As chamadas canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida conseguem produzir reduções de peso que poucos tratamentos farmacológicos alcançavam até alguns anos atrás e, para pacientes com indicação adequada, os benefícios podem incluir melhora de fatores metabólicos e redução de riscos associados à obesidade.
O resultado na balança, porém, não conta sozinho o que aconteceu com o organismo. Essa questão merece atenção especial depois dos 50 ou 60 anos e, particularmente, entre mulheres que atravessaram a menopausa. Nessa fase, alterações na distribuição de gordura e na quantidade de massa muscular já podem ocorrer pela combinação de envelhecimento, mudanças hormonais, alimentação e nível de atividade física.
Isso não torna as canetas inadequadas para mulheres mais velhas. Também não significa que o tratamento necessariamente leve à perda muscular prejudicial. A evidência disponível aponta para um cenário mais complexo, no qual indicação correta, composição corporal, alimentação, exercícios e acompanhamento ajudam a definir se a perda de peso está trazendo benefício para aquela pessoa.
O que essas canetas realmente fazem
A semaglutida pertence ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1. A tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1. Entre outros efeitos, esses medicamentos aumentam a saciedade, reduzem a ingestão de alimentos e retardam o esvaziamento do estômago.
No Brasil, o Wegovy, à base de semaglutida, é aprovado para controle de peso em adultos com obesidade, definida por IMC a partir de 30 kg/m², ou com IMC a partir de 27 kg/m² quando existe pelo menos uma condição relacionada ao peso, como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono ou doença cardiovascular. A tirzepatida, comercializada como Mounjaro, recebeu da Anvisa indicação para controle crônico do peso em condições semelhantes em 2025.
Os resultados dos estudos explicam parte do interesse. No SURMOUNT-1, pacientes tratados com tirzepatida tiveram redução média de peso entre 15% e 20,9% após 72 semanas, dependendo da dose.
Há benefícios que não se limitam à balança. Em 2026, a Anvisa ampliou a indicação do Wegovy para redução do risco de eventos cardiovasculares graves em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso, com base em evidências obtidas em estudos clínicos.
Depois dos 50, músculo também entra na conta
Toda perda de peso relevante pode envolver alguma redução de massa magra, e isso não acontece exclusivamente com as canetas. A preocupação entre pessoas mais velhas surge porque a reserva muscular tende a ser menor e a perda de força pode ter consequências mais importantes para mobilidade e independência.
Nas mulheres, a transição para a menopausa costuma vir acompanhada de mudanças na composição corporal. Estudos observam aumento da gordura abdominal e redução de massa magra e força, embora seja difícil separar completamente o efeito da menopausa daquele provocado pelo próprio envelhecimento, hábitos e nível de atividade física.
Quando entram as canetas, a ciência ainda não permite afirmar que esses medicamentos provoquem sarcopenia de forma generalizada. Revisões recentes encontraram perda de massa muscular em parte dos pacientes, mas os dados sobre força, função e risco específico para idosos continuam limitados e por vezes divergentes.
Um estudo prospectivo publicado em 2026 ajuda a mostrar essa nuance. Entre pacientes com obesidade tratados com semaglutida, houve redução inicial de massa magra, que depois se estabilizou. Ao mesmo tempo, a força de preensão das mãos melhorou ao longo de 12 meses. Os resultados não eliminam a preocupação com os músculos, mas mostram por que massa corporal, força e função precisam ser avaliadas em conjunto.
Os efeitos adversos também precisam entrar na decisão
Náusea, vômitos, diarreia, constipação e desconforto gastrointestinal estão entre os efeitos mais frequentes dessa classe de medicamentos, especialmente durante o aumento gradual da dose.
Para uma pessoa mais velha, episódios prolongados de náusea ou falta de apetite podem ter uma consequência adicional: comer tão pouco que se torna difícil atingir quantidades adequadas de proteína, energia, vitaminas e minerais. Por isso, tolerar o medicamento não significa apenas conseguir continuar aplicando a injeção.
Existem também eventos menos frequentes, mas potencialmente graves. Em fevereiro de 2026, a Anvisa reforçou o alerta para pancreatite aguda associada aos medicamentos da classe, especialmente diante do uso sem indicação e acompanhamento adequados. Dor abdominal intensa e persistente, principalmente quando acompanhada de vômitos, exige avaliação médica.
A tirzepatida também está associada a eventos gastrointestinais e relacionados à vesícula biliar. Já a semaglutida teve incluído entre seus alertas um evento ocular considerado muito raro, a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, que pode causar perda súbita da visão.
Esses riscos não significam que o medicamento seja perigoso para a maioria dos pacientes. Fazem parte da avaliação entre benefício e risco que acompanha qualquer tratamento farmacológico.
O que vale acompanhar durante o tratamento
Para mulheres depois dos 50, principalmente quando já existe pouca massa muscular, fragilidade ou grande redução do apetite, algumas perguntas ajudam a observar o tratamento para além dos quilos perdidos:
- a força e a disposição estão sendo preservadas?
- a alimentação continua fornecendo proteína e nutrientes suficientes?
- existe treinamento de força compatível com a condição física?
- náuseas, vômitos ou constipação estão dificultando a alimentação e a hidratação?
- a redução de peso está acompanhada de melhora de pressão, glicemia, mobilidade ou outros objetivos definidos no início?
Revisões voltadas a adultos mais velhos defendem justamente a combinação do tratamento farmacológico com exercício resistido e atenção à ingestão proteica. As recomendações precisam ser individualizadas, sobretudo quando existem doença renal, fragilidade ou outras condições que alteram as necessidades nutricionais.
Desde junho de 2025, medicamentos agonistas de GLP-1 também só podem ser vendidos no Brasil com retenção da receita, medida adotada pela Anvisa para ampliar o controle sobre o uso dessa classe.
E quando a caneta é suspensa?
O tratamento da obesidade também levanta uma questão menos visível nas imagens de antes e depois: como manter o resultado.
Na extensão do estudo STEP 1, participantes que interromperam a semaglutida recuperaram, em média, cerca de dois terços do peso que haviam perdido no ano seguinte à suspensão. Os autores destacaram que os resultados reforçam o caráter crônico da obesidade e a necessidade de estratégias de longo prazo.
Isso não significa que todas as pessoas recuperarão o peso nem que o medicamento precise ser usado indefinidamente por todos. A duração do tratamento é uma decisão individual. O dado mostra, porém, que alimentação, atividade física, manutenção da massa muscular e acompanhamento não devem ser deixados apenas para o momento de interromper a medicação.
Para mulheres mais velhas, o objetivo do tratamento não deveria ser avaliado apenas pela diferença entre o peso inicial e o peso final. Redução de gordura, preservação de força e músculos, melhora das condições associadas à obesidade, tolerância ao medicamento e capacidade de sustentar o resultado também fazem parte da avaliação.
As canetas ampliaram de forma importante as possibilidades de tratamento da obesidade. O desafio agora é usar essa ferramenta com o mesmo cuidado dedicado ao número que aparece na balança.
Fontes:
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Wegovy (semaglutida): indicação para controle de peso.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Mounjaro (tirzepatida): nova indicação para controle crônico do peso.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Alerta para risco de pancreatite aguda associado ao uso indevido de canetas emagrecedoras.
- New England Journal of Medicine. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity, SURMOUNT-1.
- New England Journal of Medicine. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes, SELECT.
- PubMed. Menopause and Body Composition: A Complex Field.
- PubMed. GLP-1 Receptor Agonists for Obesity Management in Older Adults: A Scoping Review on the Risk of Sarcopenia and Sarcopenic Obesity.
- PubMed. Impact of Semaglutide on fat mass, lean mass and muscle function in patients with obesity: The SEMALEAN study.
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