O Japão ultrapassou pela primeira vez a marca de 100 mil pessoas com 100 anos ou mais. Em setembro de 2026, o país tinha 107.677 centenários, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês. São quase 8 mil a mais do que no ano anterior e um número muito distante dos 153 registrados quando o levantamento começou, em 1963.
A maioria é formada por mulheres. Dos atuais centenários, 94.298 são mulheres e 13.379 são homens. O crescimento desse grupo reflete avanços acumulados em saúde pública, alimentação, condições de vida e medicina, fatores apontados pelo próprio governo japonês para explicar o aumento da longevidade.
O dado, porém, ganhou uma dimensão que ultrapassa a celebração individual de quem chegou aos 100 anos. O Japão precisa administrar uma população que vive cada vez mais enquanto o número de pessoas disponíveis para trabalhar, pagar impostos e prestar serviços diminui.
O recorde acontece em um país que está encolhendo
Em agosto de 2026, a população japonesa era estimada em 122,68 milhões de habitantes, 590 mil a menos do que um ano antes. Dados detalhados de março mostram 36,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, enquanto o grupo de 15 a 64 anos somava 73,29 milhões. A população com 75 anos ou mais já passava de 21 milhões.
Ao mesmo tempo, há cada vez menos crianças. Em abril de 2026, o Japão tinha 13,29 milhões de menores de 15 anos, o menor número já registrado e o 45º ano consecutivo de queda.
Essa combinação modifica a lógica das políticas públicas. Durante grande parte do século 20, sistemas de previdência e proteção social foram organizados em sociedades com grande contingente de trabalhadores e uma parcela proporcionalmente menor de idosos. Quando essa relação se inverte, governos precisam decidir como distribuir custos e serviços entre gerações.
O próprio Ministério da Saúde japonês projeta que, em 2040, cerca de 35% da população terá 65 anos ou mais. Para 2070, a população total pode ficar abaixo dos 90 milhões e a taxa de envelhecimento deve se aproximar de 39%.
Previdência e orçamento entram no centro da discussão
O envelhecimento já aparece diretamente nas contas públicas japonesas. No orçamento do ano fiscal de 2026, cerca de 56% das despesas gerais do governo estão relacionadas à seguridade social. O Ministério da Saúde informa ainda que aproximadamente 98% de seu próprio orçamento está comprometido com despesas obrigatórias, como pensões e saúde.
Isso não significa que os centenários, isoladamente, sejam responsáveis pelo crescimento dos gastos. Eles representam uma parcela pequena dentro de um universo de mais de 36 milhões de japoneses com 65 anos ou mais. O desafio político está na transformação de toda a estrutura etária.
O sistema previdenciário já vem sendo ajustado. Uma reforma aprovada em 2025 ampliou a cobertura das contribuições sociais para parte dos trabalhadores em jornadas reduzidas e alterou regras que afetavam quem continuava trabalhando enquanto recebia aposentadoria. A OCDE avalia que o país terá de continuar discutindo emprego em idades mais avançadas, produtividade e financiamento da previdência à medida que a expectativa de vida aumenta.
Quem vai cuidar de uma população tão idosa?
A questão do cuidado talvez seja uma das faces mais concretas dessa mudança.
O Japão possui um sistema público de seguro para cuidados de longa duração desde 2000, responsável por ajudar a financiar serviços destinados a pessoas que precisam de apoio para atividades cotidianas. Com o envelhecimento populacional, cresce também a necessidade de trabalhadores nessa área.
O Ministério da Saúde estima que o país precise de aproximadamente 2,4 milhões de profissionais de cuidado em 2026. Em 2040, seriam necessários cerca de 2,72 milhões, 570 mil a mais do que o número existente em 2022.
Entre as respostas adotadas pelo governo estão programas de formação, melhoria das condições de trabalho, medidas para reduzir a saída de profissionais, aumento da produtividade dos serviços e ampliação das condições para receber trabalhadores estrangeiros.
O problema é matemático. A população que demanda cuidado cresce enquanto diminui o contingente tradicionalmente disponível para fornecê-lo.
Trabalhar por mais tempo também entrou na agenda
Outra consequência aparece no mercado de trabalho. A população japonesa em idade ativa caiu de 87,3 milhões de pessoas em 1995 para 73,7 milhões em 2024, segundo a OCDE. A organização projeta uma nova redução de 31% entre 2023 e 2060 caso as tendências demográficas se mantenham.
O Japão já apresenta taxas elevadas de emprego entre pessoas mais velhas. Entre 2014 e 2024, a proporção de pessoas de 55 a 64 anos empregadas subiu e chegou a 79,2%. Mudanças legais também passaram a exigir das empresas mecanismos para manter trabalhadores empregados até os 65 anos.
Esse movimento coloca temas politicamente delicados na mesa: idade de aposentadoria, valor dos benefícios, contribuição dos trabalhadores, participação feminina no mercado, imigração, requalificação profissional e condições para quem deseja ou precisa permanecer trabalhando em idades mais avançadas.
São decisões que envolvem interesses diferentes entre gerações e não têm uma resposta única.
O que o Brasil pode observar nessa experiência
O Japão está muito mais avançado na transição demográfica, mas o Brasil caminha na mesma direção.
Segundo as projeções mais recentes do IBGE, a participação das pessoas com 60 anos ou mais na população brasileira passou de 8,7% em 2000 para 15,6% em 2023. Em 2070, esse grupo poderá representar cerca de 37,8% da população.
Para acompanhar esse debate, três questões ajudam a entender o que realmente está em jogo: de onde virão os recursos para financiar aposentadorias, saúde e cuidado; quem formará a força de trabalho necessária para atender uma população mais velha; e como adaptar o mercado para vidas profissionais potencialmente mais longas sem transformar longevidade em obrigação de trabalhar indefinidamente.
O marco dos 100 mil centenários chama atenção pelo número, mas a mudança política mais profunda acontece abaixo dele. Quando uma sociedade passa a ter menos crianças, menos trabalhadores e um número crescente de pessoas vivendo até idades avançadas, envelhecimento deixa de ser apenas uma questão de saúde. Ele passa a influenciar orçamento, emprego, imigração, previdência, cidades e a própria organização do Estado.
O Japão já está tomando essas decisões. Para países que envelhecem rapidamente, acompanhar o que funciona e onde surgem tensões ajuda a antecipar debates que tendem a ocupar cada vez mais espaço na agenda pública.
Fontes:
- Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão, dados sobre centenários, seguridade social, cuidados de longa duração e projeções para 2040.
- Statistics Bureau of Japan, estimativas populacionais de 2026.
- OCDE, Economic Survey of Japan 2026 e Employment Outlook 2025: Japan.
- IBGE, Projeções da População do Brasil, revisão 2024.
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