O maior desafio dos governos até 2050 não será a economia. Será uma população que vive cada vez mais
O Brasil está envelhecendo rapidamente, mas suas cidades, serviços de saúde e redes de cuidado ainda foram planejados para uma população mais jovem. O futuro exigirá muito mais do que equilibrar contas públicas: será necessário reorganizar o país para garantir autonomia, proteção e dignidade a milhões de pessoas idosas.
Durante décadas, o envelhecimento populacional foi apresentado como uma questão distante, algo que precisaria ser enfrentado pelas próximas gerações. Esse futuro, porém, já começou.
O Brasil tem mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Entre 2000 e 2023, a participação desse grupo na população quase dobrou, passando de 8,7% para 15,6%. As projeções indicam que, em 2042, os idosos poderão formar o maior grupo populacional do país. Em 2070, aproximadamente 37,8% dos brasileiros estarão nessa faixa etária.
O desafio, portanto, não será somente financiar aposentadorias, controlar gastos públicos ou sustentar o crescimento econômico. Será construir um país capaz de cuidar de uma população que viverá por mais tempo, mas que nem sempre chegará à velhice com saúde, renda, autonomia ou uma rede familiar disponível.
Viver mais não significa viver com independência
Os dados da terceira edição do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros, o ELSI-Brasil, revelam uma realidade preocupante.
Cerca de 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica do cotidiano, como tomar banho, vestir-se, alimentar-se, usar o banheiro ou levantar-se da cama. Isso representa aproximadamente 6,5 milhões de pessoas convivendo com algum nível de limitação funcional.
O problema se torna ainda mais grave quando se observa quem recebe ajuda. Entre os idosos que enfrentam essas dificuldades, apenas 37,9% contam com algum tipo de assistência. A maioria precisa lidar com limitações importantes sem apoio regular.
A idade amplia essa vulnerabilidade. Entre as pessoas de 60 a 69 anos, 13,9% apresentam dificuldades funcionais. No grupo com 80 anos ou mais, o percentual chega a 44,2%.
Esses números mostram que o aumento da expectativa de vida precisa ser acompanhado por políticas que preservem a capacidade de caminhar, alimentar-se, comunicar-se, tomar decisões e participar da sociedade. Sem isso, os anos adicionais podem representar um período prolongado de dependência.
Quem cuidará de quem precisa de ajuda?
Por muito tempo, o cuidado das pessoas idosas foi tratado como uma responsabilidade privada das famílias. Esse modelo se torna cada vez menos sustentável.
As famílias estão menores, há menos filhos disponíveis para cuidar dos pais, mais mulheres estão inseridas no mercado de trabalho e muitos parentes vivem em cidades diferentes. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que chegam à velhice sem filhos, sem companheiros ou sem uma rede próxima de apoio.
Mesmo quando existe um familiar disponível, quase sempre falta preparação. Segundo o ELSI-Brasil, somente 5,8% dos cuidadores entrevistados receberam algum tipo de treinamento para exercer essa função.
Cuidar de uma pessoa com dificuldade de mobilidade, demência, sequelas de um acidente vascular cerebral ou limitações causadas por doenças crônicas exige conhecimento. É necessário aprender a administrar medicamentos, prevenir quedas, realizar transferências, acompanhar a alimentação e reconhecer sinais de agravamento da saúde.
Sem orientação, tanto o idoso quanto o cuidador ficam vulneráveis. O resultado pode aparecer na forma de lesões, internações evitáveis, abandono do trabalho, sobrecarga emocional e adoecimento de quem assumiu o cuidado.
Até 2050, os governos precisarão reconhecer o cuidado como parte da infraestrutura essencial do país. Isso inclui capacitação, assistência domiciliar, centros de convivência, serviços de apoio aos familiares e profissionais preparados para atender uma população mais longeva.
As cidades também precisarão envelhecer
O envelhecimento não acontece apenas dentro de hospitais ou residências. Ele acontece nas calçadas, nos transportes, nos mercados, nas unidades de saúde e nos espaços públicos.
Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas, 42,7%, relata medo de cair devido a buracos, irregularidades nas calçadas ou problemas nas vias próximas de casa. Entre pessoas com 80 anos ou mais, esse percentual alcança 63,1%.
Uma calçada mal conservada pode parecer um problema pequeno para quem possui boa mobilidade. Para uma pessoa idosa, pode representar uma fratura, uma internação, meses de reabilitação e a perda definitiva da independência.
A insegurança pública também interfere na autonomia. Mais de 12% dos idosos consideram suas vizinhanças muito inseguras em relação à violência e à criminalidade. Quando uma pessoa deixa de sair de casa por medo de cair ou de sofrer violência, ela também perde acesso ao exercício físico, ao convívio social, ao comércio e aos serviços de saúde.
Preparar as cidades para a longevidade significa melhorar calçadas, iluminação, transporte coletivo, travessias, sinalização, acessibilidade e segurança. Significa criar ambientes nos quais alguém possa continuar participando da vida comunitária mesmo aos 70, 80 ou 90 anos.
O custo do envelhecimento vai além da aposentadoria
O envelhecimento populacional também terá impacto significativo sobre as contas públicas e familiares. A Secretaria do Tesouro Nacional estima que a mudança demográfica exigirá um acréscimo de R$ 67,2 bilhões em recursos públicos entre 2024 e 2034.
Nas famílias, os custos aparecem na compra de medicamentos, no pagamento de planos de saúde, consultas, exames, adaptações residenciais, cuidadores e instituições de longa permanência.
Os medicamentos já representam 33,7% das despesas das famílias brasileiras com saúde. E esse é apenas o custo mais visível.
Há também despesas que costumam surgir de maneira inesperada: instalação de barras de apoio, reformas em banheiros, mudanças de residência, cadeiras de rodas, alimentação especializada, fisioterapia e afastamento de familiares do trabalho para assumir o cuidado.
Os brasileiros estão vivendo mais, mas isso não significa que estejam chegando à velhice com maior patrimônio ou renda suficiente para sustentar décadas de aposentadoria. A expectativa de vida, atualmente em torno de 76 anos, poderá ultrapassar os 83 anos em 2070. Serão mais anos de vida, consumo, necessidade de assistência e exposição a doenças crônicas.
Por isso, o debate econômico será inevitável. Mas ele não poderá ser resolvido apenas por meio de mudanças previdenciárias. Sem prevenção, reabilitação e preservação da autonomia, os gastos com internações, medicamentos e cuidado intensivo tendem a aumentar.
Prevenir a dependência será uma das principais políticas públicas
A pesquisa identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis de pressão arterial compatíveis com hipertensão, o equivalente a aproximadamente 11 milhões de brasileiros.
Sem acompanhamento, a hipertensão pode contribuir para infartos, acidentes vasculares cerebrais, insuficiência renal e demência vascular. Essas condições não afetam apenas a saúde. Elas podem transformar uma pessoa independente em alguém que necessita de assistência permanente.
Investir em prevenção significa acompanhar doenças crônicas, estimular atividade física, garantir vacinação, combater o isolamento social e facilitar o acesso ao diagnóstico precoce.
A reabilitação também terá um papel estratégico. Tratamentos voltados à recuperação ou manutenção da funcionalidade podem diminuir internações, reduzir a dependência e permitir que as pessoas continuem realizando atividades básicas.
Na AACD, por exemplo, os idosos já representam 25% dos pacientes atendidos, acima dos cerca de 19% registrados em 2021. A mudança no perfil dos atendimentos antecipa o que deverá ocorrer em toda a rede de saúde nas próximas décadas.
O país precisará deixar de medir o sucesso apenas pelo número de anos vividos. Também será necessário observar quantos desses anos são vividos com independência.
O SUS estará no centro dessa transformação
Cerca de dois terços dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde. Além disso, 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família.
Isso coloca o SUS no centro da resposta ao envelhecimento populacional.
As equipes de atenção básica terão de acompanhar pacientes com múltiplas doenças crônicas, identificar sinais de perda funcional, orientar familiares, prevenir quedas e articular atendimentos especializados. Ao mesmo tempo, será necessário ampliar serviços de geriatria, fisioterapia, terapia ocupacional, saúde mental, cuidados paliativos e assistência domiciliar.
O sistema de saúde também precisará superar uma lógica concentrada no tratamento de episódios agudos. Uma população longeva exige acompanhamento contínuo, integração entre profissionais e planejamento de longo prazo.
Uma questão que envolve todas as gerações
O envelhecimento não é um problema exclusivo de quem já passou dos 60 anos. As decisões tomadas agora determinarão como as pessoas de 30, 40 ou 50 anos viverão no futuro.
Também afetarão os filhos, netos e familiares que poderão assumir responsabilidades de cuidado sem estrutura financeira, profissional ou emocional.
Preparar o país para a longevidade exige integrar saúde, urbanismo, moradia, mobilidade, trabalho, previdência, educação e assistência social. Não basta criar programas isolados ou reagir quando a dependência já está instalada.
O Brasil precisa planejar cidades nas quais idosos consigam circular, residências que possam ser adaptadas, serviços de saúde capazes de prevenir incapacidades e redes de apoio que não abandonem famílias diante da necessidade de cuidado.
O maior desafio dos governos até 2050 não será simplesmente administrar uma população numerosa. Será garantir que milhões de pessoas possam continuar vivendo com autonomia, segurança, participação e dignidade.
Porque viver mais é uma conquista. Transformar essa conquista em qualidade de vida será uma das maiores responsabilidades públicas deste século.
Fontes utilizadas: Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros, realizado pela Fiocruz Minas e UFMG; projeções demográficas do IBGE; dados da Secretaria do Tesouro Nacional; informações divulgadas pela AACD.
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