Política

O SUS está em uma corrida contra o tempo

O envelhecimento populacional no Brasil impulsiona a busca por serviços de saúde especializados e cuidados de fim de vida, exigindo do SUS uma adaptação urgente e novas estratégias.

O SUS está em uma corrida contra o tempo
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O SUS está em uma corrida contra o tempo, até 2030, o Brasil terá mais idosos do que crianças.

Nova projeção demográfica antecipa uma virada histórica no país. Enquanto a população envelhece, milhões de brasileiros já precisam de ajuda para atividades básicas e o sistema público tenta ampliar cuidados contínuos, domiciliares e paliativos.

A grande virada demográfica do Brasil está mais perto do que parecia.

Durante anos, uma projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou 2039 como o momento em que o país teria mais idosos do que crianças. Mas os números foram atualizados.

Nas Projeções da População divulgadas em 2024, já incorporando informações do Censo de 2022, o envelhecimento aparece ainda mais acelerado. Considerando como idosas as pessoas com 60 anos ou mais, conforme estabelece a legislação brasileira, a relação projetada passa de 85 idosos para cada 100 crianças de 0 a 14 anos em 2025 para 107 em 2030.

Isso significa que, até o fim desta década, o Brasil deverá cruzar uma fronteira inédita: haverá mais pessoas idosas do que crianças.

Se considerado o corte de 65 anos ou mais, utilizado com frequência em comparações internacionais, a mudança ocorre posteriormente. A projeção aponta praticamente um empate em 2035, com 99 pessoas de 65 anos ou mais para cada 100 crianças, e uma relação de 121 para 100 em 2040.

A transformação da pirâmide etária não representa apenas uma mudança estatística. Ela altera a demanda por hospitais, consultas, medicamentos, reabilitação, atenção domiciliar, profissionais especializados e, principalmente, cuidados de longa duração.

E parte dessa pressão já pode ser medida.

O futuro já chegou dentro de milhões de casas

Em 2022, o Brasil tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Elas representavam aproximadamente 15,8% da população, contra 10,8% em 2010. Em 2024, a população idosa já havia alcançado 34,1 milhões de pessoas, segundo dados divulgados pelo IBGE.

A tendência é continuar.

As projeções mais recentes do instituto apontam que os brasileiros com 60 anos ou mais deverão representar cerca de 37,8% da população em 2070. O contingente poderá chegar a aproximadamente 75 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, o número de nascimentos continuará diminuindo e a população total brasileira deverá atingir seu pico por volta de 2041 para, depois, começar a encolher.

Mas o desafio não está apenas em quantos anos os brasileiros viverão.

Está em como eles chegarão a essas idades e quem cuidará deles.

Resultados apresentados em maio de 2026 pela terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), coordenado pela Fiocruz Minas em parceria com a UFMG, ajudam a dimensionar o problema.

Segundo a pesquisa, 20,4% dos idosos brasileiros têm dificuldade para realizar ao menos uma atividade básica da vida diária, como tomar banho, vestir-se, alimentar-se, usar o banheiro ou levantar-se da cama.

São aproximadamente 6,5 milhões de pessoas com algum grau de limitação funcional.

Entre os idosos com essas dificuldades, apenas 37,9% recebem ajuda. E somente 5,8% dos cuidadores entrevistados relataram ter recebido algum tipo de treinamento para exercer essa função.

O problema se intensifica conforme a idade avança. A limitação funcional atinge 13,9% das pessoas entre 60 e 69 anos, mas chega a 44,2% entre aquelas com 80 anos ou mais.

É um retrato que desloca o debate sobre envelhecimento: viver mais é uma conquista social, mas viver mais também exige uma estrutura de cuidado que o país terá de ampliar rapidamente.

O SUS terá de cuidar por mais tempo

O Sistema Único de Saúde está no centro dessa transformação.

O próprio Ministério da Saúde utiliza a estimativa de que cerca de 75% da população depende exclusivamente da rede pública para assistência à saúde. Mesmo brasileiros que possuem planos privados utilizam serviços do SUS, como vacinação, vigilância sanitária, transplantes e outras ações de alta complexidade.

Com o envelhecimento, muda também o tipo de cuidado necessário.

Doenças cardiovasculares, câncer, diabetes, doenças respiratórias, demências e outras condições crônicas tornam mais comum a necessidade de acompanhamento durante anos. Há pacientes que precisam simultaneamente de médicos, enfermagem, fisioterapia, medicamentos, reabilitação, assistência domiciliar e apoio aos familiares.

Por isso, o desafio não é apenas abrir mais leitos ou aumentar o número de consultas.

É transformar uma rede de saúde para que ela consiga acompanhar pessoas por períodos cada vez mais longos, preservar autonomia e evitar que problemas controláveis terminem em internações repetidas.

A Atenção Primária à Saúde assume papel fundamental nesse cenário porque está mais próxima da casa do paciente e pode acompanhar doenças crônicas, vacinação, alimentação, funcionalidade, uso de medicamentos e necessidade de encaminhamento para outros serviços.

A atenção domiciliar também ganha importância para uma população que, com o avanço da idade, poderá apresentar maior dificuldade de locomoção.

Cuidados paliativos deixam de ser exceção e entram na política nacional

Uma das respostas mais importantes do SUS para essa transformação surgiu em maio de 2024.

A Portaria GM/MS nº 3.681 instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), criando uma estrutura nacional para integrar esse cuidado à Rede de Atenção à Saúde.

Existe, porém, uma diferença importante: cuidado paliativo não significa apenas assistência nos últimos dias de vida.

A política prevê controle da dor e de outros sintomas, apoio psicológico, emocional, social e espiritual, comunicação com pacientes e familiares e planejamento do cuidado. Em atualização publicada em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde reforçou que os cuidados paliativos devem ser oferecidos às pessoas que tenham indicação o mais precocemente possível.

Quando a estratégia foi anunciada, o Ministério estimou que aproximadamente 625 mil brasileiros necessitavam desse tipo de assistência.

O desenho inicial previa cerca de 1,3 mil equipes pelo país, com investimento federal estimado em R$ 887 milhões por ano quando toda a estrutura estivesse habilitada.

A implementação começou gradualmente. Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde anunciou a habilitação das primeiras 14 equipes, distribuídas inicialmente entre Pelotas, Curitiba, Araguaína e Blumenau, com R$ 8 milhões anuais para custeio.

Em 2026, novas regras atualizaram o funcionamento das equipes e a organização da política. Em junho, uma portaria também atualizou o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde e a tabela de procedimentos vinculados aos cuidados paliativos no SUS.

A proposta inclui atuação não apenas nos hospitais, mas também na Atenção Primária, nos domicílios, ambulatórios especializados, serviços de urgência e unidades de cuidados prolongados.

É uma mudança importante porque aproxima a estrutura do SUS do perfil de população que o Brasil terá nas próximas décadas.

O maior desafio pode estar fora dos hospitais

Os números da Fiocruz também expõem uma questão que não se resolve apenas construindo hospitais.

Quem cuidará de uma população cada vez mais longeva quando ela perder autonomia?

Durante décadas, grande parte desse trabalho foi absorvida informalmente pelas próprias famílias. Mas as famílias brasileiras estão menores, têm menos filhos e seus integrantes passam mais tempo no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, aumenta o número de pessoas que podem precisar de ajuda durante meses ou anos.

Quando apenas 37,9% dos idosos com limitações em atividades básicas relatam receber ajuda e menos de 6% dos cuidadores dizem ter tido treinamento, fica evidente que saúde e assistência social terão de caminhar juntas.

Centros-dia, atendimento domiciliar, reabilitação, apoio ao cuidador, adaptação das cidades, prevenção de quedas, transporte acessível e políticas de combate ao isolamento social passam a fazer parte da mesma discussão.

O envelhecimento deixa, portanto, de ser apenas uma pauta médica.

É uma questão de planejamento urbano, trabalho, Previdência, renda, habitação, mobilidade e organização familiar.

O Brasil tem pouco tempo para se preparar

Há uma boa notícia nos dados demográficos: os brasileiros estão vivendo mais.

O problema surge quando a longevidade avança mais rapidamente do que a estrutura criada para sustentá-la.

A mesma projeção do IBGE que aponta 37,8% da população com 60 anos ou mais em 2070 estima que a idade mediana do brasileiro passará de 34,8 anos em 2023 para 51,2 anos no fim do período projetado.

Não será simplesmente um Brasil com “mais idosos”.

Será um país estruturalmente diferente.

A escola continuará importante, mas o cuidado de longa duração ganhará peso. A pediatria continuará essencial, mas geriatria, reabilitação, atenção domiciliar e cuidados paliativos terão uma demanda muito maior. As famílias continuarão cuidando, mas dificilmente conseguirão assumir sozinhas todas as necessidades.

A Política Nacional de Cuidados Paliativos, a Atenção Primária e os programas de atenção domiciliar mostram que algumas peças dessa transformação já começaram a ser montadas.

A questão agora é de velocidade.

Porque a mudança demográfica não está esperando 2039.

Ela já começou.

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