A velocidade da sua caminhada pode revelar como seu cérebro está envelhecendo

Meu pai sempre caminhou rápido, e esse hábito ganhou um novo significado à luz da ciência. Estudos indicam que a velocidade da caminhada pode refletir a saúde do cérebro, já que idosos mais velozes apresentaram menor risco de declínio cognitivo.

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A velocidade da sua caminhada pode revelar como seu cérebro está envelhecendo

Meu pai sempre chamou a atenção por caminhar muito rápido. Em passeios ou eventos, frequentemente deixava minha mãe, e quem mais estivesse junto, para trás. Eu considerava aquilo uma falta de educação tremenda, até perceber que se tratava da repetição ansiosa de um hábito muito antigo, já incorporado à sua personalidade.

Certa vez, acompanhei-o em uma caminhada que fazia parte de sua rotina diária. Eu estava com 40 anos; ele, com 74. Durante uma hora inteira, manteve uma velocidade média de quase 7 km/h, sem descanso e ainda conversando!

Esta coluna é uma espécie de revisitação científica desse traço do meu querido pai. Espero que seja útil para a vida dos prezados leitores.

Recentemente, foi publicada uma pesquisa que investigou a associação entre a velocidade da caminhada e a saúde do cérebro em pessoas com 80 anos ou mais. Como a velocidade dos passos depende da integração entre músculos, equilíbrio, coordenação, circulação e diferentes áreas cerebrais, ela pode funcionar como um importante indicador de saúde.

Os pesquisadores identificaram um grupo chamado de “super walkers”, ou caminhadores rápidos: idosos que mantinham uma velocidade de caminhada muito acima da média esperada para pessoas da mesma idade e do mesmo sexo. Na prática, esses participantes caminhavam em um ritmo semelhante ao observado em indivíduos aproximadamente 30 anos mais jovens.

Os resultados reforçaram a hipótese de que essa característica pode indicar uma proteção maior do cérebro, especialmente da cognição.

Para o leitor compreender rapidamente, cognição é a capacidade do cérebro de aprender, entender, lembrar, planejar e resolver problemas. Quando essas funções deixam de operar adequadamente e começam a interferir na vida da pessoa, pode surgir a suspeita de doenças como o Alzheimer.

Grosso modo, a hipótese dos cientistas foi a de que caminhar mais rápido do que o esperado para a idade está associado a uma longevidade mais saudável. No entanto, não podemos esquecer que, em biologia, nem sempre 1 + 1 é igual a 2. Dar passos mais rápidos do que os de seus pares pode não ser o que previne o declínio cognitivo, mas um sinal de que o indivíduo possui boas condições físicas e neurológicas, que, por si só, contribuem para essa proteção.

Em termos práticos, foram considerados “super walkers” aqueles que caminhavam pelo menos 50% mais rápido do que o esperado para sua idade e seu sexo. Não é pouca coisa. Essa classificação foi realizada por meio de testes padronizados de velocidade da marcha.

Para se ter uma ideia de quão excepcional é essa característica, entre as 3.989 pessoas analisadas, apenas 358, cerca de 9%, receberam o selo de caminhadores rápidos. Nenhum dos quase quatro mil participantes tinha diagnóstico de doença de Alzheimer ou demência no início da pesquisa. O acompanhamento durou, em média, quatro anos.

E então vem o dado que mais chama a atenção: durante esse período, os apressadinhos apresentaram metade do risco de desenvolver problemas cognitivos em comparação aos participantes considerados “normais”.

Outra pesquisa, com 197 idosos do mesmo perfil, pessoas com 80 anos ou mais e sem demência, acompanhou a evolução de diferentes capacidades mentais. Os pesquisadores verificaram que os “super walkers” apresentaram um declínio mais lento da memória e de outras funções cognitivas.

Entre as habilidades avaliadas estavam a memória, a velocidade de processamento das informações, as funções executivas, como planejar tarefas e tomar decisões, e a cognição global.

Ao analisarem o tamanho do hipocampo, principal estrutura cerebral relacionada à formação das memórias, os pesquisadores descobriram que os “super walkers” apresentavam essa região mais preservada.

Nenhuma das duas pesquisas permite afirmar que caminhar mais rapidamente impediria 50% dos casos de demência. Também não significa que devemos simplesmente começar a caminhar mais rápido para evitar o Alzheimer, nem que acelerar os passos aumentará o hipocampo ou melhorará a memória.

O que os estudos encontraram foi uma associação entre a manutenção de uma velocidade excepcional de caminhada e uma preservação maior do desempenho cognitivo.

Sabe aquela história sobre o que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Pode ser que caminhar mais rápido ajude a manter o cérebro saudável. Mas também pode ser que pessoas com o cérebro mais saudável consigam caminhar mais rápido.

Ainda é preciso esclarecer se aconselhar uma pessoa a acelerar o ritmo de sua caminhada produziria, de fato, benefícios diretos para o cérebro.

Na dúvida, existe hoje uma ampla base teórica e epidemiológica demonstrando a influência do que fazemos com o corpo, e de quanto utilizamos nossas capacidades motoras, sobre a saúde do nosso comando central: o cérebro.

Além disso, caminhadas em ritmo mais acelerado oferecem benefícios cardiovasculares e ajudam na prevenção de diversas doenças. Por isso, respeitando os limites do próprio corpo, caminhe um pouco mais rápido. Vista um bom tênis e ande como se estivesse atrasado para a missa. O coração e o cérebro agradecem!

E, caso você conheça alguém que esteja ficando progressivamente mais lento com o avançar da idade, acenda um sinal de alerta. Embora alguma redução de velocidade possa ocorrer com o envelhecimento, uma mudança importante no ritmo da marcha merece atenção, pois pode indicar que algo não vai bem com a saúde física ou cerebral.

Quanto ao meu pai, ele continua parecendo sempre apressado e com a cabeça boa, graças a Deus.

Feliz Dia dos Pais!

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