O etarismo existe. Mas estamos olhando para a pergunta errada?

O etarismo existe e precisa ser combatido, mas a idade não é a única medida de relevância profissional. Continuar aprendendo, fazendo novas perguntas e transformando experiência em valor é o que mantém uma carreira viva em um mercado que muda o tempo todo.

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Nos últimos anos, a idade entrou de vez nas conversas sobre trabalho. Empresas falam de sucessão. Profissionais maduros querem saber se ainda haverá espaço para eles. Os mais jovens tentam descobrir como construir uma carreira num mundo que muda antes mesmo de aprendermos suas regras.

O etarismo existe. Seria ingênuo negar as portas que se fecham por causa da data de nascimento. Mas essa constatação nunca encerrou a questão para mim. Ao contrário: abriu outra.

Vou te contar o que tenho visto.

Há muitos anos acompanho executivos, empresários e profissionais em transição. Alguns chegaram até mim aos cinquenta. Outros, aos sessenta. Muitos eram bem mais jovens.

Com o tempo, a idade deixou de ser o que mais me chamava a atenção.

Eu observava profissionais maduros que continuavam fazendo perguntas, aprendendo coisas novas e se aproximando de pessoas diferentes. Também encontrava gente muito mais jovem que já havia decidido que sabia o bastante.

Quem estava envelhecendo ali?

Essa pergunta voltou durante minhas viagens aos Estados Unidos. Em cafés, lojas e empresas, vi pessoas de várias gerações trabalhando lado a lado. Nem todas ocupavam os mesmos cargos ou faziam as mesmas atividades. Mas estavam presentes. Participavam da conversa.

A cena me fez pensar no quanto associamos relevância à juventude, quando ela depende também da forma como continuamos participando do mundo.

Há barreiras que vêm da idade. Há outras que começam muito antes: quando paramos de aprender, repetimos sempre as mesmas respostas e deixamos de encontrar novas maneiras de gerar valor.

Uma coisa não anula a outra.

Combater o etarismo é necessário. Cuidar da própria capacidade de evolução também.

Por isso, a pergunta “até que idade o mercado aceita um profissional?” me parece insuficiente.

Prefiro outra:

“Como continuamos construindo valor ao longo da vida?”

O mercado muda. A tecnologia muda com ele. Funções desaparecem, outras surgem, e a experiência precisa conversar com esse novo cenário.

Mudar não apaga o que vivemos. Permite que o vivido continue produzindo alguma coisa.

Experiência guardada vira memória. Experiência que encontra perguntas novas volta a ser matéria-prima.

É aí que a relevância se renova, aos quarenta, aos sessenta ou em qualquer idade em que a vida nos peça outro começo.

Não controlamos todas as barreiras. Controlamos, porém, a disposição de seguir aprendendo e de transformar o que sabemos em valor para alguém.

Essa disposição não elimina o preconceito. Mas impede que a idade seja a única história que contamos sobre nós mesmos.

Experimento da Semana

Imagine que sua idade desaparecesse do currículo amanhã.

O que, no seu trabalho e nas suas escolhas recentes, mostraria que você continua aprendendo e gerando valor?

Olhe para a resposta sem se defender. Ela pode revelar onde sua experiência continua viva e onde precisa voltar a se mover.

A pergunta que ficou comigo esta semana

Estamos gastando mais energia discutindo a idade ou construindo as condições para continuar relevantes num mundo que não para de mudar?

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