Política

Menos filhos, mais idosos: quem vai cuidar do Brasil nas próximas décadas?

Queda dos nascimentos e envelhecimento da população devem mudar a demanda por serviços de cuidado e reduzir o número de familiares disponíveis para assumir essa função.

Menos filhos, mais idosos: quem vai cuidar do Brasil nas próximas décadas?
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O Brasil caminha para ter menos crianças, famílias menores e uma proporção muito maior de pessoas idosas. Essa mudança demográfica já começou e deve alterar profundamente a forma como o país organiza serviços como atendimento domiciliar, centros-dia, assistência social e cuidados de longa duração.

Segundo as projeções mais recentes do IBGE, o número de nascimentos caiu de 3,6 milhões em 2000 para 2,6 milhões em 2022 e pode chegar a cerca de 1,5 milhão em 2070. A taxa de fecundidade, que indica o número médio de filhos por mulher, passou de 2,32 em 2000 para 1,57 em 2023.

Ao mesmo tempo, a população envelhece rapidamente. Pessoas com 60 anos ou mais representavam 15,6% dos brasileiros em 2023. Em 2070, a projeção é de que correspondam a 37,8% da população. O resultado será uma transformação não apenas no tamanho do país, mas principalmente na sua estrutura etária.

Famílias menores mudam a rede de apoio

Durante décadas, grande parte do cuidado de pessoas idosas dependentes no Brasil foi absorvida dentro das próprias famílias. Filhos, cônjuges e outros parentes assumem tarefas que podem ir de compras e preparação de refeições até banho, administração de medicamentos e acompanhamento em consultas.

A redução da fecundidade interfere nessa estrutura. Uma geração com três ou quatro filhos potencialmente podia dividir responsabilidades entre mais pessoas. Nas famílias com um filho ou sem filhos, essa rede tende a ser menor.

Isso não significa que toda pessoa idosa precisará de cuidados ou que filhos sejam obrigatoriamente seus cuidadores. Também não é possível calcular a futura oferta de cuidado apenas pelo número de nascimentos. Condições de saúde, renda, composição das famílias, migração, participação no mercado de trabalho e disponibilidade de serviços públicos e privados também pesam nessa equação.

Ainda assim, a combinação entre famílias menores e aumento do número de pessoas em idades avançadas é reconhecida há anos por pesquisadores como um dos desafios para o sistema brasileiro de cuidados. Estudos do Ipea já apontavam que a redução do tamanho das famílias, associada a mudanças sociais e à maior participação feminina no mercado de trabalho, tende a diminuir a disponibilidade de cuidadores familiares.

O cuidado já ocupa boa parte da rotina das famílias

A questão não pertence apenas ao futuro. Dados da PNAD Contínua mostram que, em 2022, 150,1 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais realizaram afazeres domésticos ou atividades de cuidado de pessoas.

A distribuição desse trabalho permanece desigual. Entre pessoas ocupadas, as mulheres dedicavam, em média, 6,8 horas semanais a mais do que os homens aos afazeres domésticos e ao cuidado. Atividades como alimentar, vestir, dar banho e administrar medicamentos também apresentavam participação feminina maior.

Com menos parentes disponíveis, manter um modelo fortemente dependente do cuidado familiar pode se tornar progressivamente mais difícil, sobretudo quando o responsável pelo cuidado também precisa trabalhar.

O desafio cresce com a idade. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 identificou que 9,5% das pessoas com 60 anos ou mais apresentavam limitações para atividades básicas da vida diária. Entre aquelas com 75 anos ou mais, a proporção chegava a 18,5%. Isso inclui dificuldades para tarefas como se alimentar, vestir-se, cuidar da higiene pessoal ou se movimentar.

A demanda muda de lugar

A queda dos nascimentos pode reduzir gradualmente a pressão sobre determinados serviços voltados à infância em algumas regiões. Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de estruturas capazes de acompanhar pessoas idosas que perderam parte da autonomia.

Não se trata simplesmente de trocar creches por instituições para idosos. Os serviços exigem profissionais, estruturas e modelos assistenciais diferentes. Além disso, a transformação demográfica não ocorrerá no mesmo ritmo em todos os estados e municípios.

O próprio IBGE projeta que a população brasileira deverá alcançar um máximo de aproximadamente 220,4 milhões de habitantes em 2041 e começar a diminuir depois disso, chegando a cerca de 199,2 milhões em 2070. A mudança ocorrerá de maneira desigual pelo território, o que torna o planejamento local ainda mais importante.

Para governos e empresas, olhar apenas para o total de habitantes pode, portanto, esconder a principal transformação. Mesmo com uma população menor no futuro, o país poderá precisar de mais serviços de cuidado destinados às pessoas idosas.

O que precisará crescer

A tendência demográfica coloca diferentes modelos de atendimento no centro do planejamento para as próximas décadas. Entre eles estão o cuidado profissional no domicílio, centros-dia, serviços de reabilitação, acompanhamento pela atenção primária, apoio aos cuidadores familiares e instituições de longa permanência para quem realmente necessita desse tipo de assistência.

O Brasil começou a estruturar uma resposta nacional. A Política Nacional de Cuidados foi instituída pela Lei nº 15.069, de dezembro de 2024, e prevê responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, sociedade civil e setor privado. Entre os públicos prioritários estão pessoas idosas que necessitam de auxílio para atividades da vida diária.

O Plano Nacional de Cuidados, regulamentado posteriormente, inclui iniciativas de atendimento domiciliar e apoio a quem cuida. Em 2026, o governo iniciou um projeto-piloto de cuidado domiciliar integrado em Fortaleza, Colombo, no Paraná, e Juazeiro, na Bahia, justamente para atender idosos que precisam de auxílio cotidiano e apoiar familiares responsáveis pelo cuidado não remunerado.

O que observar nas próximas décadas

Para acompanhar essa transformação, alguns indicadores serão especialmente importantes: crescimento da população com 75 e 80 anos ou mais, número de pessoas com limitações para atividades diárias, disponibilidade de cuidadores profissionais, expansão do atendimento domiciliar e dos centros-dia e diferenças regionais no envelhecimento.

Também será necessário observar o custo desses serviços e quem conseguirá acessá-los. Se a oferta formal não acompanhar o crescimento da demanda, uma parcela maior da responsabilidade continuará recaindo sobre as famílias, justamente quando elas estarão menores.

Planejar o cuidado antes que a demanda chegue

A queda da natalidade costuma aparecer no debate público associada ao tamanho futuro da população, à Previdência ou ao mercado de trabalho. Seus efeitos sobre o cuidado são igualmente importantes.

O Brasil está passando de uma estrutura com muitas crianças e adultos jovens para outra com participação crescente de pessoas idosas. Essa mudança acontece ao longo de décadas, mas os serviços necessários para acompanhá-la exigem formação de profissionais, financiamento, infraestrutura e planejamento antecipado.

O desafio, portanto, não é simplesmente ter menos pessoas no país. É preparar uma rede de cuidados compatível com uma população que terá menos filhos, famílias menores e muito mais brasileiros chegando às idades em que a necessidade de apoio tende a aumentar.

Fontes:

  • IBGE – Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação, revisão 2024.
  • IBGE – PNAD Contínua: Outras Formas de Trabalho 2022.
  • IBGE – Pesquisa Nacional de Saúde 2019.
  • Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – estudos sobre cuidados de longa duração e envelhecimento populacional.
  • Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome – Política Nacional de Cuidados e Plano Nacional de Cuidados – Brasil que Cuida.
  • Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024 – Política Nacional de Cuidados.

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