Tecnologia

Longevidade virou megatendência global: o que muda quando viver mais deixa de ser exceção

Wearables, inteligência artificial, monitoramento remoto e casas inteligentes mostram como o envelhecimento da população está mudando a indústria de tecnologia.

Longevidade virou megatendência global: o que muda quando viver mais deixa de ser exceção
Prefere ouvir? Toque para o portal ler a matéria para você.

Na CES (Consumer Electronics Show) 2026, uma das maiores feiras de tecnologia do mundo, longevidade apareceu entre as três macrotendências apontadas para o setor, ao lado da inteligência artificial e das novas soluções de engenharia e infraestrutura.

O destaque foi para tecnologias capazes de acompanhar a saúde ao longo do tempo, facilitar tarefas cotidianas e ajudar pessoas a manter autonomia por mais anos. Relógios inteligentes, sensores domésticos, inteligência artificial, telemedicina e equipamentos voltados à mobilidade fazem parte desse movimento.

A mudança acompanha uma transformação demográfica. Segundo a Organização Mundial da Saúde, haverá cerca de 1,4 bilhão de pessoas com 60 anos ou mais em 2030. Em 2050, serão aproximadamente 2,1 bilhões.

Esse público crescente começa a influenciar diretamente aquilo que a indústria desenvolve.

A saúde começa a ser acompanhada fora do consultório

Uma das principais mudanças está na quantidade de informações que podem ser coletadas durante a rotina.

Smartwatches, anéis inteligentes e outros dispositivos vestíveis já conseguem acompanhar dados como frequência cardíaca, atividade física, sono e respiração. Dependendo do equipamento, também existem recursos como eletrocardiograma e detecção de quedas.

Na CES 2026, a área de saúde digital reuniu tecnologias voltadas à detecção precoce, monitoramento remoto, telemedicina e uso de inteligência artificial.

A diferença está na continuidade. Em vez de uma medição realizada apenas durante uma consulta, determinados dispositivos conseguem registrar informações durante dias, meses ou anos e indicar mudanças em relação ao padrão habitual do usuário.

Isso não transforma o relógio em médico. A precisão varia entre equipamentos e qualquer alteração relevante precisa ser avaliada dentro de um contexto clínico.

A casa também está entrando nessa transformação

Outra frente crescente é a tecnologia voltada ao chamado aging in place, conceito relacionado à possibilidade de envelhecer na própria casa mantendo segurança e independência.

Sensores podem detectar quedas e mudanças incomuns de movimento sem necessariamente instalar câmeras nos ambientes. Sistemas conectados conseguem acompanhar atividades rotineiras, enquanto equipamentos de reabilitação permitem que determinados exercícios sejam monitorados à distância.

Assistentes de voz, iluminação automatizada, fechaduras inteligentes e outros dispositivos domésticos também ganham novas aplicações quando pensados para pessoas mais velhas.

O objetivo não é automatizar toda a vida, mas facilitar atividades que podem se tornar mais difíceis e identificar situações de risco mais rapidamente.

Inteligência artificial entra na saúde da longevidade

A inteligência artificial aparece conectando muitas dessas ferramentas.

Sistemas podem analisar grandes volumes de dados produzidos por sensores e reconhecer alterações que seriam difíceis de perceber observando cada medição separadamente.

Na CES, por exemplo, foram apresentados equipamentos que utilizam câmeras de profundidade e inteligência artificial para avaliar características relacionadas à sarcopenia, condição marcada pela perda de força e massa muscular.

Outras soluções utilizam IA para acompanhar exercícios de reabilitação, organizar informações clínicas ou identificar mudanças em indicadores de saúde.

A OMS reconhece o potencial dessas tecnologias na prevenção, diagnóstico e acompanhamento de doenças, mas também ressalta que elas não substituem profissionais de saúde.

Tecnologia para continuar independente

Nem toda inovação ligada à longevidade precisa parecer futurista.

Aparelhos auditivos, recursos para mobilidade, ferramentas de acessibilidade em smartphones e dispositivos para pessoas com limitações visuais também fazem parte desse mercado.

Segundo a OMS, mais de 2,5 bilhões de pessoas no mundo precisam de algum tipo de tecnologia assistiva. Pessoas mais velhas estão entre os principais grupos que utilizam esses recursos.

A diferença é que tecnologias antes separadas começam a se misturar. Smartphones ampliam textos e reconhecem objetos, fones incorporam recursos relacionados à audição e relógios podem enviar alertas quando identificam uma queda.

Na CES 2026, acessibilidade apareceu justamente conectada a inteligência artificial, casas inteligentes e dispositivos vestíveis.

Nem tudo que promete longevidade entrega o mesmo

O crescimento desse mercado também exige atenção. Palavras como “longevidade”, “idade biológica”, “prevenção” e “monitoramento de saúde” aparecem em produtos com níveis muito diferentes de evidência científica.

Antes de comprar, vale verificar o que o equipamento realmente mede, se existe validação independente para aquela função, como os dados são armazenados e se o recurso resolve uma necessidade concreta.

Também é importante distinguir produtos voltados ao bem-estar daqueles que possuem finalidade médica.

A longevidade ganhou espaço entre as tendências da tecnologia porque o envelhecimento da população não será passageiro. A indústria começa a perceber que produtos, casas e serviços precisarão funcionar para pessoas que viverão por mais tempo e terão necessidades diferentes ao longo dessas décadas.

Nesse cenário, a inovação mais útil pode não ser aquela que promete acrescentar anos à vida, mas aquela capaz de oferecer mais autonomia, segurança e acesso ao cuidado durante os anos que já estamos ganhando.

Fontes:

  • Organização Mundial da Saúde. Ageing and health, atualização de 2025.
  • Nações Unidas. World Population Prospects 2024.
  • IBGE. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação: 2000-2070, revisão 2024.
  • Consumer Technology Association, CES 2026. Tech Trends to Watch e balanço da CES 2026.
  • World Economic Forum. Future-Proofing the Longevity Economy: Innovations and Key Trends, 2025.
  • Forbes Brasil. CES 2026 apresenta as três macrotendências que dominarão a tecnologia este ano, janeiro de 2026.
  • Foto/reprodução: Consumer Technology Association (CTA)

Comentários

Carregando comentários…

Deixe seu comentário