma lista silenciosa de coisas que, supostamente, começam a ficar inadequadas conforme os anos passam.

A roupa precisa mudar. O cabelo deveria ser mais discreto. Certos sonhos ficam “para os mais jovens”. Começar uma profissão, viajar sozinho, aprender algo novo ou simplesmente mudar de opinião passa a exigir explicações.

Mas existe alguma idade em que uma pessoa deveria deixar de parecer consigo mesma?

A psicologia tem uma palavra importante para essa discussão: autenticidade.

Ela não significa ser extravagante ou fazer tudo o que se quer. Está mais relacionada à coerência entre aquilo que sentimos, valorizamos e fazemos.

E essa coerência pode ter relação importante com o bem-estar emocional.

O que significa ser autêntico?

Um dos modelos mais conhecidos da psicologia descreve autenticidade a partir de três dimensões: compreender a si mesmo, viver de acordo com os próprios valores e não permitir que as expectativas externas determinem excessivamente nossas escolhas.

É menos sobre “ser diferente” e mais sobre diminuir a distância entre quem somos e a vida que levamos.

Uma pessoa pode saber que determinado estilo de vida já não faz sentido e continuar nele durante anos por medo de decepcionar alguém. Outra pode abandonar interesses, roupas ou projetos porque acredita que “já passou da idade”.

É justamente aí que a autenticidade entra.

O que mostram os estudos

Uma meta-análise reuniu 75 estudos com mais de 36 mil participantes e encontrou associação positiva entre autenticidade e bem-estar.

Pessoas que se percebiam como mais autênticas também tendiam a apresentar maior satisfação com a vida e melhor funcionamento psicológico.

E há um detalhe especialmente interessante quando falamos de longevidade: a idade não modificou significativamente essa relação.

Ou seja, sentir que a própria vida combina com quem você é continua sendo importante em diferentes fases da vida.

Outro estudo acompanhou participantes durante duas semanas e chegou a um resultado parecido. Nos dias em que as pessoas relatavam viver de maneira mais autêntica, também apresentavam mais significado, satisfação e bem-estar.

Isso não transforma autenticidade em tratamento para ansiedade ou depressão. Mas mostra que viver continuamente tentando atender expectativas que não combinam conosco pode ter um custo emocional.

Com os anos, as prioridades podem mudar

A Teoria da Seletividade Socioemocional, desenvolvida pela psicóloga Laura Carstensen, da Universidade Stanford, ajuda a entender outro fenômeno comum na maturidade.

À medida que a percepção sobre o tempo muda, experiências emocionalmente significativas tendem a ganhar mais importância.

Relações, atividades e escolhas que realmente fazem sentido passam a competir melhor com obrigações e expectativas que antes pareciam incontornáveis.

Talvez por isso tantas pessoas relatem, depois de certa idade, uma tolerância menor para desperdiçar tempo com aquilo que já não importa.

Não significa que todo mundo se torne automaticamente mais autêntico ao envelhecer.

Mas os anos podem tornar uma pergunta mais urgente:

“Eu ainda quero viver dessa maneira?”

O perigo de transformar idade em personalidade

Existe cabelo “para a idade”.

Roupa “para a idade”.

Comportamento “para a idade”.

E até sonhos que aparentemente deveriam ter sido realizados antes de determinada data de nascimento.

O problema começa quando essas regras passam a determinar a identidade de alguém.

Pessoas com 60, 70 ou 80 anos não formam um grupo homogêneo. Há enorme diversidade de interesses, estilos de vida, capacidades e prioridades na maturidade.

Envelhecer exige adaptações, claro. Mas adaptar-se às mudanças da vida não significa abandonar aquilo que continua fazendo sentido.

A mulher que escolheu viver de verde

Elizabeth Sweetheart é uma representação bastante visual disso.

Nascida em 1941, a artista e designer têxtil que vive no Brooklyn, em Nova York, há décadas adotou o verde como parte de sua identidade.

Cabelo, roupas, acessórios e boa parte de sua casa seguem diferentes tonalidades da cor.

Conhecida como “The Green Lady of Brooklyn”, Elizabeth já contou que o verde simplesmente lhe traz alegria.

Talvez seja justamente isso que torna sua história interessante.

Ela não precisa convencer ninguém a usar verde.

A escolha apenas combina com quem ela é.

Autenticidade quase nunca precisa chamar atenção

Na maior parte das vezes, ser autêntico é muito menos visível.

Pode ser voltar a estudar aos 65.

Retomar um hobby que ficou décadas esperando.

Usar aquilo de que gosta sem perguntar se “combina com a idade”.

Ou simplesmente reconhecer:

“Eu não quero mais isso.”

“Eu quero tentar aquilo.”

Ser autêntico não significa permanecer igual durante toda a vida.

Significa permitir que a vida mude sem perder o contato com quem você se tornou.

Talvez envelhecer também seja escolher melhor

Passamos boa parte da vida aprendendo a ocupar lugares e atender expectativas.

A maturidade pode trazer a oportunidade de revisar esse roteiro.

Os estudos sobre autenticidade mostram uma associação consistente com maior satisfação e bem-estar. As pesquisas sobre envelhecimento acrescentam outra peça: conforme o tempo ganha outro valor, aquilo que tem significado emocional tende a ocupar mais espaço.

Talvez longevidade também tenha a ver com isso.

Não apenas viver mais anos, mas continuar tendo espaço para ser você dentro deles.

Elizabeth Sweetheart encontrou esse espaço no verde.

Para outras pessoas, ele pode estar em escolhas muito mais discretas.

A pergunta que fica é simples:

Se ninguém estivesse dizendo como alguém da sua idade deveria viver, o que você faria diferente?

Fontes:

  • Sutton, A. — Living the good life: A meta-analysis of authenticity, well-being and engagement. Personality and Individual Differences, 2020.
  • Wood, A. M. et al. — The Authentic Personality: A Theoretical and Empirical Conceptualization and the Development of the Authenticity Scale. Journal of Counseling Psychology, 2008.
  • Lutz, P. K. et al. — Authenticity, meaning in life, and life satisfaction. Journal of Personality, 2023.
  • Boyraz, G.; Waits, J. B.; Felix, V. A. — Authenticity, life satisfaction, and distress: a longitudinal analysis. Journal of Counseling Psychology, 2014.
  • Carstensen, L. L. — Socioemotional Selectivity Theory: The Role of Perceived Endings in Human Motivation. The Gerontologist, 2021.
  • Museum of the City of New York — Worn in New York, participação de Elizabeth Sweetheart.

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