Durante décadas, a lógica mais comum da assistência à saúde foi simples: o paciente procura uma unidade, consulta um profissional e recebe o atendimento.
Mas o que acontece quando envelhecer torna esse deslocamento difícil ou até impossível?
Essa é uma questão que começa a ganhar espaço também nas políticas públicas brasileiras. O Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil, está ampliando a presença de equipes do SUS dentro da casa de pessoas com 60 anos ou mais que possuem limitações funcionais e dificuldade para chegar aos serviços de saúde.
O programa foi instituído pelo Ministério da Saúde no fim de 2025 e lançado nacionalmente em junho de 2026. Diferentemente de uma proposta ainda em discussão, ele já possui regulamentação, financiamento federal e municípios credenciados para receber os recursos.
791 municípios já estão no programa
Segundo os dados mais atuais disponibilizados pelo Ministério da Saúde, 1,2 mil equipes multiprofissionais foram credenciadas em 791 municípios, com potencial de beneficiar cerca de 427 mil pessoas idosas em 2026.
A previsão anunciada pelo governo é investir cerca de R$ 500 milhões, sendo R$ 163,2 milhões em 2026 e R$ 329,3 milhões em 2027. Os municípios participantes podem receber um incentivo adicional para ampliar a atuação das equipes multiprofissionais da Atenção Primária.
Essas equipes podem reunir profissionais de diferentes áreas, conforme a organização de cada município, e trabalham em conjunto com a atenção básica.
O atendimento não é destinado a qualquer pessoa simplesmente por ter mais de 60 anos. A prioridade são idosos restritos ao domicílio, especialmente aqueles com limitações funcionais, fragilidade, condições crônicas ou comprometimentos que dificultem o acesso aos serviços convencionais.
Entre as ações previstas estão avaliação multidimensional, acompanhamento do plano de cuidados, atendimento multiprofissional e orientação às famílias e aos cuidadores.
Quando o sistema precisa chegar até o paciente
Mais do que criar uma nova modalidade de atendimento, o Padi chama atenção para uma questão que tende a acompanhar o envelhecimento brasileiro: a estrutura dos serviços públicos também terá de mudar à medida que a população envelhece.
Uma pessoa independente aos 65 anos pode continuar indo normalmente à unidade de saúde. Aos 80 ou 90, porém, limitações de mobilidade, fragilidade, demência ou outras condições podem transformar uma simples consulta em uma operação que envolve familiares, transporte e cuidadores.
Nesse cenário, levar parte do cuidado até a residência pode ajudar a manter o acompanhamento de saúde sem exigir que toda necessidade termine em uma ida ao pronto atendimento ou ao hospital.
O próprio desenho do Padi coloca a preservação da capacidade funcional entre seus objetivos. A proposta não é apenas tratar doenças dentro de casa, mas acompanhar a pessoa idosa de maneira mais contínua e identificar necessidades antes que elas se transformem em problemas maiores.
Saúde pública em um país que vive mais
A discussão vai além da medicina.
Quando uma população envelhece, aumenta também a necessidade de decidir como o cuidado será dividido entre famílias, comunidades e poder público.
Até onde a família consegue cuidar sozinha? Quantos profissionais serão necessários? É possível evitar internações com acompanhamento mais próximo? E como cidades pequenas, com menos profissionais disponíveis, conseguirão estruturar esse tipo de serviço?
São perguntas que devem aparecer cada vez mais na agenda pública brasileira.
O Padi também revela outra característica desse desafio: embora exista financiamento federal, boa parte da execução acontece nos municípios. São as administrações locais que organizam suas equipes e estruturam a assistência de acordo com a realidade da população atendida.
Por isso, estar entre os municípios credenciados não significa necessariamente que todos os idosos elegíveis já estejam recebendo visitas. Os 427 mil beneficiários divulgados pelo Ministério da Saúde representam o potencial de alcance do programa, e a implementação pode variar de uma cidade para outra.
O endereço da longevidade também é a casa
Na década de 1990, uma experiência no Hospital Municipal Paulino Werneck, no Rio de Janeiro, já demonstrava um problema que continua atual: idosos recebiam alta, voltavam para casa e, sem acompanhamento adequado, acabavam retornando ao hospital.
A iniciativa de levar médicos, enfermagem, fisioterapia, psicologia e apoio aos cuidadores até essas residências foi uma das experiências que inspiraram o programa nacional lançado décadas depois.
Hoje, a dimensão do desafio é outra.
O Brasil está envelhecendo e viver mais significa também conviver durante mais tempo com diferentes níveis de autonomia. Para uma parcela da população, envelhecimento saudável será continuar caminhando até a unidade de saúde. Para outra, significará conseguir receber um profissional sem precisar sair de casa.
O início de uma política nacional voltada especificamente para esse atendimento mostra uma mudança importante: preparar o país para a longevidade também significa repensar onde, como e por quem o cuidado será oferecido.
Fontes consultadas
- Ministério da Saúde — Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil) e Atenção Domiciliar na Atenção Primária.
- Ministério da Saúde — Balanço da Atenção Primária, com dados de 1,2 mil equipes credenciadas, 791 municípios e potencial de 427 mil pessoas idosas beneficiadas em 2026.
- Ministério da Saúde — Portaria GM/MS nº 9.584, de 22 de dezembro de 2025, que instituiu o Padi Brasil.
- Agência Brasil — “Programa de atenção domiciliar amplia cuidado aos idosos no país”, publicada em 18 de junho de 2026.
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