Os papéis que nos habitam

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Há um momento da vida em que deixamos de perguntar apenas o que

ainda somos capazes de fazer e começamos, silenciosamente, a perguntar quem

permanece quando deixamos de fazer.

Durante muitos anos essa pergunta quase não encontra espaço. A vida

acontece depressa. Há filhos para criar, profissão para construir, contas para

pagar, pessoas para cuidar, decisões a tomar. Aprendemos cedo que existir é

ocupar lugares. E, pouco a pouco, vamos vestindo personagens que nos

permitem atravessar o mundo.

Somos filhos. Depois estudantes. Tornamo-nos profissionais,

companheiros, pais, mães, líderes, professores, psicólogos, médicos, advogados,

artistas, pedreiros, músicos, atendentes, faxineiros, infinitos personagens

coabitando um único ser.

Nenhum desses papéis é falso. Todos são necessários.

A Terapia Sistêmica ensina que pertencemos a diferentes sistemas e

que cada sistema nos convida a ocupar uma posição. Em casa somos um. No

trabalho, outro. Entre amigos, outro. O problema nunca esteve nos papéis. O risco

aparece quando esquecemos que somos maiores do que qualquer personagem

que aprendemos a representar.

Talvez seja por isso que o nosso tempo pareça tão cansado.

Vivemos cercados por conteúdos, opiniões, notificações e urgências.

Há sempre alguma notícia que ainda não lemos, alguma atualização que ainda

não fizemos, alguma discussão da qual parecemos não poder ficar de fora.

Permanecer relevante tornou-se uma espécie de tarefa cotidiana.

Sem perceber, começamos a acreditar que desaparecer da conversa é

desaparecer da própria vida.

Tenho pensado muito nisso. Não como psicólogo. Nem como alguém

que observa os outros. Mas como alguém que também se surpreende tentando

acompanhar um mundo que parece correr mais depressa do que a capacidade

humana de assimilá-lo.

Foi nesse lugar que o silêncio ganhou outro significado. Não o silêncio

da solidão. Nem o silêncio do abandono. Mas o silêncio em que nenhum

personagem precisa trabalhar. Ali o especialista não precisa saber. O líder não

precisa conduzir. O psicólogo não precisa co-construir. Permanece apenas a

pessoa.

E descobri que há uma liberdade difícil de explicar quando já não

precisamos convencer ninguém de que somos importantes. Talvez maturidade

seja justamente isso. Não acumular novos papéis. Mas aprender a devolvê-los

sem sentir que perdemos a nós mesmos. O cinema sempre me fascinou. Não

apenas pelos filmes, mas pelo instante em que eles terminam. Os créditos

começam a subir. As luzes se acendem. A plateia deixa lentamente a sala. E,

curiosamente, é nesse momento que algumas histórias começam a acontecer

dentro de nós.

Com a vida talvez ocorra o mesmo. Alguns papéis terminam. Outros

deixam de precisar de nós. Alguns são entregues a outras mãos. Isso não diminui

a história que vivemos. Apenas revela que ela cumpriu o seu tempo. Durante

muitos anos aprendemos a entrar em cena. Quase ninguém nos ensinou a

delicadeza de sair dela.

Talvez a longevidade seja também essa aprendizagem. Descobrir que

a presença vale mais do que a visibilidade. Que existir não depende de

permanecer no cartaz. Que reconhecimento não é o mesmo que pertencimento.

E que a serenidade nasce quando deixamos de medir nossa importância pela

intensidade dos aplausos. O cartaz mudará. Os protagonistas também.

Como sempre aconteceu.

Mas há algo que o tempo jamais retira de quem amadurece.

A possibilidade de continuar presente. Inteiro. Humano.

Porque, quando as luzes diminuem e o cinema finalmente silencia,

resta uma única companhia da qual nunca conseguiremos nos afastar.

A nossa.

Luís Claiton Medeiros Ehlers

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